Foram encontrados 65 registros para a palavra: Getúlio Medeiros

Crônica - Caroline Kennedy: Quando o caráter pesa mais que o sobrenome

Alguns sobrenomes pesam mais do que uma herança; tornam-se um destino. Carregá-los significa conviver com comparações, expectativas e uma memória coletiva que transforma pessoas em símbolos antes mesmo que possam descobrir quem realmente elas são.

Há sobrenomes que legam privilégios; outros impõem responsabilidades. Caroline Kennedy conheceu esse fado ainda na infância, quando a história decidiu inscrever seu nome entre aqueles que jamais poderiam viver no anonimato...

Crônica - O vale do submédio São Francisco: Duas margens, um só destino

O calendário guarda datas que são apenas datas e datas que se transformam em símbolos. O 15 de Julho pertence à segunda categoria. Para Juazeiro, não representa apenas o dia em que a antiga vila foi elevada à categoria de cidade, em 1878. Representa o momento em que uma comunidade sertaneja, moldada pelo curso do São Francisco, adquiriu identidade política própria e passou a ocupar lugar definitivo na história regional.

As cidades, assim como os homens, nascem duas vezes: primeiro na geografia e depois na consciência coletiva. O 15 de Julho é precisamente o marco dessa segunda existência...

Crônica - Brasil 1 X 2 Noruega: A derrota e o espelho

Entre os extremos da arrogância e da resignação, nosso povo tem empreendido sua caminhada carregando uma estranha combinação de orgulho e desalento, como alguém que herdou uma fortuna e uma dívida ao mesmo tempo.

Talvez por isso sejamos capazes de celebrar com entusiasmo uma vitória esportiva pela manhã e decretar a falência moral da nação à tarde, oscilando entre a exaltação e o desencanto com a mesma facilidade com que o vento muda de direção...

Crônica - A escala Kardashev e a involução humana

Enquanto a cidade dorme, eu me debato à procura de um sono reparador. Tudo seria mais simples se eu recorresse aos préstimos de Morfeu, mas desconfio dos atalhos químicos para alcançar a paz. Assim, permaneço desperto, entregue ao antigo ofício de pensar.

Nessas horas silenciosas da madrugada, quando os ruídos do mundo se recolhem e as sombras parecem ganhar voz própria, surgem perguntas que a claridade do dia normalmente afasta: para onde caminha a humanidade? E, mais inquietante ainda, será que realmente caminha?..

Crônica- Fly Me To The Moon ou em outras palavras: A furtiva dissimulação para conquistar um coração relutante

No vasto repertório das canções românticas do século XX, poucas obras conseguiram esconder tanto sentimento sob aparente leveza quanto “Fly Me to the Moon”.

À primeira audição, parece apenas uma melodia elegante, dessas que flutuam suavemente entre o jazz e o sonho. Contudo, por trás da viagem poética à Lua, às estrelas e aos planetas, existe uma das mais delicadas declarações de amor já compostas...

Crônica - O sebastianismo e a névoa que habita em nós

Em muitas ocasiões da vida, o ser humano se assemelha a Portugal logo após o desaparecimento de Dom Sebastião. Tudo continua aparentemente no mesmo lugar - as ruas, as igrejas, os compromissos, os discursos —, mas percebe-se que algo essencial desapareceu no horizonte. E já não sabemos exatamente o que foi perdido nem para onde dirigir o olhar.

O Sebastianismo, ainda hoje cultivado em alguns rincões do Brasil, nasceu oficialmente da ausência de um rei há quase quatro séculos e meio. Mas, no fundo, nasceu mesmo do medo: medo do vazio, da perda do rumo, da insegurança diante de um futuro que se recusava a mostrar sua verdadeira face...

Crônica - Nina Simone: A voz que o mundo custou a compreender

Há artistas que interpretam canções, e há artistas que se transformam nelas. Nina Simone pertence a esta última categoria. Sua voz grave, marcada por uma estranha combinação de doçura e fúria, não parecia sair apenas da garganta, mas de alguma região profunda da alma humana onde se acumulam as cicatrizes do sofrimento, da exclusão e da esperança.

Quando cantava, não representava emoções: ela as revivia. Talvez por isso sua obra continue tão atual. Em cada acorde de piano e em cada palavra pronunciada com intensidade quase dolorosa, encontrava-se a história de uma mulher que atravessou a vida carregando o peso de inúmeras decepções, mas que jamais permitiu que elas destruíssem sua dignidade...

Crônica - O nome impronunciável: Onde nasce a fé e a ciência se cala

Vivemos uma época singular. Durante milênios, os homens recorreram a sacerdotes, filósofos e sábios em busca de respostas para os grandes mistérios da existência; hoje, recorrem cada vez mais aos algoritmos. Mudaram os oráculos, mas não as perguntas. Continuamos desejando saber de onde viemos, para onde vamos e, sobretudo, por que existe “algo” em vez do “nada”.

Essa reflexão me ocorreu ao assistir a um vídeo em que uma inteligência artificial era convidada a responder à questão de quem criou o universo...

CRÔNICA - O NÚCLEO REGIONAL DE SAÚDE (NRS) NORTE: O RIO, A SAÚDE E OS BASTIDORES DA ESPERANÇA

No Vale do São Francisco, onde o rio desafia a geografia e insiste em fazer florescer o sertão, existem instituições que, embora raramente ocupem as manchetes dos jornais ou os palanques das solenidades, exercem papel decisivo na vida cotidiana da população.

São organismos que não disputam eleições, não cultivam protagonismos e tampouco vivem da visibilidade pública. Ainda assim, sem eles, a engrenagem social perderia parte substancial de sua capacidade de funcionar. Dentre essas instituições encontra-se o Núcleo Regional de Saúde Norte, sediado em Juazeiro...

Crônica - Solidão X Solitude: A Arte de Conversar com o Silêncio

Outro dia eu me deparei com uma dessas notícias que costumam passar despercebidas pela maioria das pessoas, mas que, por alguma razão misteriosa, encontram abrigo imediato em meu inquieto espírito filosofal. Dizia a matéria que indivíduos entre sessenta e setenta e cinco anos tendem a desenvolver uma notável capacidade de permanecer sozinhos sem transformar o silêncio em solidão.

A observação, embora apresentada sob o crivo da psicologia, pareceu-me tocar uma questão muito mais ampla, situada na fronteira entre a filosofia, a experiência humana e o próprio mistério da existência...

Crônica - Mecenato Juazeirense: A resiliência de Sísifo e a cultura local

O vocábulo “mecenato” tem origem no nome de Caio Mecenas, conselheiro do imperador Augusto que se tornou célebre por proteger e sustentar poetas e intelectuais na Roma Antiga. Por isso, quando alguém financia ou incentiva a produção cultural, diz-se que exerce mecenato.

No período do Renascimento Cultural, famílias abastadas, como os Medici, praticavam o mecenato ao financiar pintores, escultores e filósofos. Hoje, empresas também podem exercê-lo por meio do patrocínio a museus, livros, concertos e projetos sociais. Assim, um escritor, músico ou artista pode ter um “mecenas”: alguém que lhe permita continuar criando...

CRÔNICA - DELÍCIAS DO SERTÃO: UMA ODE À ALEGRIA NO ALTO DA MARAVILHA

Há lugares que alimentam o corpo. Outros alimentam a alma. E existem aqueles raros recantos onde ambas as necessidades se encontram à mesma mesa. Assim é o espaço gastronômico de Dona Lourdes, no Mercado Público do bairro Alto da Maravilha, em Juazeiro.

À primeira vista, trata-se apenas de um pequeno restaurante popular, cercado pelo vai e vem dos feirantes, pelo pregão dos vendedores e pelo ruído cotidiano de uma cidade que trabalha. Mas basta permanecer ali alguns minutos para perceber que o que se serve naquele lugar vai muito além da comida...

Crônica - Elton John: A Melancolia de um Pássaro Glamouroso

Na primeira metade dos anos 1970, o mundo parecia caminhar em direção à liberdade, mas ainda conservava antigos cadeados morais escondidos nos corredores da sociedade.

As ruas haviam conhecido os ventos da contracultura, os jovens falavam em amor livre, os cabelos cresciam ao som das guitarras elétricas e os envelhecidos dogmas religiosos começavam a sofrer rachaduras. Contudo, por detrás daquele verniz libertário, permanecia quase intacta a dificuldade humana de aceitação de tudo que fugia dos padrões tradicionais de comportamento social...

Crônica - Da transmutação ideológica da China: Nova forma de governar.

A história contemporânea da China talvez represente uma das mais intrigantes metamorfoses políticas e ideológicas da modernidade. Poucos países experimentaram uma transformação tão profunda sem, contudo, abandonar oficialmente os símbolos, os ritos e os discursos de sua matriz revolucionária original.

A China do século XXI é, simultaneamente, comunista e capitalista; nacionalista e globalista; tradicional e tecnológica. Trata-se de uma verdadeira transmutação ideológica, capaz de desafiar categorias políticas que, durante décadas, pareceram inquestionáveis...

Crônica - Máximo Gorki: a mãe, o muro e o crepúsculo das utopias

Durante boa parte de minha infância e juventude, dediquei-me à leitura de grandes obras da literatura brasileira e estrangeira, cultivando inclusive o hábito de aprender, ainda que parcialmente, o idioma original de alguns autores, na tentativa de compreender com maior profundidade o espírito de suas ideias. Contudo, cedo percebi uma curiosa diferença: ler uma língua estrangeira costuma ser tarefa menos árdua do que adquirir a fluência necessária para nela se expressar. Talvez porque, naquele tempo, eu sequer conhecesse o Alfabeto Fonético Internacional - o famoso IPA -, esse curioso mapa dos sons humanos que tantos caminhos abre aos filólogos diletantes e aos apaixonados pelos idiomas.

Dentre essas descobertas literárias, uma das obras que mais me impressionaram foi “A Mãe”, de Máximo Gorki. Não se tratava apenas de um romance, mas de uma obra concebida para celebrar o fim de uma era e anunciar o nascimento de outra...

Crônica - A PRINCESA DE DAOMÉ E O CAPITÃO PORTUGUÊS: Uma História de Amor e Superação das Fronteiras Étnicas

Às vezes imagino que meus pais nunca se conheceram numa rua, numa festa ou por obra do acaso. Penso, ao contrário, que se encontraram muito antes, talvez quando uma caravela portuguesa cortou mares desconhecidos, talvez quando tambores africanos anunciaram a chegada de estrangeiros à costa, ou talvez quando o destino, esse velho artesão silencioso, decidira misturar mundos que a História havia insistido em separar.

Aliás, eu gosto de imaginar minha mãe como uma princesa de Daomé, não uma princesa de palácios dourados e coroas adornadas por pedras preciosas, mas uma daquelas que carregam no olhar a força ancestral de um povo inteiro; enquanto meu pai surge em minha imaginação como um capitão português, homem dos mares, herdeiro de uma terra de navegadores e descendente daqueles que acreditavam que o horizonte era apenas o começo do caminho...

Crônica - BRASIL X COREIA DO SUL: Quando o jogo mais importante acontece fora dos gramados

A Copa do Mundo do México, em 1970, ficou eternizada na memória dos brasileiros como o auge do futebol-arte. Sob o brilho de Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson e Rivellino, o Brasil encantou o mundo e conquistou o tricampeonato mundial, ocupando o lugar mais alto do pódio.

Na outra extremidade da tabela, a Coreia do Sul encerrava sua participação de forma modesta, figurando entre as últimas colocações do torneio. Naquele momento, a fotografia parecia perfeita: o Brasil era campeão; a Coreia, apenas uma coadjuvante...

Crônica - PATOLOGIZAÇÃO DO NORMAL: Quando a infância deixa de ser travessura e passa a ser diagnóstico.

A intolerância contemporânea já não se limita a grandes conflitos morais ou a comportamentos efetivamente nocivos. Ela alcança também a inquietação infantil, a espontaneidade humana e até o direito de ser imperfeito. Aos poucos, substitui-se a pedagogia do diálogo pela medicalização da conduta e a orientação paciente pelo diagnóstico apressado.

Durante muito tempo, a infância foi compreendida como território natural da descoberta, da energia e das pequenas travessuras. Meninos corriam, brigavam no recreio, respondiam atravessado, aprontavam alguma arte e, normalmente, tudo terminava em uma advertência dos pais ou em uma conversa firme pelos educadores. Hoje, porém, comportamentos outrora considerados comuns começam a ser observados sob lentes clínicas, como se a espontaneidade tivesse se tornado suspeita...

Crônica - A FILOSOFIA SUBREPTÍCIA DE “HOTEL CALIFORNIA”: entre o êxtase e a impossibilidade de escapar

Lançada em 1976 pela banda Eagles, a música “Hotel California” frequentemente foi interpretada como uma crítica à decadência moral da indústria fonográfica norte-americana. Contudo, existe sob sua superfície uma camada mais sombria e perturbadora: a exploração química da percepção como metáfora de uma travessia sem retorno.

O hotel descrito na canção não seria apenas um espaço físico ou social, mas uma representação simbólica de estados alterados de consciência dos quais o indivíduo talvez jamais consiga sair inteiramente...

Crônica - TRIVIAL: A obviedade (quase) ululante

Existe algo curioso no modo como o tempo não transforma apenas as coisas - ele transforma também as palavras. E, às vezes, essa transformação diz mais sobre nós do que sobre a própria linguagem. A palavra “trivial”, por exemplo, é de uma obviedade ululante.

Hoje, chamar algo de trivial é quase descartá-lo: é dizer que não merece atenção, que já foi gasto pelo uso, que perdeu o brilho. O trivial é o território do automático, do óbvio, do que não exige pensamento. Mas nem sempre foi assim...