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O vocábulo “mecenato” tem origem no nome de Caio Mecenas, conselheiro do imperador Augusto que se tornou célebre por proteger e sustentar poetas e intelectuais na Roma Antiga. Por isso, quando alguém financia ou incentiva a produção cultural, diz-se que exerce mecenato.
No período do Renascimento Cultural, famílias abastadas, como os Medici, praticavam o mecenato ao financiar pintores, escultores e filósofos. Hoje, empresas também podem exercê-lo por meio do patrocínio a museus, livros, concertos e projetos sociais. Assim, um escritor, músico ou artista pode ter um “mecenas”: alguém que lhe permita continuar criando.
Em sentido figurado, portanto, exercer o mecenato é quase dar condições para que a arte ou o pensamento floresçam. Trata-se, sobretudo, de incentivar a produção artística e intelectual, permitindo que artistas, escritores, músicos, pesquisadores e pensadores possam criar sem depender exclusivamente do mercado ou de recursos próprios.
É precisamente nesse ponto que surge a ideia do Mecenato Juazeirense. Diferentemente do modelo governamental previsto pela Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, ele partiria da mesma noção de apoio à cultura, porém com outra escala, outra finalidade e outra identidade.
Em primeiro lugar, teria caráter estritamente local, voltado à proteção da memória e da identidade cultural de Juazeiro. Em vez de abarcar indistintamente as mais variadas manifestações culturais do país, concentrar-se-ia naquilo que a cidade possui de mais singular.
Por isso, o Mecenato Juazeirense priorizaria especialmente a herança de João Gilberto, a Bossa Nova e as carrancas do Rio São Francisco. Perdoem-me por insistir na mesma tecla, mas o legado de João Gilberto é grandioso demais para ser esquecido, relegado a plano secundário ou tratado como efêmera referência histórica.
Para que esse projeto não se tornasse apenas uma ideia generosa, mas difusa, o Mecenato Juazeirense poderia ser conduzido por um Conselho, do qual participariam empresários, artistas, representantes de movimentos culturais e integrantes de instituições de ensino superior com foco na arte e na cultura. Isso permitiria a escolha de projetos fundada na realidade cultural local, e não apenas em critérios amplos e nacionais.
Se o Município de Juazeiro decidir assumir uma presença mais marcante, poderia ser proposta legislação específica que permitisse a destinação de parte do ISS, do IPTU ou de outros tributos municipais a projetos culturais aprovados pelo Conselho do Mecenato Juazeirense.
Dessa forma, o Mecenato Juazeirense cumpriria uma função que vai além do simples financiamento. Ele atuaria como uma verdadeira política de memória. Seria menos uma lei de incentivo e mais uma declaração de pertencimento, pela qual Juazeiro reconheceria determinadas expressões — como a música de João Gilberto e as carrancas — como parte essencial de sua alma coletiva.
Na prática, a Lei Rouanet costuma atrair empresas interessadas em visibilidade nacional e associação de marca a grandes eventos. Já o Mecenato Juazeirense tenderia a produzir outro tipo de reconhecimento: o prestígio de participar da preservação da história local. O empresário não seria apenas patrocinador de um projeto; seria visto como guardião da memória de sua própria cidade.
Assim, enquanto a Lei Rouanet procura incentivar a cultura brasileira em escala nacional, o Mecenato Juazeirense buscaria proteger aquilo que há de mais singular em Juazeiro. Uma corresponde a uma política de alcance amplo; a outra constitui, essencialmente, uma política de identidade.
Caso o Mecenato Juazeirense venha a ser gerido exclusivamente por uma Organização da Sociedade Civil (OSC), nos termos da Lei Federal nº 13.019/2014, propõe-se uma estrutura fundamentada em pilares mais abrangentes: a preservação da memória histórica local, o incentivo às diversas manifestações artísticas e culturais, a valorização do patrimônio material e imaterial e o estímulo à formação de novas gerações de criadores, pesquisadores e agentes culturais.
Essa proposta poderia contemplar ações voltadas à recuperação e dinamização de espaços culturais, à promoção de festivais, exposições, oficinas, projetos educativos, iniciativas de pesquisa histórica, atividades literárias, musicais, audiovisuais e cênicas, bem como programas destinados à proteção e difusão das múltiplas expressões culturais que compõem a identidade juazeirense.
Há, nesse permanente esforço de preservação cultural, algo da antiga metáfora de Sísifo que, de certo modo, se confunde com a própria trajetória de Juazeiro. Assim como o personagem da mitologia grega era condenado a empurrar incessantemente sua pedra montanha acima, também a comunidade juazeirense se vê diante da tarefa contínua de proteger sua memória, seus símbolos e suas tradições contra a erosão do tempo e o esquecimento das novas gerações.
A cada época, a pedra parece rolar novamente encosta abaixo, exigindo renovado empenho para manter vivas as referências que dão sentido à identidade coletiva. A cultura não se preserva por inércia nem sobrevive apenas da glória do passado; ela exige vigilância, dedicação e um permanente trabalho de reconstrução. Tal como Sísifo, Juazeiro encontra na própria persistência a razão de sua grandeza, renovando, geração após geração, o compromisso de honrar sua história e transmitir seu legado ao futuro.
Afinal, a cultura de um povo não se limita às obras que consagrou no passado; ela também se manifesta nas tradições que preserva, nos talentos que forma, nas memórias que cultiva e na capacidade de reinventar continuamente a própria identidade. O Mecenato Juazeirense, nesse sentido, não seria apenas um instrumento de incentivo financeiro, mas um pacto permanente entre cidade, memória e futuro - um compromisso coletivo para que aquilo que nos distingue não se perca no curso do tempo. E a ideia básica do projeto está lançada.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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