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Há lugares que alimentam o corpo. Outros alimentam a alma. E existem aqueles raros recantos onde ambas as necessidades se encontram à mesma mesa. Assim é o espaço gastronômico de Dona Lourdes, no Mercado Público do bairro Alto da Maravilha, em Juazeiro.
À primeira vista, trata-se apenas de um pequeno restaurante popular, cercado pelo vai e vem dos feirantes, pelo pregão dos vendedores e pelo ruído cotidiano de uma cidade que trabalha. Mas basta permanecer ali alguns minutos para perceber que o que se serve naquele lugar vai muito além da comida.
O aroma do café recém-coado mistura-se ao cheiro do cuscuz, da carne de bode, da galinha cozida, do feijão temperado e das receitas que atravessaram gerações. Os clientes chegam com fome, mas acabam levando algo mais precioso do que a refeição: uma experiência de pertencimento. Em tempos em que as pessoas se encontram cada vez menos, o pequeno espaço de Dona Lourdes funciona como um verdadeiro café democrático sertanejo, um território onde convergem as divergências e onde as diferenças perdem a aspereza diante da simplicidade de uma mesa compartilhada.
Ali, sentam-se lado a lado o agricultor e o advogado, o comerciante e o aposentado, o religioso e o descrente, o otimista e o pessimista. Discutem, sempre com comedimento, futebol, política, religião e os mistérios insondáveis da vida. Concordam em alguns pontos, discordam em muitos outros, mas continuam dividindo o mesmo café. Talvez seja exatamente isso que a civilização tenha de mais valioso: a capacidade de conviver sem exigir unanimidade.
Enquanto eu observava um desses encontros, lembrei-me do poeta alemão Friedrich Schiller e de sua célebre “Ode à Alegria”, eternizada na 9ª Sinfonia Beethoven. Nesse belíssimo e reflexivo poema, Schiller celebra a fraternidade humana, sonhando com um mundo onde os homens se reconheçam como irmãos. O ideal pode parecer grandioso demais para os tempos atuais, mas talvez ele sobreviva justamente em lugares modestos como no Café Democrático de Da. Lourdes.
Afinal, a alegria de que falava Schiller não era a felicidade superficial das festas e dos espetáculos. Era algo mais profundo: o reconhecimento da humanidade comum que une pessoas diferentes. E onde essa ideia se manifesta de forma mais concreta do que numa mesa simples, onde estranhos compartilham o pão, a conversa e a esperança?
O sertão, frequentemente retratado apenas por suas secas e dificuldades, possui uma riqueza invisível aos olhos apressados. Sua verdadeira abundância encontra-se na capacidade de acolher. O sertanejo aprendeu, ao longo dos séculos, que sobreviver depende tanto da solidariedade quanto da resistência. Talvez por isso os mercados públicos sejam muito mais do que centros de comércio. São pontos de encontro da memória coletiva. Cada banca conta uma história; cada vendedor guarda um repertório de “causos”; cada freguês carrega consigo um universo de experiências.
Da. Lourdes parece compreender intuitivamente essa filosofia. Seu restaurante não ostenta luxo nem sofisticação. Sua grandeza reside exatamente no contrário. Está no sorriso oferecido a quem chega, na atenção dedicada aos clientes habituais, na receita preparada como quem preserva um patrimônio afetivo. Sua cozinha produz algo que nenhum manual de administração ensina: pertencimento.
Vivemos uma época curiosa. Quanto mais avançam as tecnologias de comunicação, mais as pessoas parecem distantes umas das outras. Conversamos por telas luminosas, mas raramente olhamos nos olhos. Compartilhamos opiniões em redes sociais, mas esquecemos a arte de ouvir. Talvez por isso lugares como o “Delícias do Sertão” possuam um valor que transcende a gastronomia. Eles preservam um ritual humano antigo: o encontro.
Se Schiller pudesse caminhar pelos corredores do Mercado Público do Alto da Maravilha, talvez se surpreendesse ao encontrar ali uma versão sertaneja de sua “Ode à Alegria”. Não haveria orquestra, tampouco coro sinfônico. Em seu lugar, ouviria o som das conversas, das gargalhadas espontâneas, das panelas em atividade e do comércio pulsando vida. Perceberia que a fraternidade não habita apenas os grandes discursos, mas também os pequenos gestos cotidianos.
E talvez concluísse que a alegria verdadeira não mora nos palácios nem nas teorias. Mora onde as pessoas ainda conseguem sentar-se juntas, dividir o alimento e reconhecer umas nas outras a mesma condição humana. No Café Democrático, entre o cheiro do café e os sabores do sertão, Da. Lourdes serve diariamente essa receita invisível. E, sem o saber, transforma cada refeição numa discreta e saborosa Ode à Alegria.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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