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Durante boa parte de minha infância e juventude, dediquei-me à leitura de grandes obras da literatura brasileira e estrangeira, cultivando inclusive o hábito de aprender, ainda que parcialmente, o idioma original de alguns autores, na tentativa de compreender com maior profundidade o espírito de suas ideias. Contudo, cedo percebi uma curiosa diferença: ler uma língua estrangeira costuma ser tarefa menos árdua do que adquirir a fluência necessária para nela se expressar. Talvez porque, naquele tempo, eu sequer conhecesse o Alfabeto Fonético Internacional - o famoso IPA -, esse curioso mapa dos sons humanos que tantos caminhos abre aos filólogos diletantes e aos apaixonados pelos idiomas.
Dentre essas descobertas literárias, uma das obras que mais me impressionaram foi “A Mãe”, de Máximo Gorki. Não se tratava apenas de um romance, mas de uma obra concebida para celebrar o fim de uma era e anunciar o nascimento de outra.
O livro narra a intensa agitação política da Rússia czarista, quando as fábricas produziam riqueza para poucos e sofrimento para muitos. Gorki, moldado pela pobreza, pelas ruas e pela convivência com trabalhadores e militantes revolucionários, acreditava que a literatura não deveria limitar-se a retratar a realidade, mas participar de sua transformação.
Seu romance apresentava mais do que personagens: apresentava uma visão de futuro. E ideias, quando abraçadas por multidões, frequentemente transformam-se em forças históricas.
Na narrativa, Pelagueia Nilovna, uma mãe simples, silenciosa e marcada pela dureza da vida, acompanha a transformação de seu filho Pavel em militante revolucionário. E aqui permito-me abrir um breve parêntese para homenagear um grande guerreiro e amigo: Paulo César de Andrade Carvalho, comunista de convicções firmes e de fidelidade rara às suas ideias, que chegou a dar ao próprio filho o nome de Pável, hoje residente na Polônia.
Feita a justa homenagem, retornemos à obra. Aos poucos, a própria mãe desperta para uma consciência mais ampla e passa a enxergar a luta política como uma causa quase sagrada. Não era apenas o nascimento de uma revolucionária; era o surgimento de uma nova fé. Em Gorki, a revolução assumia a linguagem da redenção, o operário adquiria a condição de protagonista histórico e o futuro parecia carregar a promessa de um homem novo - mais justo, mais fraterno e libertado das correntes da exploração.
Por muitos anos, eu mesmo acreditei nessa travessia. O século XX transformou-se em um vasto laboratório ideológico no qual sistemas políticos disputavam não apenas territórios, mas também consciências humanas. De um lado, a visão socialista prometia igualdade; de outro, o mundo capitalista proclamava liberdade. Entre ambas, porém, ergueu-se um muro de concreto, arame, vigilância e medo - realidade muito distante da fraternidade preconizada pelo ideário da Revolução Francesa.
Entretanto, a História possui uma curiosa inclinação para ironias inesperadas. Na noite de 9 de novembro de 1989, diante de uma multidão incrédula, martelos começaram a atingir o concreto. Pessoas subiram sobre a muralha, abraçaram desconhecidos e celebraram aquilo que parecia impossível. O muro caiu; e com ele ruía também um dos símbolos mais emblemáticos da Guerra Fria. Muitos viram naquele instante não apenas a vitória política de um sistema sobre outro, mas o colapso de uma grande esperança revolucionária iniciada décadas antes. O século assistia ao choque entre a utopia imaginada por escritores como Gorki e a dura experiência histórica produzida em seu nome.
No entanto, enquanto os grandes sistemas ideológicos do século XX disputavam modelos de sociedade e prometiam caminhos para a emancipação humana, algumas nações permaneceram aprisionadas a males mais antigos e persistentes. No Brasil, a corrupção transformou-se numa enfermidade institucional crônica, atravessando governos, partidos, ciclos históricos e discursos de ocasião. Ela não escolhe residência exclusiva na esquerda nem fixa morada definitiva na direita; move-se com notável capacidade de adaptação pelos corredores do poder, infiltrando-se em estruturas administrativas, relações partidárias e práticas sedimentadas ao longo de décadas. Quando recursos destinados à educação, saúde, infraestrutura e políticas sociais são desviados, o prejuízo ultrapassa cifras e estatísticas: produz-se uma erosão silenciosa da própria dignidade nacional.
Quiçá uma das maiores ilusões contemporâneas seja acreditar que a corrupção possua uma identidade ideológica definida. A experiência brasileira demonstra que ela alcança quase todos os setores da vida política nacional, atingindo diferentes grupos, governos e agentes públicos, independentemente de suas bandeiras doutrinárias. Seus efeitos recaem principalmente sobre os mais vulneráveis, perpetuando pobreza, dependência econômica e formas modernas de servidão social. A criança privada de uma educação digna, o enfermo diante de hospitais precários, o trabalhador abandonado pela escassez de oportunidades e comunidades inteiras esquecidas pelo poder público tornam-se vítimas indiretas desse processo corrosivo.
Talvez a grande tarefa histórica do Brasil seja fazer aquilo que o Muro de Berlim simbolicamente ensinou ao mundo: derrubar barreiras. E talvez nenhuma seja mais urgente do que aquela construída pela corrupção, exigindo que esquerda e direita abandonem trincheiras partidárias para reconhecer uma causa comum: a defesa do interesse público e da dignidade nacional.
Todavia, talvez a grande lição não esteja na vitória absoluta de uma ideologia nem na derrota definitiva de outra. A História raramente encerra debates; apenas modifica suas perguntas. A queda do muro não eliminou desigualdades, injustiças ou sonhos de transformação social. Tampouco extinguiu a necessidade humana de acreditar em futuros melhores.
Talvez por isso o ideário sociopolítico de “A Mãe” continue vivo: não apenas como romance político, mas como testemunho de uma inquietação permanente da humanidade. Porque, entre muros erguidos e muralhas derrubadas, o homem continua perseguindo a mesma pergunta desde a eclosão da Revolução Francesa: “Qual promessa de mundo será capaz, enfim, de reconciliar liberdade, igualdade e fraternidade?”
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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