Crônica - O nome impronunciável: Onde nasce a fé e a ciência se cala

22 de Jun / 2026 às 23h00 | Espaço do Leitor

Vivemos uma época singular. Durante milênios, os homens recorreram a sacerdotes, filósofos e sábios em busca de respostas para os grandes mistérios da existência; hoje, recorrem cada vez mais aos algoritmos. Mudaram os oráculos, mas não as perguntas. Continuamos desejando saber de onde viemos, para onde vamos e, sobretudo, por que existe “algo” em vez do “nada”.

Essa reflexão me ocorreu ao assistir a um vídeo em que uma inteligência artificial era convidada a responder à questão de quem criou o universo.

A proposta é fascinante, pois sugere que uma tecnologia capaz de processar volumes gigantescos de informação talvez consiga dissipar a névoa que há séculos envolve essa questão. Entretanto, à medida que a argumentação avança, percebe-se uma passagem quase imperceptível do terreno dos fatos observáveis para uma região muito mais antiga e sedutora: o domínio da especulação.

Não há nada de condenável nisso. A especulação acompanha a humanidade desde que nossos ancestrais passaram a contemplar o céu e a se perguntar sobre a origem das estrelas, das tempestades e da própria vida. A Filosofia nasceu desse impulso. O problema surge apenas quando deixamos de distinguir aquilo que sabemos daquilo que apenas imaginamos saber. quando afirmamos, por exemplo, que o universo surgiu de uma flutuação quântica, nos é apresentada uma hipótese respeitável; mas, quando essa hipótese é convertida em explicação definitiva da realidade, ultrapassa-se a fronteira das evidências. É como declarar concluída uma travessia quando a ponte ainda não alcançou a outra margem.

A própria ciência, em sua melhor expressão, é profundamente humilde. Ela descreve com admirável precisão o comportamento da matéria, da energia e das galáxias, mas encontra dificuldades quando tenta explicar por que as leis da natureza existem ou por que são exatamente como são. Se o universo nasceu de determinadas condições iniciais, de onde vieram essas condições? Se tudo decorre de leis físicas, o que explica a existência das próprias leis? São perguntas que sobrevivem a cada nova descoberta, como se o mistério recuasse um passo sempre que acreditamos estar prestes a alcançá-lo.

Talvez por isso seja tão interessante observar a sabedoria dos antigos hebreus. O nome divino, representado pelas quatro letras YHWH, era considerado tão sagrado que sua pronúncia foi sendo evitada. Em seu lugar dizia-se "Adonai", o Senhor. Mais do que uma prática religiosa, havia aí uma profunda intuição filosófica: certas realidades são grandes demais para serem capturadas por palavras. O nome era considerado inefável, ou seja, impronunciável, porque aquilo que designava transcendia os limites da linguagem humana.

Essa prudência parece faltar ao mundo moderno. Acostumamo-nos a acreditar que nomear uma coisa equivale a compreendê-la. Criamos expressões sofisticadas, teorias elegantes e conceitos técnicos que frequentemente nos oferecem a agradável sensação de entendimento. Contudo, chamar algo de "campo quântico", "multiverso" ou "singularidade primordial" não elimina necessariamente o enigma fundamental da existência. Em muitos casos, apenas substituímos um mistério antigo por uma terminologia mais recente.

A especulação possui, portanto, duas faces. É grandiosa porque amplia os horizontes da imaginação, desafia certezas e impulsiona a busca pelo conhecimento. Mas também encontra seus limites quando ultrapassa o verificável e passa a habitar um território onde convivem hipóteses científicas, sistemas metafísicos, crenças religiosas e conjecturas filosóficas, todos oferecendo fragmentos de sentido sem alcançar uma explicação definitiva.

Talvez a maior ironia de nosso tempo seja que uma inteligência artificial, criada para organizar informações humanas, tenha nos recordado uma das mais antigas lições da sabedoria humana: nem tudo pode ser reduzido a fórmulas. Podemos multiplicar dados, aperfeiçoar algoritmos e construir máquinas cada vez mais poderosas, mas continuaremos encontrando um núcleo de mistério no coração da realidade.

Ao final de tantas teorias, equações e hipóteses, permanece a mesma reverência dos antigos diante do “nome que não podia ser pronunciado”. Não porque o conhecimento seja impossível, mas porque a realidade parece sempre maior do que nossas palavras. Talvez a verdadeira sabedoria não consista em eliminar o mistério, mas em aprender a contemplá-lo com humildade, reconhecendo que algumas perguntas são grandes demais para caber inteiramente em qualquer resposta.

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.

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