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Entre os extremos da arrogância e da resignação, nosso povo tem empreendido sua caminhada carregando uma estranha combinação de orgulho e desalento, como alguém que herdou uma fortuna e uma dívida ao mesmo tempo.
Talvez por isso sejamos capazes de celebrar com entusiasmo uma vitória esportiva pela manhã e decretar a falência moral da nação à tarde, oscilando entre a exaltação e o desencanto com a mesma facilidade com que o vento muda de direção.
Ao longo dos anos, fomos nos acostumando a explicar nossos fracassos recorrendo a uma extensa galeria de culpados. Em determinados momentos, responsabilizamos a colonização portuguesa; em outros, as oligarquias, os militares, os políticos, os banqueiros, os empresários, os sindicatos, os intelectuais, a esquerda ou a direita. Cada geração escolhe seus réus preferidos e monta o seu tribunal moral. Entretanto, enquanto apontamos o dedo para o passado ou para os adversários do presente, a vida continua seguindo adiante, indiferente aos nossos veredictos.
Não se trata, evidentemente, de negar a existência das injustiças. Elas existem e sempre existirão em alguma medida, porque nenhuma sociedade humana é perfeita. A pobreza, a desigualdade, a corrupção e as oportunidades desperdiçadas são realidades que não desaparecem por decreto nem por discurso. O problema surge quando a denúncia deixa de ser instrumento de transformação e se converte em identidade. Quando a condição de vítima passa a definir um povo, a esperança cede lugar ao ressentimento, e o futuro deixa de ser uma construção para tornar-se apenas uma longa reclamação contra o passado.
Foi algo semelhante que percebeu Nelson Rodrigues ao falar do complexo de vira-lata. Não lhe incomodavam as críticas ao Brasil; incomodava-lhe a convicção íntima de que estaríamos condenados à inferioridade. Como se existisse, escondido em algum lugar da alma nacional, um juiz severo repetindo diariamente que nada do que fazemos é suficientemente bom. Curiosamente, esse sentimento pode aparecer tanto naqueles que desprezam o país quanto naqueles que passam a vida inteira procurando justificativas para seus fracassos. Em ambos os casos existe uma renúncia silenciosa à responsabilidade individual e coletiva.
A recente eliminação da Seleção Brasileira diante da Noruega oferece uma imagem eloquente dessa reflexão. Como acontece após cada Copa do Mundo, surgem imediatamente os culpados de plantão: o treinador, os jogadores, os dirigentes, a geração atual e até mesmo o próprio futebol brasileiro. Há quem enxergue na derrota a prova definitiva de uma decadência irreversível. Entretanto, talvez a lição seja outra. A Noruega não venceu porque era maior ou mais importante na história do futebol. Venceu porque, naquele dia, jogou melhor. Reconhecer isso não diminui a nossa história nem apaga os títulos conquistados. A verdadeira grandeza de um povo, assim como a de uma equipe, não está em acreditar-se invencível, mas em saber transformar derrotas em aprendizado.
Eu entendo que o problema não seja perder uma partida. Todos os grandes times do mundo já perderam. O problema surge quando a derrota é convertida em destino ou em desculpa. Quando o fracasso passa a servir como confirmação de uma suposta incapacidade nacional, retornamos ao velho complexo de vira-lata denunciado por Nelson Rodrigues há mais de meio século. A derrota esportiva deixa de ser um resultado circunstancial para tornar-se uma sentença existencial.
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche desconfiava das sociedades que transformavam a dor em credencial moral permanente. Para ele, o sofrimento não deveria ser negado, mas superado. O homem não cresce porque nunca caiu; cresce porque encontrou forças para levantar-se. Essa observação continua surpreendentemente atual. Talvez a grande armadilha do nosso tempo seja acreditar que a consciência dos problemas basta para resolvê-los. Não basta. Conhecer a doença não produz a cura; conhecer o caminho não realiza a caminhada.
O Brasil possui uma característica rara que frequentemente passa despercebida aos próprios brasileiros. Poucos povos enfrentaram tantas adversidades históricas e, ao mesmo tempo, conservaram tamanha capacidade de adaptação. Somos herdeiros de múltiplas matrizes culturais, falamos uma língua comum num território continental e atravessamos sucessivas crises sem perder completamente a coesão nacional. Há defeitos evidentes nessa trajetória, mas também existe uma extraordinária reserva de vitalidade que raramente reconhecemos.
Talvez esteja na hora de abandonar uma pergunta que nos acompanha há décadas: “Quem é o culpado?”. Não porque a história não importe, mas porque ela já não pode ser modificada. Em seu lugar, poderíamos formular outra questão, mais difícil e menos confortável: “O que faremos daqui para frente?”. Essa pergunta exige menos indignação e mais coragem, menos discursos e mais responsabilidade.
Ao final, a maturidade de um povo não se mede pela quantidade de queixas que consegue formular, mas pela capacidade de transformar consciência em ação. As nações, assim como os indivíduos, envelhecem quando passam a acreditar que nada pode ser diferente. E rejuvenescem quando redescobrem a coragem de agir. Talvez o Brasil esteja esperando exatamente isso: não um salvador, não um culpado, tampouco uma nova ideologia redentora, mas milhões de cidadãos dispostos a erguer a cabeça e compreender que a história não é um lugar onde nos escondemos. É um lugar onde somos chamados a participar. “Pra frente, Brasil!!!”.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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