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A intolerância contemporânea já não se limita a grandes conflitos morais ou a comportamentos efetivamente nocivos. Ela alcança também a inquietação infantil, a espontaneidade humana e até o direito de ser imperfeito. Aos poucos, substitui-se a pedagogia do diálogo pela medicalização da conduta e a orientação paciente pelo diagnóstico apressado.
Durante muito tempo, a infância foi compreendida como território natural da descoberta, da energia e das pequenas travessuras. Meninos corriam, brigavam no recreio, respondiam atravessado, aprontavam alguma arte e, normalmente, tudo terminava em uma advertência dos pais ou em uma conversa firme pelos educadores. Hoje, porém, comportamentos outrora considerados comuns começam a ser observados sob lentes clínicas, como se a espontaneidade tivesse se tornado suspeita.
Veio-me à recordação o caso de Gueguel, filho de um amigo do articulista: menino sapeca, arteiro, daqueles que vivem em movimento constante - exatamente como milhões de crianças sempre foram. Na fila do lanche da escola, em meio à agitação típica da idade, Gueguel e alguns coleguinhas pisaram no sapato novo de outro menino, naquela velha brincadeira de “tirar o selo”, tão comum em gerações passadas.
Essa atitude, muito provavelmente, seria merecedora de uma reprimenda educativa, um pedido de desculpas ou uma conversa a esse respeito, mas foi isso que aconteceu. Em vez de uma simples correção disciplinar, Gueguel foi encaminhado ao setor de psicologia da escola. Os pais foram chamados com urgência. O comportamento da criança passou a ser tratado como um sinal preocupante, possivelmente associado a dificuldades emocionais ou sociais. O menino deixou, temporariamente, de ser apenas um garoto sapeca para tornar-se objeto de avaliação.
O episódio revela um fenômeno cada vez mais presente: a patologização do normal, isto é, a tendência de transformar experiências humanas ordinárias em possíveis distúrbios psicológicos ou psiquiátricos. Emoções naturais, como tristeza, ansiedade, timidez, impulsividade ou inquietação, passam rapidamente a ser classificadas como sintomas.
É evidente que transtornos mentais existem e merecem tratamento sério e responsável. O problema surge quando desaparece a fronteira entre o sofrimento psíquico real e os conflitos normais da existência humana.
O filósofo Michel Foucault já advertia que as sociedades modernas possuem forte tendência à normalização dos comportamentos. Tudo aquilo que escapa minimamente ao padrão esperado passa a despertar desconfiança.
Na infância contemporânea, parece haver uma exigência silenciosa de perfeição emocional. Espera-se que a criança seja permanentemente equilibrada, disciplinada, concentrada e socialmente ajustada. O menino inquieto incomoda. A menina introspectiva preocupa. O adolescente rebelde assusta. Tudo parece exigir laudo, relatório ou intervenção técnica.
Talvez o mais preocupante no caso de Gueguel não tenha sido o sapato pisado, mas a rapidez com que uma travessura infantil foi deslocada do campo pedagógico para o campo clínico. O que antes seria resolvido com uma conversa passou a exigir análise comportamental.
Há, nisso tudo, um risco silencioso: o de ensinar às novas gerações que qualquer imperfeição emocional representa uma doença. Crianças passam a crescer acreditando que sentir raiva, frustração, vergonha ou impulsividade é algo necessariamente anormal. E adultos começam a perder a capacidade de distinguir entre sofrimento psíquico genuíno e os inevitáveis conflitos da existência humana.
Nem toda travessura é transtorno. Nem toda inquietação é patologia. E talvez uma sociedade incapaz de tolerar a normalidade imperfeita da infância esteja, ela própria, adoecendo de excesso de diagnóstico.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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