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Crônica - Da transmutação ideológica da China: Nova forma de governar.

A história contemporânea da China talvez represente uma das mais intrigantes metamorfoses políticas e ideológicas da modernidade. Poucos países experimentaram uma transformação tão profunda sem, contudo, abandonar oficialmente os símbolos, os ritos e os discursos de sua matriz revolucionária original.

A China do século XXI é, simultaneamente, comunista e capitalista; nacionalista e globalista; tradicional e tecnológica. Trata-se de uma verdadeira transmutação ideológica, capaz de desafiar categorias políticas que, durante décadas, pareceram inquestionáveis...

Crônica - Máximo Gorki: a mãe, o muro e o crepúsculo das utopias

Durante boa parte de minha infância e juventude, dediquei-me à leitura de grandes obras da literatura brasileira e estrangeira, cultivando inclusive o hábito de aprender, ainda que parcialmente, o idioma original de alguns autores, na tentativa de compreender com maior profundidade o espírito de suas ideias. Contudo, cedo percebi uma curiosa diferença: ler uma língua estrangeira costuma ser tarefa menos árdua do que adquirir a fluência necessária para nela se expressar. Talvez porque, naquele tempo, eu sequer conhecesse o Alfabeto Fonético Internacional - o famoso IPA -, esse curioso mapa dos sons humanos que tantos caminhos abre aos filólogos diletantes e aos apaixonados pelos idiomas.

Dentre essas descobertas literárias, uma das obras que mais me impressionaram foi “A Mãe”, de Máximo Gorki. Não se tratava apenas de um romance, mas de uma obra concebida para celebrar o fim de uma era e anunciar o nascimento de outra...

Crônica - Juazeiro: Quando um Brasão Carrega a Liberdade e Sonha o Futuro

O barrete frígio, hoje reconhecido como um dos mais antigos símbolos universais da liberdade, percorreu uma longa travessia histórica até alcançar os brasões e emblemas republicanos do mundo moderno.

Embora sua origem remeta aos povos da antiga Frígia, na Ásia Menor (atual Turquia), sua carga simbólica ganhou maior significado na Roma Antiga, quando um gorro semelhante - conhecido como “pileus” - passou a ser entregue aos escravizados libertos durante cerimônias de alforria. Mais do que uma peça de vestuário, aquele objeto representava uma condição recém-conquistada: a liberdade civil e a emancipação do indivíduo diante da servidão...

Crônica - A PRINCESA DE DAOMÉ E O CAPITÃO PORTUGUÊS: Uma História de Amor e Superação das Fronteiras Étnicas

Às vezes imagino que meus pais nunca se conheceram numa rua, numa festa ou por obra do acaso. Penso, ao contrário, que se encontraram muito antes, talvez quando uma caravela portuguesa cortou mares desconhecidos, talvez quando tambores africanos anunciaram a chegada de estrangeiros à costa, ou talvez quando o destino, esse velho artesão silencioso, decidira misturar mundos que a História havia insistido em separar.

Aliás, eu gosto de imaginar minha mãe como uma princesa de Daomé, não uma princesa de palácios dourados e coroas adornadas por pedras preciosas, mas uma daquelas que carregam no olhar a força ancestral de um povo inteiro; enquanto meu pai surge em minha imaginação como um capitão português, homem dos mares, herdeiro de uma terra de navegadores e descendente daqueles que acreditavam que o horizonte era apenas o começo do caminho...

Crônica - BRASIL X COREIA DO SUL: Quando o jogo mais importante acontece fora dos gramados

A Copa do Mundo do México, em 1970, ficou eternizada na memória dos brasileiros como o auge do futebol-arte. Sob o brilho de Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson e Rivellino, o Brasil encantou o mundo e conquistou o tricampeonato mundial, ocupando o lugar mais alto do pódio.

Na outra extremidade da tabela, a Coreia do Sul encerrava sua participação de forma modesta, figurando entre as últimas colocações do torneio. Naquele momento, a fotografia parecia perfeita: o Brasil era campeão; a Coreia, apenas uma coadjuvante...

Crônica - PATOLOGIZAÇÃO DO NORMAL: Quando a infância deixa de ser travessura e passa a ser diagnóstico.

A intolerância contemporânea já não se limita a grandes conflitos morais ou a comportamentos efetivamente nocivos. Ela alcança também a inquietação infantil, a espontaneidade humana e até o direito de ser imperfeito. Aos poucos, substitui-se a pedagogia do diálogo pela medicalização da conduta e a orientação paciente pelo diagnóstico apressado.

Durante muito tempo, a infância foi compreendida como território natural da descoberta, da energia e das pequenas travessuras. Meninos corriam, brigavam no recreio, respondiam atravessado, aprontavam alguma arte e, normalmente, tudo terminava em uma advertência dos pais ou em uma conversa firme pelos educadores. Hoje, porém, comportamentos outrora considerados comuns começam a ser observados sob lentes clínicas, como se a espontaneidade tivesse se tornado suspeita...

Crônica - A FILOSOFIA SUBREPTÍCIA DE “HOTEL CALIFORNIA”: entre o êxtase e a impossibilidade de escapar

Lançada em 1976 pela banda Eagles, a música “Hotel California” frequentemente foi interpretada como uma crítica à decadência moral da indústria fonográfica norte-americana. Contudo, existe sob sua superfície uma camada mais sombria e perturbadora: a exploração química da percepção como metáfora de uma travessia sem retorno.

O hotel descrito na canção não seria apenas um espaço físico ou social, mas uma representação simbólica de estados alterados de consciência dos quais o indivíduo talvez jamais consiga sair inteiramente...

Crônica - TRIVIAL: A obviedade (quase) ululante

Existe algo curioso no modo como o tempo não transforma apenas as coisas - ele transforma também as palavras. E, às vezes, essa transformação diz mais sobre nós do que sobre a própria linguagem. A palavra “trivial”, por exemplo, é de uma obviedade ululante.

Hoje, chamar algo de trivial é quase descartá-lo: é dizer que não merece atenção, que já foi gasto pelo uso, que perdeu o brilho. O trivial é o território do automático, do óbvio, do que não exige pensamento. Mas nem sempre foi assim...

CRÔNICA - A VIDA CONFLITUOSA DE LEON TOLSTÓI: da Fé Profunda à Excomunhão

A vida de Leon Tolstói (Lev Nikoláievitch Tolstói) foi marcada por uma das mais intensas contradições espirituais e morais da literatura moderna. Autor de obras monumentais como “Guerra e Paz” e “Anna Kariênina”, Tolstói não foi apenas um romancista extraordinário, mas também um homem atormentado por perguntas religiosas, filosóficas e existenciais.

Em “Guerra e Paz”, as invasões napoleônicas da Rússia servem de pano de fundo para mostrar que guerra e paz não são apenas estados políticos, mas também condições interiores. A guerra representa o caos, a ambição, a vaidade e a ilusão de controle; e a paz, a simplicidade, o amor, a família e a reconciliação consigo mesmo. Já em “Anna Kariênina”, Tolstói sugere que a infelicidade nasce quando as pessoas vivem divididas entre aquilo que desejam e aquilo que a sociedade exige delas. Mais do que um romance amoroso, a obra é uma investigação moral sobre o preço de seguir os próprios sentimentos...

Crônica - La Havana, Cuba: Uma noite que não deveria ter existido

Houve um tempo em que uma frase seca pesava mais do que qualquer carimbo: “NÃO É VÁLIDO PARA CUBA”. Ela repousava nos passaportes brasileiros como um veto silencioso, um limite político que, curiosamente, aguçava ainda mais o desejo. Afinal, poucas coisas são tão sedutoras quanto aquilo que nos é interditado.

Foi nesse tempo de peregrinações comerciais pelo exterior que me encontrei, certa vez, em Nova Iorque - a cidade que nunca dorme, mas que também abriga os sonhos de quem foi obrigado a acordar cedo demais...

Crônica - A tentação da generalidade: Por Que Todo Mundo Odeia o Chris?

Há perguntas que chegam prontas demais - e, por isso mesmo, devem ser recebidas com desconfiança. Em conversas informais, especialmente aquelas que misturam opinião e improviso, não é raro surgirem afirmações iniciadas por “todo mundo” ou “quase todo mundo”. São fórmulas que sugerem consenso, como se traduzissem a voz difusa da humanidade. No entanto, essa aparência de universalidade costuma esconder uma simplificação perigosa.

Foi nesse contexto que, em meio a uma conversa casual, alguém questionou “Pr que todo mundo odeia os judeus”. A frase, lançada com a leveza das certezas fáceis, não se apoiava em análise histórica nem em reflexão sociológica consistente. Ainda assim, carrega peso - não apenas pelo conteúdo, mas pelo modo de pensar que revela...

Crônica - O dia que não houve amanhecer: Tudo se transforma segundo Lavoisier

A manhã havia despertado bem dentro de mim, embora eu mesmo ainda não tivesse percebido esse lânguido despertar. Sentia tão somente um denso vazio, uma espécie de entorpecimento interior que conseguia me manter suspenso entre o sono e a vigília.

Muito mais que de repente, dei-me conta de que não havia qualquer tipo de ruído no interior de mim mesmo nem no exterior, à minha volta. Nem mesmo aquele zumbido habitual que, todas as manhãs, parecia soar em meus ouvidos para me alertar de que chegara a hora de levantar e seguir a labuta, cumprindo os vários ofícios do quotidiano...

Crônica - O Concílio de Niceia: O Início da Teocracia Cristã

A convocação do Concílio de Niceia, em 325 d.C., representou muito mais do que uma simples reunião de bispos. Foi a tentativa do imperador Constantino I de preservar a unidade do Império Romano num momento em que o cristianismo crescia rapidamente e deixava de ser uma fé perseguida para transformar-se numa força política e social.

No centro dessa controvérsia estava Ário, presbítero de Alexandria. Para ele, Jesus Cristo - o Logos, o Filho - não era eterno como o Pai nem partilhava da mesma substância divina...

Crônica - As cruzadas vistas pelos árabes: O Reino dos Céus na Terras Levantinas

Amin Maalouf, nascido em Beirute, em 1949, e atualmente radicado na França, é uma voz central da literatura francófona e do diálogo entre o mundo árabe-islâmico e o Ocidente cristão. Em suas obras, ele alia rigor histórico a sensibilidade narrativa, construindo pontes culturais e oferecendo leituras críticas, densas e nuançadas dos encontros entre civilizações.

Embora eu ainda não tenha lido As Cruzadas Vistas pelos Árabes, guardo viva a lembrança de outra de suas obras, Leão, o Africano, na qual o autor descreve a queda muçulmana na Península Ibérica e a diáspora que se seguiu, lembrando também que muçulmanos e judeus nem sempre estiveram em lados opostos, mas muitas vezes compartilharam destinos, convivências e alianças...

Crônica - Baruch Spinoza: A espiritualidade racional

Nas décadas de 1960/1970, livros de bolso, baratos e fáceis de carregar eram a alegria dos estudantes e dos curiosos por história, política, filosofia e aprendizado de idiomas estrangeiros. Foi em um desses volumes que conheci Baruch Spinoza, filósofo judeu nascido na Holanda em 1632, de origem portuguesa.

Li sua obra-prima, Ética (Ethica ordine geometrico demonstrata) — e, a princípio, pouco entendi. Vindo de uma educação católica rígida, achei o texto denso e desafiador, sobretudo porque Spinoza propunha algo radical e inimaginável: a diferenciação racional, sob o ponto de vista religioso, entre criador e criatura...

Crônica - Onde ela mandar: A Mais Nova Composição de Mauriçola

Instigado por uma repórter que buscava seu posicionamento sobre o caso envolvendo um famoso jogador de futebol, ocorrido no final de 2022 em uma boate em Barcelona, Espanha, o compositor juazeirense Mauriçola optou por não responder na hora, no calor do momento.

O assunto fervilhava e escalava, tendendo a fugir do controle racional das polêmicas. A falta de resposta irritou a entrevistadora e, tempos depois, com o episódio mais arrefecido, ele transformou a situação em música: compôs uma canção inédita em que expõe seu pensamento sobre o que hoje se entende por assédio sexual...

Crônica - A cidade que canta: Juazeiro precisa se ouvir (Parte 2)

Há dias em que Juazeiro acorda com cheiro de rio. Não é só o Velho Chico passando ali, paciente, como quem sabe que o tempo tem suas manhas. É também a memória que vem boiando na superfície: um acorde de João Gilberto, uma carranca que vigia o mundo, um artesão que esculpe silêncio e madeira ao mesmo tempo.

Juazeiro é assim — uma cidade que carrega cultura até no jeito de caminhar. Basta prestar atenção...

Crônica - Sob o sol do sertão

O sertão é a fecundante explosão da vida em forma de fogo e calor. É o movimento dinâmico das coisas sobre o marasmo gélido das cavernas.

O sertão é planta tenra que brota na fenda da pedra como que a indicar o triunfo dos humildes sobre a brutalidade dos bárbaros...

Crônica - A República: O Desafio Ético que o Brasil Não Pode Mais Adiar

As recentes denúncias envolvendo altas autoridades expõem mais do que desvios individuais: revelam um desgaste ético que atravessa partidos, cargos e instituições.

Quando figuras públicas tratam princípios básicos de integridade como detalhes dispensáveis, a política perde credibilidade — e o país inteiro sente as consequências...

Crônica - A cidade que canta: Juazeiro precisa se ouvir.

Há cidades que vivem de silêncio, e há cidades que vivem de som e musicalidade. Pertencente ao segundo grupo, Juazeiro, definitivamente, tem isso de sobra. Aqui, até o vento que passa pela orla parece carregar um ritmo próprio, como se o Velho Chico soprasse acordes antigos para lembrar que esta terra já nasceu musical.

Não é exagero, portanto, asseverar que Juazeiro tem uma vocação natural para a arte. Afinal, foi daqui que saiu João Gilberto, o homem que reinventou a música brasileira com um violão sussurrado e uma batida que mudou o mundo. Mas João não é exceção: ele é síntese. Síntese de um povo que canta, que cria, que transforma o cotidiano em poesia — seja no batuque das comunidades, no improviso dos bares, no talento dos jovens que surgem a cada esquina...