Foram encontrados 73 registros para a palavra: José Gonçalves

Artigo - A boa e a má política

Alguns indivíduos, ou até mesmo grupos sociais, têm tentado, a todo custo, desacreditar a política e os políticos. E o fazem incutindo a ideia de que todos os políticos são iguais e corruptos.

A intenção por trás disso, creio eu, é fazer com que a população perca de uma vez a crença na política e na gestão pública. O problema é que quando perdemos a crença na política, damos margem a três possibilidades, em nada abonadoras...

Artigo - "Hércules-quasímodo"

No dia 2 de dezembro de 1902 – portanto há 120 anos – vinha a lume, na então capital da República, um dos maiores monumentos da literatura brasileira: "Os sertões (campanha de Canudos)", do jornalista, militar e engenheiro Euclides da Cunha, nascido em 20 de janeiro de 1866 e morto em 15 de agosto de 1909.

Reputo injustas e descabidas certas críticas que comumente são lançadas em desfavor da obra de Euclides da Cunha, mormente "Os sertões", o livro que o consagrou no mundo das letras e das ciências...

Artigo - Canudos ontem e hoje

No dia 5 de outubro de 1897 (portanto há 125 anos), ocorreu o desfecho de um dos episódios mais dramáticos da história brasileira.

Tudo começou quando o recém-instaurado governo republicano, com o apoio de setores significativos da elite brasileira (notadamente a igreja Católica, os latifundiários e a imprensa), decidiu exterminar a comunidade sertaneja de Canudos, mobilizando, para tanto, mais da metade de todo o efetivo do exército, que, à época, era de aproximadamente de 20 mil homens...

Mato Queimado (Canto Distópico)

Mato Queimado é real; não é um pesadelo. 
Pesadelos se dissipam com o despertar. 
No caso de Mato Queimado, não; 

Aqui, o sono e o despertar 
São faces da mesma moeda, e o pesadelo, 
Nada mais do que um processo – 
Um processo em plena execução...

Crônica: Salve o artista de rua

Arte é trabalho e delírio. É bênção e maldição. Não dá dinheiro, não garante votos, mas salva almas e cura corações.

O artista é o operário da ilusão e do deslumbre. E seu mundo é o mundo do ilimitado e do imensurável. Seu papel é propor o impossível e subverter a regra, fugindo do óbvio e do previsível...

Artigo - Toda reverência ao solo sagrado de Canudos

Sempre que eu visito os sítios históricos de Canudos faço questão de tirar o meu calçado e permanecer o máximo que posso com os pés apoiados sobre aquele solo ao mesmo tempo quente, sagrado e santificador.

Faço-o por duas razões:

Primeiro, em sinal de respeito aos heroicos sertanejos e às heroicas sertanejas que ali tombaram, a maioria deles e delas insepulta e profanada ante os olhos de cruéis e insensíveis sanguinários, muitos dos quais travestidos de pios cristãos ou de ilustres e conceituados cidadãos de bem.

Isso no país que acabava de proclamar uma república e uma constituição, ambas consideradas como o último bastião do humanismo e do processo civilizatório.

Segundo, porque sinto emanar daquela terra, daquele chão, daquelas escarpas, daqueles arbustos retorcidos alguma coisa que não se explica pela nossa vã filosofia, alguma coisa de místico, de divino, de sobrenatural.

E pisar descalço ali é como entrar em estreita sintonia com aquele universo povoado de tanta energia boa, de uma espiritualidade que se faz presente em cada folha seca, em cada flor mirrada e entristecida, em cada pássaro solitário que vagueia por aqueles céus límpidos e azulados.

Pisar descalço ali é para mim ainda estreitar laços e comunhão com aqueles homens e mulheres, proto-mártires do Brasil republicano – eles que, subjugados pela bala e pela gravata vermelha, acabaram por dar o mais elevado testemunho de fé, de amor e de solidariedade...

Artigo - Sento-Sé por Laurenço Aguiar

“Todo mundo canta sua terra/Eu também vou cantar a minha/Modéstia à parte seu moço/Minha terra é uma belezinha.” Assim diz a primeira estrofe do belíssimo baião composto por João do Vale e interpretado, entre outros, por Alcione e Aldair Soares.

Cantar (e decantar) a terra de origem é um desejo próprio do ser humano, em qualquer tempo ou cultura.  A Odisseia, o Antigo Testamento, Os Lusíadas, a obra de Jorge Amado, as telas de Tarsila do Amaral, a música de Luiz Gonzaga, os cordéis de Leandro Gomes de Barros, tudo isso outra coisa não faz senão cumprir esse desejo que é inato a cada homem e mulher, que é o desejo de cantar, enaltecer, honrar seu torrão natal...

Artigo: Proust, "O Peru de Natal" e o Coronavírus

A literatura é dessas coisas que entram na vida da gente e aí permanecem, ora em forma de luz, ora em forma de caminho. Melhor: parafraseando Proust, literatura é a vida plenamente vivida.

Tenho por algumas obras literárias um apreço quase devocional. Uma dessas obras é o conto “O peru de Natal”, de Mário de Andrade, que leio religiosamente sempre que se aproximam os festejos natalinos...

Espaço do Leitor: Conto de quarentena

Em frente à pequena banca, a única do bairro, Jônatas lia as capas dos principais jornais daquela manhã de segunda-feira. Uma das manchetes dava conta de que seu time do coração – após longos meses de jejum – vencera de goleada a partida do dia anterior, garantindo participação no campeonato estadual.

Logo abaixo da chamada uma foto grande e colorida mostrava um jogador do time vitorioso correndo freneticamente atrás da bola. "Caramba, até que enfim!", pensou Jônatas. Aquela vitória importava muito para ele, torcedor fanático que há muito não via o time da sua paixão ganhar uma partida. Agora sim, sentia-se de alma lavada!..

Espaço do Leitor: Pequeno conto para ser lido daqui a algum tempo

Ainda um tanto espantadas – como se houvessem despertado de um longo pesadelo – as pessoas não sabiam se acreditavam ou não no que estava acontecendo.

Já nos primeiros momentos, uma mensagem de Twitter – veiculada pelo iluminado guru – tentava minimizar a situação, afirmando que tudo não passava de mais uma conspiração com o objetivo de derrubar Sua Excelência, o PR...

Artigo - De lesma, lagarta e outras cositas: o novo livro de Edvan Cajuhy

"Tempo, Crônicas e Contos" é mais uma comprovação da versatilidade do acadêmico bonfinense Edvan Cajuhy. Ele, que já escreveu de quase um tudo, inclusive na língua de Cervantes, agora se aventura na seara do conto e da crônica revelando, também aí, o alcance do seu talento.

"Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e levantarei o mundo", disse Arquimedes. "Dê-me caneta e papel, ou melhor, um laptop e uma taça de vinho, que construirei castelos de sonhos", diria nosso Edvan.

O artista é o operário da ilusão e do assombro, e seu mundo é o mundo do ilimitado e do imensurável. Seu papel é propor o impossível e subverter a regra, fugindo do óbvio e do previsível. Quando tudo parece ir mal e sem remédio, eis que surge a arte como um facho de luz e um lance de esperança.

Arte é trabalho e é delírio. É bênção e maldição. É estupidez e contradição. Não dá dinheiro, não rende votos, mas salva almas e cura corações.

Pois Edvan tem feito disso sua cachaça. Melhor: uma de suas cachaças. O autor, como também este resenhista, adora uma "loira" gelada, de preferência acompanhada de bons papos e bons amigos – o que nesses tempos de "corona" é absolutamente proibido.

Há anos na lide de escrevinhador – ora como um Dom Quixote, ora como um João Batista – o autor tem apostado tudo na literatura.

Talvez por acreditar no novo mundo e no novo homem que só a poesia é capaz de engendrar.

É verdade que a república da Bruzundanga nunca foi afeita à arte. Mas o artista foi feito pra teimar, e Edvan é dessa estirpe.

Aí está "Tempo, Crônicas e Contos" – espécie de diário de bordo povoado de um montão de coisa boa. Ou, como diria Helio Freitas, um caçuá de bugigangas, onde o autor foi colocando tudo que é do seu agrado.

Por aí desfilam pessoas, coisas, viagens e fantasias. O autor não só é amigo das letras, como um amante inveterado do mundo. Viaja sempre que lhe dá na telha. E essas viagens têm lhe rendido histórias pra lá de fabulosas, como algumas enfeixadas neste livro.

Saúdo a poesia e saúdo Edvan Cajuhy, felicitando-o por seu gosto e compromisso para com a literatura brasileira.

José Gonçalves do Nascimento..

Artigo - A morte das estátuas

Os protestos antirracistas que ora se propalam mundo afora, como resposta ao assassinato de George Floyd, trazem pro debate a questão dos monumentos históricos, com todas as suas contradições.

Na esteira desses acontecimentos, um bocado de monumentos públicos relacionados a figurões da escravidão tem sido deitado por terra. Alguns chamarão isso de vandalismo, atentado ao patrimônio público, algo a ser punido nos rigores da lei...

Artigo - O Covid e o papel do estado

Tenho dúvidas – e até acho improvável – que o coronavírus vá provocar uma guinada na vida das pessoas, transformando positivamente de um momento para o outro seus costumes, comportamentos, modo de agir, e os cambaus. As coisas não são tão simples como às vezes podem parecer, sobretudo quando se trata do comportamento humano. E nem é preciso ser psicólogo para saber disso.

Pelo menos até onde se sabe, não foi isso que ocorreu quando de outras crises pandêmicas havidas ao longo da história - tirante, é óbvio, uma possível e natural euforia resultante da sensação de alívio que alguns abençoados tenham tido – uma vez passado o susto...

Artigo - Covid e com-vida: o valor do isolamento

Por que existe o mal? Esta questão acompanha a humanidade desde que o mundo é mundo.

A pergunta é assunto para os doutores da Teodiceia e da Teologia, para os quais o mal é parte do percurso humano rumo à perfeição – estando portanto inserido no plano da Salvação eterna...

Artigo - DEPOIS DO CORONAVÍRUS (do valor do recolhimento)

Por que existe o mal? Esta questão acompanha a humanidade desde que o mundo é mundo. A pergunta é assunto para os doutores da Teodiceia e da Teologia, para os quais o mal é parte do percurso humano rumo à perfeição – estando portanto inserido no plano da Salvação eterna.

O iluminista Voltaire encarou a questão de forma um tanto cômica e divertida. No romance filosófico “Cândido”, o personagem Pangloss – após uma série de fracassos e contratempos – dirige-se ao protagonista da trama (Cândido) nos seguintes termos: “Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois afinal, se não tivesse sido expulso de um lindo castelo com uma saraivada de pontapés no traseiro por amor a Cunegundes, se não tivesse sido perseguido pela Inquisição, se não tivesse perdido todos os carneiros do bom país de Eldorado, não estaria aqui comendo cidras cristalizadas e pistaches"...

Artigo - Depois do Coronavírus

Ruas desertas, negócios paralisados, aulas suspensas, igrejas de portas fechadas, espetáculos cancelados, famílias confinadas, autoridades em polvorosa, projetos interrompidos, interesses prejudicados ...

A humanidade toda parece tremer diante da pandemia do coronavírus, que ora infesta os quatro cantos do planeta, levando o pânico e a dor.  O inimigo – invisível, mas real – agiganta-se a todo o momento, ganhando formas mais e mais assustadoras, capazes de colocar o mundo inteiro de joelhos...

ARTIGO - O BAILE FUNK E A LICENÇA PARA MATAR

A barbárie de Paraisópolis nada mais é do que resultado do ódio de classe cultivado pela burguesia brasileira, cuja mentalidade é ainda aquela do antigo senhor de escravos, a quem era dado, entre outras coisas, a prerrogativa de decidir sobre a vida e sobre a morte.

O atual burguês encara a favela com a mesma sensação com que o senhor de engenho encarava a antiga senzala. Ou seja, como propriedade sua, sujeita à exploração, ao constrangimento, e, se preciso, à eliminação física. Os lundus das senzalas de então podem ser os bailes funk das quebradas de hoje. De contrapartida, o chicote e o pelourinho de outrora podem ser o camburão e o fuzil desses dias em que vivemos.  ..

Espaço do leitor: PARAISÓPOLIS É O BRASIL

PARAISÓPOLIS É O BRASIL

Na cidade que é a mais capitalista das cidades,
A favela mais populosa da cidade
Fica ao lado do bairro mais rico da cidade...

OPINIÃO: MARX E A DULCE DOS POBRES

Não há na história humana qualquer fato, qualquer acontecimento, seja de que ordem for, que possa ser “quimicamente puro”, no  sentido de inquestionável, imune a qualquer ressalva, acima do bem ou do mal,  ou coisa que o valha. A história nunca é feita da forma como idealizado, nem entre os santos, mesmo porque os santos, como todos os outros humanos, são filhos e frutos da história.

É comum acharmos que este ou aquele acontecimento deveria ter sido assim ou assado e não da forma como se apresenta (ou foi apresentado); que determinado personagem errou porque não disse ou não fez aquilo que nós reputamos como sendo o correto, mesmo que às vezes estejamos a mil anos luz desse personagem...

ARTIGO - DRUMMOND E CANUDOS

Em 5 de outubro, dia da queda do arraial do Conselheiro, acordei com uma passagem de Drummond, pinçada numa crônica de 1965. Ei-la: “Canudos é dessas coisas de doer na consciência”. É sério, Drummond falou de Canudos. Aliás, todos (ou quase todos) os intelectuais brasileiros falaram (e falam) de Canudos, desde Machado até nosso Ivan Santtana, que acaba de publicar um romance sobre o tema. Uns falaram bem, outros, mal. Mas falaram. 

Verdade é que, passados tantos anos, o tema Canudos continua a despertar o interesse de mais e mais pessoas, aqui e alhures.  Prova disso foi a última festa literária de Paraty, no Rio. Não só a festa. A festa e a cobertura da festa, é bom que se diga. Basta lembrar que num só dia três dos principais jornais do país trataram do arraial do Conselheiro, paralelamente ao tema de Euclides, o homenageado do evento. ..