
Quando o Movimento Econômico decidiu realizar os seminários Conexões Transnordestina, no segundo semestre de 2025, com o apoio da Sudene, o fez por dois motivos: reacender o debate em torno da ferrovia, que estava completamente esquecido no estado, e dar voz a quem produz, compreendendo melhor quais cargas poderiam dar sustentação econômica ao projeto.
O seminário percorreu o estado e, no trajeto, havia apenas uma localidade que ficava fora do traçado da ferrovia: Petrolina.
Não fazia sentido. Petrolina é a principal cidade do Vale do São Francisco, região que concentra uma das cadeias produtivas do agronegócio mais fortes do Nordeste. E não estamos falando apenas de frutas. A região reúne vinícolas em Petrolina, Lagoa Grande, Santa Maria da Boa Vista e Casa Nova, além de indústrias de sucos, polpas, geleias, compotas e doces. Também se destaca a Agrovale, em Juazeiro, com produção de açúcar, etanol e bioenergia. Esse conjunto amplia o potencial de cargas da região, tanto na saída de produtos processados quanto na entrada de embalagens, fertilizantes, combustíveis, máquinas e outros insumos.
A INFRA S.A. aceitou o convite e esteve presente nos debates promovidos pelo seminário Conexões Transnordestina, representada pelo diretor de Empreendimentos da INFRA S.A., André Ludolfo. Ele ouviu empresários, gestores e representantes das cadeias produtivas e pôde conhecer mais de perto uma realidade que, muitas vezes, não aparece integralmente nos estudos elaborados a distância.
No último fim de semana, o Movimento Econômico anunciou com exclusividade o Edital RLE nº 002/2026, aberto pela INFRA S.A., que coloca em licitação os estudos de um corredor de 947 quilômetros entre Juazeiro do Norte, no Ceará, e Juazeiro, na Bahia, passando por Salgueiro e Petrolina e chegando a Suape. A contratação, estimada em R$ 10,99 milhões, inclui análises técnicas, econômico-financeiras, ambientais e jurídicas para uma futura concessão.
O edital não significa que a ferrovia será imediatamente construída, mas representa um resultado concreto do amadurecimento desse debate. Pela primeira vez, a ligação Petrolina–Salgueiro aparece incorporada a um planejamento mais amplo, capaz de integrar o Cariri, o Vale do São Francisco e o Sertão pernambucano ao porto.
Por outro lado, é preciso evitar uma análise estática da demanda. Uma ferrovia não transporta apenas as cargas que já existem. Ao reduzir custos logísticos e abrir passagem por novos territórios, ela cria condições para que outros negócios se instalem ao longo do traçado.
O mapa geológico de Pernambuco aponta que o estado tem um potencial mineral relevante e bastante diversificado, com destaque para rochas e minerais industriais — como gesso, brita e rochas ornamentais —, fosfato, ouro e metais como ferro, titânio, vanádio e níquel, além de um insumo estratégico para a tecnologia de ponta, a transição energética e o poder militar: as terras raras. Na região de Buíque, esses minerais são enriquecidos em tório.
Todo esse potencial mineral ainda é pouco ou nada explorado, em parte pela ausência de transporte competitivo para grandes volumes. Jazidas que hoje não apresentam viabilidade econômica podem ganhar outra perspectiva com uma ferrovia próxima. Mineração, beneficiamento, armazenagem, terminais de carga e serviços industriais podem surgir ou se expandir, como se vê agora no Ceará, com o avanço da Transnordestina em direção ao Porto do Pecém.
O Conexões Transnordestina ajudou a retirar a discussão do campo abstrato e a colocá-la diante da realidade produtiva. Ao levar o debate a Petrolina e aproximar a INFRA S.A. dos agentes econômicos locais, o Movimento Econômico cumpriu seu papel de conectar informação, planejamento e desenvolvimento. O edital mostra que ouvir os territórios pode, de fato, produzir resultados.
Movimento Economico/Patricia Raposo Diario de Pernambuco Foto Agencia Brasil



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