Artigo: Quando a música é esperança

Há momentos em que as palavras falham. Quando tudo ao nosso redor se desmorona, as certezas, os planos, as ilusões que nos sustentavam, não há discurso que repare o vazio, não há explicação que preencha o abismo. Nessas horas, quando a razão se mostra insuficiente e a lógica nos abandona, resta buscar refúgio em algo que transcenda a linguagem racional.

Albert Camus conhecia esse silêncio. Chamava-o de absurdo: o encontro entre nosso desejo de sentido e a indiferença muda do universo. O mundo não nos deve explicações. Não há propósito cósmico à nossa espera. É justamente nessa constatação que reside a verdadeira condição humana: estamos sós num universo que não responde.

Eu poderia falar da esperança como conceito abstrato, como virtude teológica ou estratégia psicológica de sobrevivência. Seria, porém, evasivo. A verdade é mais simples: a música é uma das poucas coisas que me devolve esperança. Não a esperança racional, erguida sobre fundamentos sólidos, haja algo mas aquela que sussurra, que roça a pele como um toque quase imperceptível, lembrando que talvez ainda a viver. É a esperança de quem compreendeu o absurdo e, ainda assim, se recusa a desistir.Tomo Feeling Good, de Nina Simone, como exemplo privilegiado. Não é apenas uma canção: é uma declaração de guerra contra o desespero. Há algo naquela voz rouca, naquele otimismo contido, mas inabalável, que me faz acreditar, ainda que por alguns minutos, que o mundo não é apenas escuridão. Aos primeiros acordes, sinto como se uma cortina se abrisse. A canção desce sobre mim não como mortalha, mas como amanhecer.

É aqui que Camus encontra Spinoza. Na Ética, Spinoza ensina que cada ser é atravessado por um conatus, que é o esforço pelo qual cada coisa, enquanto está em si, se empenha em perseverar em seu próprio ser. Essa força elementar, que em nós se faz desejo, é o que Spinoza chama de potência de agir. Ela pode ser diminuída pelas paixões tristes, tudo aquilo que nos consome, que nos faz encolher, ou aumentada pelas paixões alegres, que dilatam a vida e ampliam a capacidade de sentir, compreender e resistir. A esperança, lida sob essa luz, deixa de ser ilusão consoladora: é o próprio conatus reafirmando-se. É a potência que se recusa a apagar-se.

A música, então, não é mero ornamento. É uma das vias pelas quais a potência de agir se exerce e se multiplica. Quando Nina Simone canta, algo em mim, algo que Spinoza diria ser meu próprio ser esforçando-se por durar, reconhece naquela voz um aliado. O afeto alegre que a canção produz não é fuga: é acréscimo de ser. É o conatus tornado som.

Camus dizia que devemos imaginar Sísifo feliz. Não porque a situação mudou, mas porque Sísifo aprendeu a amar a própria luta. Spinoza acrescentaria: Sísifo é feliz porque sua potência de agir, em vez de ser esmagada pela pedra, encontrou na repetição do gesto sua forma mais pura de afirmação. 

Liberdade, para Spinoza, não é ausência de determinação, isso é impossível, mas coincidência entre o que se é e o que se pode. Nina Simone faz algo semelhante: canta Feeling Good não porque o mundo se tornou bom, mas porque escolhe, e escolher, em Spinoza, é tornar-se causa adequada dos próprios afetos, afirmar a beleza apesar de tudo. Ela rola sua pedra em forma de melodia, e nesse gesto encontra aquela liberdade precisa: a do ser que se apropria, cantando, de sua própria perseverança.

A música faz algo que as palavras não conseguem. Não explica. Não justifica. Não tenta convencer com argumentos. Simplesmente existe, e nessa existência oferece um espaço onde a dor pode ser transformada em beleza. A arte, em suas múltiplas formas, compartilha dessa capacidade de transcender a explicação e tocar algo mais profundo em nós.

Enquanto tudo se dissolve em palavras que nada alcançam, a música permanece. É um silêncio que ensurdece nossa pressa. Quando Nina Simone canta Feeling Good, não escuto uma canção: escuto alguém que recusa o silêncio, que insiste em existir apesar de tudo. É o conatus cantando.

Vivemos num mundo fragmentado. Somos ilhas de consciência flutuando num oceano de incomunicabilidade mútua. Essa solidão é quase insuportável. Camus a conhecia bem. Mas quando uma boa música toca, por um breve instante, esses mundos se tocam. Descobrimos que alguém, em outro tempo, em outro lugar, sentiu o mesmo vazio, e, apesar disso, escolheu cantar. Spinoza diria: as potências compõem-se. Afetos comuns formam corpos maiores. Na Ética, os homens são mais úteis uns aos outros na medida em que vivem sob a guia da razão e da alegria. Nesse encontro, a pedra fica mais leve.

A ponte pode ser construída de muitas formas: num livro que nos fala como se conhecesse nossa alma, num abraço silencioso, numa obra que nos espera há séculos num museu. Cada forma de arte, cada gesto de compaixão, é uma pequena vitória do conatus sobre a entropia (a tendência ao caos) do mundo.

Não sou ingênuo. A música não resolve os problemas do mundo. Não cura doenças, não alimenta os famintos, não silencia os canhões. Camus também não era ingênuo: a revolta contra o absurdo não altera a natureza do universo. Nem Spinoza o era: a alegria não abole a morte nem a necessidade. Mas ambos sabiam, e a música confirma, que existe um modo de viver que não é nem desespero nem resignação: é a afirmação ativa da vida apesar de sua futilidade aparente.

Talvez seja isso que a esperança realmente é: não a certeza de que tudo ficará bem, mas a recusa em aceitar que tudo está perdido. É a voz de Nina Simone ecoando na noite, dizendo: ainda há beleza, ainda há som, ainda há vida. É Sísifo no topo da montanha, por um breve instante, antes de a pedra rolar novamente. É a potência de agir afirmando-se contra todas as paixões tristes, como quem diz, em meio ao silêncio do cosmos: ainda sou. 

Ainda há esperança.

Às vezes, quando as palavras não bastam, a música diz tudo. Outras vezes, é um silêncio compartilhado, um gesto inesperado, uma página que nos devolve a nós mesmos. E quando até essas formas calam, resta a certeza de que, como Sísifo, continuaremos. Porque não há outra escolha. 

Estranhamente, isso é o suficiente.

Luiz Antonio Costa de Santana, Professor da Univasf e da Uneb. Doutor em Direito. Também é Doutor em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental. Advogado e Engenheiro. É presidente da Comissão de Direito Constitutcional da OAB/Petrolina.