Artigo: Quando a música é esperança

20 de Apr / 2026 às 08h36 | Espaço do Leitor

Há momentos em que as palavras falham. Quando tudo ao nosso redor se desmorona, as certezas, os planos, as ilusões que nos sustentavam, não há discurso que repare o vazio, não há explicação que preencha o abismo. Nessas horas, quando a razão se mostra insuficiente e a lógica nos abandona, resta buscar refúgio em algo que transcenda a linguagem racional.

Albert Camus conhecia esse silêncio. Chamava-o de absurdo: o encontro entre nosso desejo de sentido e a indiferença muda do universo. O mundo não nos deve explicações. Não há propósito cósmico à nossa espera. É justamente nessa constatação que reside a verdadeira condição humana: estamos sós num universo que não responde.

Eu poderia falar da esperança como conceito abstrato, como virtude teológica ou estratégia psicológica de sobrevivência. Seria, porém, evasivo. A verdade é mais simples: a música é uma das poucas coisas que me devolve esperança. Não a esperança racional, erguida sobre fundamentos sólidos, haja algo mas aquela que sussurra, que roça a pele como um toque quase imperceptível, lembrando que talvez ainda a viver. É a esperança de quem compreendeu o absurdo e, ainda assim, se recusa a desistir.Tomo Feeling Good, de Nina Simone, como exemplo privilegiado. Não é apenas uma canção: é uma declaração de guerra contra o desespero. Há algo naquela voz rouca, naquele otimismo contido, mas inabalável, que me faz acreditar, ainda que por alguns minutos, que o mundo não é apenas escuridão. Aos primeiros acordes, sinto como se uma cortina se abrisse. A canção desce sobre mim não como mortalha, mas como amanhecer.

É aqui que Camus encontra Spinoza. Na Ética, Spinoza ensina que cada ser é atravessado por um conatus, que é o esforço pelo qual cada coisa, enquanto está em si, se empenha em perseverar em seu próprio ser. Essa força elementar, que em nós se faz desejo, é o que Spinoza chama de potência de agir. Ela pode ser diminuída pelas paixões tristes, tudo aquilo que nos consome, que nos faz encolher, ou aumentada pelas paixões alegres, que dilatam a vida e ampliam a capacidade de sentir, compreender e resistir. A esperança, lida sob essa luz, deixa de ser ilusão consoladora: é o próprio conatus reafirmando-se. É a potência que se recusa a apagar-se.

A música, então, não é mero ornamento. É uma das vias pelas quais a potência de agir se exerce e se multiplica. Quando Nina Simone canta, algo em mim, algo que Spinoza diria ser meu próprio ser esforçando-se por durar, reconhece naquela voz um aliado. O afeto alegre que a canção produz não é fuga: é acréscimo de ser. É o conatus tornado som.

Camus dizia que devemos imaginar Sísifo feliz. Não porque a situação mudou, mas porque Sísifo aprendeu a amar a própria luta. Spinoza acrescentaria: Sísifo é feliz porque sua potência de agir, em vez de ser esmagada pela pedra, encontrou na repetição do gesto sua forma mais pura de afirmação. 

Liberdade, para Spinoza, não é ausência de determinação, isso é impossível, mas coincidência entre o que se é e o que se pode. Nina Simone faz algo semelhante: canta Feeling Good não porque o mundo se tornou bom, mas porque escolhe, e escolher, em Spinoza, é tornar-se causa adequada dos próprios afetos, afirmar a beleza apesar de tudo. Ela rola sua pedra em forma de melodia, e nesse gesto encontra aquela liberdade precisa: a do ser que se apropria, cantando, de sua própria perseverança.

A música faz algo que as palavras não conseguem. Não explica. Não justifica. Não tenta convencer com argumentos. Simplesmente existe, e nessa existência oferece um espaço onde a dor pode ser transformada em beleza. A arte, em suas múltiplas formas, compartilha dessa capacidade de transcender a explicação e tocar algo mais profundo em nós.

Enquanto tudo se dissolve em palavras que nada alcançam, a música permanece. É um silêncio que ensurdece nossa pressa. Quando Nina Simone canta Feeling Good, não escuto uma canção: escuto alguém que recusa o silêncio, que insiste em existir apesar de tudo. É o conatus cantando.

Vivemos num mundo fragmentado. Somos ilhas de consciência flutuando num oceano de incomunicabilidade mútua. Essa solidão é quase insuportável. Camus a conhecia bem. Mas quando uma boa música toca, por um breve instante, esses mundos se tocam. Descobrimos que alguém, em outro tempo, em outro lugar, sentiu o mesmo vazio, e, apesar disso, escolheu cantar. Spinoza diria: as potências compõem-se. Afetos comuns formam corpos maiores. Na Ética, os homens são mais úteis uns aos outros na medida em que vivem sob a guia da razão e da alegria. Nesse encontro, a pedra fica mais leve.

A ponte pode ser construída de muitas formas: num livro que nos fala como se conhecesse nossa alma, num abraço silencioso, numa obra que nos espera há séculos num museu. Cada forma de arte, cada gesto de compaixão, é uma pequena vitória do conatus sobre a entropia (a tendência ao caos) do mundo.

Não sou ingênuo. A música não resolve os problemas do mundo. Não cura doenças, não alimenta os famintos, não silencia os canhões. Camus também não era ingênuo: a revolta contra o absurdo não altera a natureza do universo. Nem Spinoza o era: a alegria não abole a morte nem a necessidade. Mas ambos sabiam, e a música confirma, que existe um modo de viver que não é nem desespero nem resignação: é a afirmação ativa da vida apesar de sua futilidade aparente.

Talvez seja isso que a esperança realmente é: não a certeza de que tudo ficará bem, mas a recusa em aceitar que tudo está perdido. É a voz de Nina Simone ecoando na noite, dizendo: ainda há beleza, ainda há som, ainda há vida. É Sísifo no topo da montanha, por um breve instante, antes de a pedra rolar novamente. É a potência de agir afirmando-se contra todas as paixões tristes, como quem diz, em meio ao silêncio do cosmos: ainda sou. 

Ainda há esperança.

Às vezes, quando as palavras não bastam, a música diz tudo. Outras vezes, é um silêncio compartilhado, um gesto inesperado, uma página que nos devolve a nós mesmos. E quando até essas formas calam, resta a certeza de que, como Sísifo, continuaremos. Porque não há outra escolha. 

Estranhamente, isso é o suficiente.

Luiz Antonio Costa de Santana, Professor da Univasf e da Uneb. Doutor em Direito. Também é Doutor em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental. Advogado e Engenheiro. É presidente da Comissão de Direito Constitutcional da OAB/Petrolina.

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