Espaço do Leitor: O escorpião, a sanguessuga e a crise de coerência em Juazeiro por Luiz Alves

Juazeiro está em ebulição.

Um vídeo circula, com denúncias graves contra o Governo do Estado. E é preciso deixar claro, desde o início: denúncia séria não se combate com silêncio. Se há verdade, que se investigue. Se há erro, que se corrija. Fiscalizar é obrigação de quem foi eleito.

Mas o problema aqui não é apenas o conteúdo.

É o mensageiro.

Porque política não é só discurso — é trajetória. É coerência. É posicionamento ao longo do tempo. E é exatamente aí que mora a desconfiança que hoje toma conta das ruas de Juazeiro.

Estamos falando de alguém que já esteve de um lado, depois do outro, e agora volta a atacar justamente aqueles com quem caminhava até ontem. Não é mudança por amadurecimento político — é mudança por conveniência. E o povo percebe. O povo sente. O povo reage.

E é nesse cenário que duas figuras simbólicas ajudam a explicar o que estamos vendo.

A primeira é o escorpião.

Na velha fábula, ele pede ajuda para atravessar o rio. Promete que não vai atacar. Mas no meio do caminho, ferroa. Condena o outro — e a si próprio. Quando questionado, responde: "é da minha natureza".

Na política, o escorpião é aquele que não consegue sustentar alianças, não respeita compromissos, não mede consequências. Ataca por impulso, por instinto, mesmo que isso destrua sua própria credibilidade. Mesmo que isso o afogue junto com quem ele atingiu.

A segunda figura é ainda mais reveladora: a sanguessuga.

Ela não faz barulho. Não cria discurso inflamado. Ela simplesmente se fixa, suga enquanto há o que sugar, e quando o corpo já não oferece mais sustento... ela solta. E procura outro.

Sem lealdade. Sem compromisso. Sem história.

A política feita assim não constrói nada. Apenas consome.

E é exatamente essa sensação que está tomando conta da população de Juazeiro: a de que não se trata de um posicionamento ideológico legítimo, mas de uma movimentação calculada, oportunista, feita no calor de um momento — talvez até com olho em cenários maiores, em palanques futuros, em conveniências eleitorais.

E aí surge o maior problema de todos:

Quando a denúncia vem de quem não tem coerência, ela perde força.

Quando a crítica vem de quem já esteve em todos os lados, ela perde credibilidade.

E quando a população percebe isso, o efeito é devastador — porque até o que pode ser verdade passa a ser visto com desconfiança.

Isso não é bom para ninguém. Nem para o governo, nem para a oposição, e muito menos para o povo.

Porque o debate deixa de ser sobre os problemas reais e passa a ser sobre a confiabilidade de quem fala.

Juazeiro não precisa de escorpiões que atacam por instinto.

Juazeiro não precisa de sanguessugas que se alimentam e depois abandonam.

Juazeiro precisa de firmeza. De coerência. De gente que tenha lado — e que sustente esse lado quando é fácil, mas principalmente quando é difícil.

Porque no final das contas, o povo não está mais interessado em quem grita mais alto.

Está interessado em quem consegue sustentar a própria palavra.

E isso... não se improvisa.

LUIZ ALVES