RedeGN - ARTIGO – CORRUPÇÃO: “UMA SENHORA IDOSA...!”

ARTIGO – CORRUPÇÃO: “UMA SENHORA IDOSA...!”

Por mais que alguns se esforcem em ocultar essa verdade, é indisfarçável como as práticas democráticas sofreram, nos últimos tempos, uma visceral mudança conceitual. Passou a ser proibitivo alguém assumir postura contrária ou de combate aos princípios nocivos que abastecem a sustentação do Projeto de Poder do partido dominante. Tantas foram as suas justas lutas, no passado, pela liberdade em todos os sentidos, que era de se imaginar que a conquista do poder se revelaria uma forma exemplar de convivência com as divergências e o respeito ao direito inalienável do pensamento livre de qualquer cidadão, sobretudo quando ele se materializa no combate ao crime infiltrado nas instituições públicas. Mas, a verdade tem sido outra com um grande contingente de pseudos-intelectuais que, ao invés de usarem argumentos convincentes que defendam as causas inglórias de uma inepta gestão pública, preferem buscar justificativas de amparo nos erros cometidos por adversários, além de desrespeitarem com expressões de baixo nível aqueles que exercitam o direito de se manifestarem livremente. E, como se não bastassem as atitudes isoladas dos sectários, ainda há correntes do governo que querem aprovar uma lei de controle das comunicações, o que significa instituir um desastroso modelo de censura à imprensa, cuja anomalia é típica das ditaduras que tanto combatem da boca pra fora, a exemplo de Cuba e Venezuela.

Tenho por dogma respeitar as posições contrárias, mas continuarei atento aos fatos que embalam esse barco à deriva...

O grande desencanto em que vive toda a sociedade brasileira diante do baixíssimo nível de moralidade de que se reveste o comportamento das pessoas, com maior evidência nas atitudes dos principais atores que atuam nas instituições públicas em geral, desde os agentes menos expressivos às arraias graúdas, sinaliza, permanentemente, a expectativa de que uma luz seja acesa no final do túnel, indicando que tudo isso é temporário e de que algo de novo irá acontecer nesse deplorável cenário.

Naturalmente que isso não surgirá do nada, sem que haja uma ação firme de alguma liderança comprometida com essas transformações, não importa se de formação política, religiosa ou cultural, mas que tenha o poder do convencimento na implantação de conceitos para uma nova sociedade. Quando o cronista Vladimir Safatle emitiu a frase “um país que precisa da refundação radical de sua República”, a qual citei na crônica anterior, obviamente que a sua metáfora queria nos conduzir ao entendimento de que precisamos recomeçar todo o processo de formação do nosso caráter, trocando-se a OPERAÇÃO LAVA JATO por uma completa OPERAÇÃO DE LAVAGEM MORAL, de modo que se consolidasse uma nova República, constituída de homens de bem e de respeito.

Lamentavelmente as nossas lideranças têm nos passado um sentimento de aceitação desse perfil vigente, como se fosse suficiente o investigar e punir (este último, aliás, nem sempre acontece!). Por exemplo, nas oportunidades em que as autoridades mais representativas falam para grandes plateias ou dão entrevistas coletivas, nada melhor que palavras mais incisivas fossem colocadas, expressando esse desejo de mudança comportamental. Ao invés disso, utilizam-se das frases de efeito que provocam risos de aprovação, mas que nada constroem de positivo.

Em recente entrevista coletiva, a Presidente, na ânsia de se defender do mar de lama que vem dando grande notoriedade negativa ao seu governo, usou uma expressão muito inadequada para justificar que toda essa sujeira é muito antiga, quando afirmou: “A corrupção não nasceu hoje. Ela é uma senhora bastante idosa neste país e não poupa ninguém. Ela pode estar em qualquer área, inclusive no setor privado”. Creio que as “senhoras idosas” não aprovaram essa infeliz declaração... Além dela não ter dito nenhuma novidade sobre essa herança maldita, apenas tornou evidente certa dose de resignação. Não basta dizer, como consolo, que “nunca se permitiu investigar tanto” como agora, esquecendo que essa é uma obrigação do Estado. O que se deseja é vê uma atitude determinada de quem tem o poder de estimular um processo de mudança, ainda que tardio...

O jogador Gerson, craque campeão do mundo em 1970, ao fazer um comercial em 1976 de uma marca de cigarro, utilizou uma frase que se tornou emblemática como definição daqueles que querem levar vantagem em tudo, sem se importar com questões éticas e morais: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também”. Foi aí que surgiu a Lei de Gerson, hoje praticada por muitos.

Nada ilustra melhor o comportamento dessa “senhora bastante idosa” (!) do que lembrar a sábia composição de Luiz Gonzaga e João Silva, intitulada “Uma Pra Mim Outra Pra Tú”, que teve a intenção ingênua de definir a disputa pelas mulheres do salão, mas que, no mundo da corrupção em que vivemos, poderia caracterizar a divisão dos recursos públicos em percentuais previamente definidos, a exemplo das propinas do Petrolão:

Cumpadre fique quieto vai por mim.
Vamo lá que eu tô contando separando direitim (2x).
Uma pra mim, uma pra mim, uma pra tú, outra pra mim.
Uma pra mim, outra prá tú, uma prá mim, Outra pra mim... (2X)

Autor:   Adm.  Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Salvador – BA.