RedeGN - Reminiscência... Estação da Estrada de Ferro

Reminiscência... Estação da Estrada de Ferro

“Inaugurada a ponta de trilhos da Estrada de Ferro Salvador Juazeiro, ficou esta cidade servida apenas por dois barracões. Onze anos depois, em 15 de novembro de 1907, assistia à inauguração solene e festiva da sua estação, levada a termo por seus arrendatários.

Esta festa nos é noticiada pelo jornal "Fôlha do Povo", na sua edição de 16 de novembro de 1907: "Ontem se efetuou a inauguração do edifício da Estação da Estrada de Ferro desta cidade, às 7 horas da noite. A hora aprazada, uma grande multidão se aglomerava em frente e ao redor do edifício, atraída pelo desejo palpitante de conhecer internamente as esplêndidas obras concluídas e de ver expostas aos altos fins a que se destina essa obra primorosa e artística, certamente a mais custosa e de melhor construção e gôsto que se encontra em tôda a zona do São Francisco.

Tôda a população desta cidade bem conhece que é ao esforço hercúleo e à dedicação espontânea e louvável no benemérito e ilustrado engenheiro Dr. Miguel de Teive e Argôlo que devemos este melhoramento transcendente e que tanto eleva Juazeiro no conceito de quantos visitarem e conhecerem esta próspera e futurosa cidade.

O ato solene foi iniciado com a bênção religiosa, lançada pelo estimado pároco desta freguesia, Padre Nonato Pita, auxiliado pelo distinto lazarista Padre Dias, seguindo, logo após o champagne, o discurso oficial da inauguração proferido em belas palavras pelo engenheiro Argôlo que, ao concluir, recebeu muitas palmas do auditório.”  (...)

Tudo isto se realizou ao som harmonioso da Filarmônica 28 de Setembro e com o concurso do escol da sociedade juàzeirense e de grande número de populares.

Damos agora aos nossos leitores, a detalhada descrição das grandes obras finalizadas.

O EDIFÍCIO A estação de Juazeiro é um primor de arte e sua estética muito recomenda o alto conceito do autor do projeto, o provecto e ilustre engenheiro civil, Dr. Miguel de Teive e Argôlo, a quem Juazeiro deve a maior parte do seu progresso.

Esta obra edificada sôbre uma base de granito de quatro metros de profundidade sôbre três de largura, dá a sua frente para o magnífico São Francisco, que serve de espêlho à sua majestosa fachada. O edifício ocupa 19 por 28 metros, tem dois pavimentos, um térreo e outro assobradado. O térreo ricamente ladrilhado a mosaico italiano, representando o desenho da mais agradável aparência, dividido em três vastos compartimentos, assim discriminados: o salão de entrada, com 3 espaçosas portas, sala para passageiros de 1ª classe e 2ª classe. Dá entrada à estação uma primorosa escada de cantaria guarnecida de um gradil de ferro que parte de duas colunas laterais, situadas no plano inferior da escada, terminando cada uma destas um custoso candelabro e bifurcando-se para a direita e para a esquerda, formando um agradável terrapleno, graciosamente ladrilhado a mosaico. Circunda todo o ladrilho dêste pavimento, uma longa faixa de grade chinesa em mármore que ainda maior realce produz e, no ladrilho, faz elevar sua agradável forma. No acesso para o pavimento superior, uma bem acabada escada de madeira de lei, onde fica bem revelado o progresso da arte nas oficinas de Aramari, pertencentes à Estrada de Ferro do São Francisco e de que é chefe o engenheiro civil João Ferreira de Morais. Não menos notável é o assoalho feito de tábuas estreitas de um acabamento digno da mais atenciosa observação, a exemplo dos assoalhos dos mais importantes transatlânticos. o vigamento sôbre o qual repousa o assoalho, apesar de estar o pavimento inferior forrado, é artisticamente feito de vigas enquadradas de 12 por 5 centímetros, com uma resistência capaz de suportar grandes pesos. A bela fachada da Estação do Juàzeiro é encimada por vistosa e expressiva alegoria, forrada por duas bem trabalhadas e gigantescas figuras representando o Trabalho e o São Francisco, ambas segurando uma roda com asas, emblema da Estrada de Ferro e do Progresso. O conjunto desta alegoria deixa gravada na perpetuidade os méritos do engenheiro Miguel de Teive e Argôlo. Lateral ao símbolo do Progresso, em duas tôrres que encimam o majestoso edifício, vê-se em uma a estátua do Comércio e em outra, a da Lavoura, ainda dois elementos que simbolizam a riqueza e a grandeza das mais poderosas nações do mundo".

Nota da 2ª Revisão: Essa bela estação foi demolida em 1953, com grande desgosto da população de Juazeiro, para dar lugar à entrada da ponte General Eurico Gaspar Dutra, inaugurada em 1954.

*Trecho do livro: Juazeiro na Esteira do Tempo. Edson Ribeiro. 2ª edição. 2005.

Obs.: Fotos sem identificação de data e autor.

Enviada por Laís Lino