Artigo: Escola simplesmente, ou escola cívico-militar?

Questão simples de responder, em teoria. Pensando apenas na finalidade da escola.

Questão difícil de responder, na prática. Imaginando uma mãe específica, escolhendo uma escola para colocar os filhos: pública ou cívico-militar?

Da finalidade da escola-Trata-se de um espaço público onde professores preparam os jovens para participar de forma inclusiva, igualitária e participativa da sociedade em que vive.

O que é ser preparado para viver em sociedade?

Saber resolver conflitos, negociar, construir a amizade no sentido pessoal e político, mediante saberes de diferentes ordens.

Idealmente os conhecimentos disciplinares, obtidos na escola, permitem ao jovem ter acesso ao seu patrimônio cultural nas diversas vertentes: linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas. Ao mergulhar em conteúdos variados e reconhecendo suas próprias habilidades e competências, o jovem terá mais chances de fazer escolhas mais acertadas. A escola é o lugar onde o estudante aprende a arte solucionar e compreender problemas do seu cotidiano, da sua cidade e do mundo.

Já a escola militar tem outros objetivos e finalidades.

Trata-se de um espaço público onde os professores preparam os jovens para a arte da guerra, necessária para proteger a pátria dos inimigos internos e externos.

A disciplina, o espírito de cooperação e a camaradagem são qualidades desenvolvidas para que ele possa enfrentar, com coragem e resiliência, os seus objetivos de defesa da nação. A ordem, a hierarquia e a disciplina são aprendizados necessários para o enfrentamento do inimigo. O foco das escolas militares é o conhecimento específico necessário para a manutenção da segurança nacional. Física, engenharia e tecnologia são algumas disciplinas valorizadas (entre outras). As ciências humanas e as artes, de forma geral, não são prioridades.

Da prática
Definidas as finalidades, podemos pensar em uma mãe preocupada com a educação e sobrevivência dos filhos, na comunidade em que mora.

Dona Carolina (nome fictício) mora em uma comunidade onde existem grupos de jovens frequentadores de igrejas de diversas denominações, educados a partir de preceitos morais. Existem, na mesma comunidade, jovens ligados às milícias e ao tráfico. Ela sai para trabalhar cedo. Toma três conduções para ir ao trabalho e três conduções para voltar para casa. Os filhos, muito jovens, ficam em casa. Vão e voltam da escola sozinhos. Estudam e, às vezes, fazem uns bicos. Ela volta tarde do trabalho. Passa o dia todo pensando onde estão as “crianças”. Se permanecem em casa ou na escola, se estão estudando ou jogando tempo fora, na rua, nem sempre acompanhados de bons amigos. Um perigo.

Grande parte das escolas brasileiras são de tempo parcial.

O olhar de dona Carolina
Cena um: Imaginem dona Carolina olhando a saída dos alunos de duas escolas.

A primeira, uma escola pública “normal”. Escola de tempo parcial. Os alunos saem com suas bermudas rasgadas (da moda), cabelos “desordenados”, namorados em sugestiva proximidade corporal. Não raro ocorrem tensões e brigas entre os jovens na porta da escola. Ela sabe que na comunidade existem milícias e tráfico de drogas. Ela tem medo de que os seus filhos se envolvam com o crime.

Cena 2: Imaginem a dona Carolina observando a saída dos alunos de uma escola cívico-militar. Alunos deixam a escola disciplinadamente, os meninos de cabelo cortado e as meninas de coque, todos vestidos com aprumo, e a disciplina é visível na fila, um atrás do outro. Os professores são exigentes. Com o apoio de militares, a escola impõe um comportamento respeitoso e hierárquico dos estudantes para com os professores, hábito que ela tem dificuldade de reproduzir em sua casa. Ela é sozinha. Não tem ninguém para ajudar na educação dos filhos. Só ela e, Deus.

Essas escolas cívico-militares acenam com o tempo integral no futuro.

Prezado leitor, agora me responda: em que escola dona Carolina estaria mais tranquila para deixar os filhos enquanto trabalha?

Embora eu me identifique com a escola tradicional, organizada para ensinar os jovens a viver em uma sociedade democrática, respeitando a diversidade do ponto de vista social e atenta para a formação de cidadãos conscientes, é fácil compreender dona Carolina. Ela opta pela escola cívico-militar e apoia politicamente os idealizadores deste modelo.

À sua maneira, ela quer proteger os filhos.

A esperança
Como criar uma sociedade civil de melhor qualidade, quando o sonho, justificadamente, se consolidou em torno das categorias disciplina, ordem e autoritarismo? A escolha conservadora tem origem na ideia de ser este o único caminho para sobreviver a criminalidade, viver em paz e subir na vida.

Agora projete a construção de duas escolas na comunidade de dona Carolina. A número um, uma escola civil-militar. A número dois, uma escola com laboratório de música e artes. No laboratório, eles teriam à disposição instrumentos de sopro, corda ou percussão.

Na fantasia, as duas escolas seriam de tempo integral.

Imagine os jovens terem acesso a uma hora diária de exercícios no piano com um metrônomo marcando tempo e com o acompanhamento de um instrutor. Vários pianos para estudo no laboratório. Sonho grande, poderoso.

Calcule a alegria da mãe conservadora e tradicionalista ao ver o filho tocar sua música religiosa preferida. Imagine esta mãe vendo uma escola colocar à disposição dos seus filhos vários instrumentos. Permitindo ao jovem identificar se a sua natureza é mais consoante com as cordas, o sopro ou a percussão.

Desfrute as descobertas sonoras, o aprendizado do ouvido, ao descobrir as diferenças dos sons do violino, da viola, do violoncelo e do contrabaixo. Observe a descoberta dos ritmos variados espalhados pelo mundo. Um ouvido acostumado a ouvir X, apreender a ouvir Y. Não é um sonho?

A música integra, assim como a natureza, ambas não têm fronteiras.

Suponha ver um outro jovem tendo na mão um saxofone, objeto de uma beleza incomparável, descobrindo as maravilhas do jazz.

Fantasie este estudante do Ensino Médio contando para a mãe o nascimento do jazz, as culturas negras de New Orleans, as plantações de algodão, como cantar também é plantar algodão. A conversa vai ficar mais animada quando o jovem enveredar para os gêneros musicais, os blues e os spirituals, música religiosa.

O jazz não tem fronteiras. Ele pode ser jazz latino, jazz radical ou um fusion jazz. São muitas as possibilidades.

Suponha o professor explicando para o jovem, ansioso por encontrar o seu Eu, como os instrumentos podem conversar um com o outro. Instrumento respondendo outro instrumento. Conversa deliciosa, do piano com o contrabaixo, permitindo ao contrabaixo, com poucos acordes repetitivos, desafiar o piano, mandar o piano catar coquinho musicalmente. Imagine o professor explicando como a criatividade, a liberdade e o improviso quebram a monotonia dos ritmos lineares.

Violino e granada-Na vida existem estratégias de guerra, diretas e indiretas. Podemos usar as armas de guerra, passar o tempo treinando em clubes de tiro, esperando ansiosamente pelo combate. Produzindo raiva e ódio para gerar o confronto.

Aprender a matar, a atirar, também é esporte em Pindorama.

Mas, podemos também “curtir” as sonoridades dançantes. Dançar acalma, ajuda a produção de endorfina. O jazz latino aproxima. É uma conversa com a salsa, o merengue o mambo e o samba.

Para os mais agressivos, podemos sugerir o jazz radical, para os mais divertidos o jazz fusion. Para os incapazes, preguiçosos, amorosos podemos apresentar o sr. contrabaixo, com a chance de o músico iniciante aprender o desafio musical com poucos acordes. Na música, todo mundo tem um lugar para fazer um amigo e, no final, tomar umas e outras com os companheiros.

Pondo os pés no chão, imagine um pai traficante que ama o filho. Eles existem.

O que ele pode sentir ao ver o seu filho apaixonado por um piano, por um violoncelo ou mesmo por um contrabaixo? Um filho dizendo para ele, para o pai encrencado na vida, que o seu sonho é ir para a Europa estudar música de verdade.

É possível curar um país doente? O remédio não seria do tipo música, esporte e até mesmo um laboratório de tecnologia? A cura de um país combalido não começaria assim? Com uma escola de qualidade? Não seria está a pauta para ser discutida?

Observação: acompanha a escrita deste texto uma música – Imagine, de John Lennon.

Ouçam e relembrem a letra. Era tempo de guerra. Do Vietnã.

Imagine.

Por Janice Theodoro da Silva, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

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