Livro resgata as lyras de grande músico pernambucano

Maestro, pianista e compositor, o pernambucano Euclides Fonseca (1835–1929) teve papel importante para a música universal. Compôs óperas, peças de concerto, canções de câmara e lyras (coleção de músicas ligadas ao canto).

Após sua morte, porém, Euclides caiu no esquecimento. Não fosse por parentes como a bisneta Eleonora Fonseca e a esposa de um neto de Euclides, Zilda Fonseca, todo o conjunto da obra do músico teria se perdido. Mas as duas conseguiram preservar 88 obras das 250 destruídas pelo tempo.

O rico acervo manuscrito está guardado na Biblioteca José Antônio Gonsalves de Mello, no Instituto Ricardo Brennand (IRB), na Várzea. 

Foi no IRB que o musicólogo, maestro e professor da UFPE, o capixaba Sérgio Dias, também consultor do acervo, começou a pesquisar a obra de Euclides, a partir de 2010, até conceber o livro As Lyras de Euclides: Íntegra das obras do compositor pernambucano Euclides de Aquino Fonseca para voz(es), piano e outros instrumentos, editado pela Cepe. O evento de lançamento ocorrerá dia 17 de junho, das 15h às 18h, no IRB, com direito a sessão de autógrafos e a um concerto com seis músicos amigos do maestro e duração prevista de 40 minutos. 

Em meio à coleção de composições, constam mais de 20 obras para voz e piano, que o próprio Euclides dividiu em duas partes: a lyra Pernambucana e a lyra Exótica. A primeira é inspirada na produção de poetas pernambucanos, e a segunda, em poesias escritas por nomes nacionais. Caso de Antônio Gonçalves Dias (1823–1864). Sérgio incluiu mais uma lyra, a qual batizou de Orfeônica, por se tratar das canções criadas por Euclides para o orfeão (coro) de mulheres da Escola Normal do Recife, onde trabalhou em 1901. "É a maior coleção para voz e piano que se tem notícia, e me chamou muita atenção", enaltece Dias. São hinos e obras com tema cívico ou folclórico.

Ex-membro da Academia Brasileira de Letras, Euclides ajudou a manter viva a música de concerto do Recife entre o final do século XIX e início do século XX, garantindo uma identidade local. Suas liras, além de poéticas, são também material histórico, pois nos ajudam a entender nosso passado musical. Para autor e obra ficarem conhecidos também era preciso sair de Pernambuco, o que Euclides não quis de jeito nenhum. Carlos Gomes (1836-1896) chegou a convidá-lo para trabalhar em Belém do Pará, e Alberto Nepomuceno  (1864-1920) tentou levá-lo para o Rio de Janeiro, mas nenhum dos dois teve êxito. Admirado até mesmo por Heitor Villa-Lobos (1887-1959) - considerado o mais criativo compositor de música clássica do século XX -, o estilo esteticamente conservador de Euclides também contribuiu para que o nome do maestro caísse no esquecimento. "Quando ele morreu, o Modernismo já estava em seu auge, deixando a música dele um tanto 'demodê'", explica Sérgio. 

Nas 332 páginas do livro, Sérgio Dias analisa cada uma das peças de Euclides, ao mesmo tempo em que revela característica do criador e da criatura: "Dedicada 'à distincta cantora lyrica Amalia Iracema', Regina martyrum tem poesia da poeta natalense Auta de Souza. Dividida em cinco seções, cuja primeira está em fá maior (A), e as demais alternando-se em modulações às esferas de lá bemol maior (B), si bemol maior (C), si bemol menor (D) e, de volta, a fá maior (E), a obra encerra uma sugestiva unidade rítmica, garantida pela constante repetição de acordes batidos ou arpejados em colcheias. Tal expediente nos faz aludir a uma valsa dolente e ao mesmo tempo contemplativa", escreve o autor. 

"Do mesmo poeta, Duca Nino, autor dos versos da berceuse Dormi, dormi angiol vezzoso é a poesia do romance Un pò di carità. Dedicada a Julieta Vieira, a música de Euclides Fonseca, neste caso uma das mais expressivas de sua pena, sublinha a historieta de uma suplicante que não tem o pão a que dar ao seu pequeno bambino. Trata-se aqui de obra que nos revela as inclinações do compositor ao ideal da caridade, aliás recorrente em muitas de suas obras", continua Dias. 

"De compleição estrutural das mais simples, Vorrei!, melodia para canto, violoncelo e piano, se divide em três partes, das quais a última, o clímax da canção, afigura-se como coda (seção conclusiva de uma composição). É flagrante que a escolha do violoncelo como  instrumento de ligação entre a voz e o piano se dá por razões de cunho timbrístico. A este é confiada a melodia principal que paira por sobre e determina a atmosfera melancólica que exala da peça", esmiúça o maestro. 

O AUTOR

Sérgio Dias é graduado em Flauta, Composição e Regência, pós-graduado em Educação Musical, em Arte e Cultura Barroca, mestre em Música (com área de concentração em Musicologia Histórica) e doutor pelo Departamento de Ciências Musicais da Universidade Nova de Lisboa. 

Ex-professor do Conservatório Brasileiro de Música, ex-titular de Harmonia, Contraponto, Fuga e Estruturação Musical da Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames) e ex-professor de História do Teatro da Escola de Artes Fafi (Prefeitura Municipal de Vitória-ES). Ex-professor substituto de História da Música do Conservatório de Coimbra e da Escola Superior de Educação de Lisboa. 

Desde 2009 é professor efetivo (Cátedra de Musicologia Histórica), regente e pesquisador do Departamento de Música da Universidade Federal de Pernambuco. Em 1989 criou, junto ao Centro Cultural Pró-Música de Juiz de Fora, os Festivais Internacionais de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, dos quais foi conselheiro artístico e regente da Orquestra Histórica. 

Trabalha como musicólogo consultor junto ao Conservatorio di Musica San Pietro a Majella (Nápoles) e ao Instituto Ricardo Brennand (Recife). Até setembro de 2009 foi membro do Conselho Estadual de Cultura-ES, como titular da Câmara de Artes Musicais. Atualmente é o regente titular das Orquestras de Câmara e Sinfônica da Universidade Federal de Pernambuco e dos grupos Sonoro Ofício e A Trupe Barroca.

Ascom Cepe