RedeGN - Músicos se desfazem dos próprios instrumentos para pagar as contas durante a pandemia

Músicos se desfazem dos próprios instrumentos para pagar as contas durante a pandemia

A pandemia do novo coronavírus impacta na cultura e no entretenimento proibindo a realização de shows presenciais e promovendo a ruptura de alguns laços entre músicos e instrumentos musicais. Para compor a renda mensal, muitos profissionais ofertam o "ganha-pão" com preços baixos na internet.

Em Juazeiro e Petrolina vários artistas estão "entrando na zona de desespero". Alguns sem trabalho há 5 meses estão recebendo dos amigos e parceiros cestas básicas. Outros buscam "vender aulas on line".

Em Fortaleza, nos sites de vendas, instrumentistas estão comercializando, sanfona, bandolins, baixos, guitarras e até pianos. O maestro e professor Tiago Nogueira, 35 anos, é um dos músicos afetados com a ausência de shows e aulas presenciais. Com a pandemia, ele perdeu um grande número de alunos particulares e empregos. Atualmente, realiza aulas online para oito pessoas com o auxílio de um teclado que pegou emprestado de uma das empresas em que trabalhou.

Com medo de precisar devolver o equipamento a qualquer momento, Tiago fez uma rifa de um piano que está há mais de 20 anos na família. Da marca Essenfelder, o instrumento serviu para que o maestro aprofundasse os estudos na música.

“Ele é uma relíquia. Hoje, por ser de segunda mão, pode valer uns R$ 5 mil. Um novo, das marcas mais atuais, pode vale uns R$ 14 mil”, explica o maestro. No site da empresa, um piano com características semelhantes custa R$ 23 mil.

A Essenfelder foi fundada em Buenos Aires, em 1889, por Florian Essenfelder. No ano de 1902, a fábrica se mudou para o Brasil, e, após passar pelo Rio Grande do Sul, finalmente estabeleceu-se em Curitiba, em 1909, permanecendo em atividade até 1996. Após ser reaberta, em 2017, a fabricação de instrumentos musicais passou a ser realizada na China e, desde então, a empresa ampliou o ramo de atuação. Além do piano acústico, fabrica, atualmente, piano digital, violão e guitarra.

“Prefiro estar oferecendo o que foi da minha história e continuar fazendo história, do que ser apenas um objeto de decoração. Conversei com meu pai, mãe e irmã e chegamos a esse consenso. Prefiro ver que essa história seguirá em outras mãos”, diz Tiago.

A situação é semelhante para o instrumentista Fábio Amaral, 43 anos. Entre instrumentos e equipamentos de som, ele colocou à venda 11 itens. De piano a bandolim, os preços negociáveis variam de R$ 2 mil a R$ 9 mil. “É difícil desapegar. A gente olha e tem um carinho por cada”, revela.

Os equipamentos auxiliam Fábio na produção de jingles, arranjos, festivais, entre outras atividades. O instrumentista chegou a participar de grandes eventos nacionais com os itens que agora estão à venda. No Ceará, ele tocou no Festival de Jazz e Blues, em Guaramiranga, e no Festival de música do Banco do Nordeste. Até para Chicago, nos Estados Unidos, Fábio já levou parte dos instrumentos.

Diferentemente de cantores nacionais, que realizam lives com playbacks, ele conta que não tem outra saída para obter alguma renda. “Não tem como eu fazer uma transmissão na internet ensinando as notas musicais. Não é nada atrativo”.

Vivendo na casa dos pais, o instrumentista chegou a pedir o Auxílio Emergencial. Apesar de o Governo Federal efetuar pagamento desde abril, apenas em julho ele conseguiu uma das parcelas de R$ 600.

Desde que anunciou a venda dos instrumentos na internet, diversas propostas já foram feitas. “Já teve gente que ofereceu por uma guitarra, uma troca em um violão, uma bicicleta e um beijo da mãe. Nas trocas o pessoal quer obter alguma vantagem. Faço algumas quando vem parte em dinheiro. Às vezes vale mais esperar para vender com o valor cheio”, conta o instrumentista.

Redação redeGN Foto: Ilustrativa