Crônica - A China desafia a liderança alemã: Uma lição para a indústria brasileira.

Durante boa parte do século XX, a fábrica da Volkswagen, em Wolfsburg, na República Federal da Alemanha, era muito mais do que um complexo industrial. Era um monumento ao engenho humano. Das suas linhas de montagem saíram milhões de automóveis que ajudaram a reconstruir a Alemanha após a Segunda Guerra Mundial e simbolizaram o chamado “Wirtschaftswunder”, o milagre econômico alemão.

A Volkswagen tornou-se um dos pilares da economia europeia, oferecendo empregos estáveis, salários elevados e uma relação de cooperação entre capital e trabalho que parecia demonstrar ser possível conciliar eficiência econômica com justiça social.

Entretanto, como ocorre em quase todas as construções humanas, aquilo que durante décadas representou sua maior virtude começou, silenciosamente, a transformar-se em seu maior desafio. O extraordinário contingente de trabalhadores altamente qualificados, motivo de orgulho nacional, converteu-se em uma estrutura pesada para um setor que se transforma numa velocidade sem precedentes. O automóvel elétrico exige menos componentes, menos horas de montagem e menos operários do que o veículo movido a combustão. A tecnologia alterou a própria natureza do trabalho industrial.

Durante décadas, a Volkswagen encontrou na China um mercado aparentemente inesgotável. Ali vendeu milhões de automóveis, ajudou a formar uma gigantesca cadeia produtiva e participou da motorização de uma sociedade que abandonou o uso da bicicleta para ingressar definitivamente na era do automóvel. Os lucros obtidos naquele país sustentaram investimentos na Europa e consolidaram a posição da empresa como uma das maiores montadoras do planeta.

Mas a História possui um curioso senso de ironia. O país que aprendeu com a engenharia alemã passou, em poucas décadas, a ensinar novas formas de produzir automóveis. Empresas como a BYD, Geely, SAIC e NIO deixaram de ser simples fabricantes de baixo custo para se tornarem protagonistas da revolução elétrica. Controlam a produção de baterias, dominam tecnologias de software, reduzem custos por meio da integração vertical e lançam novos modelos numa velocidade que desafia o ritmo tradicional da indústria ocidental. O antigo aprendiz passou a disputar espaço com o mestre e, em alguns segmentos, já caminha alguns passos à sua frente.

Esse fenômeno ultrapassa as fronteiras da Alemanha. No Brasil, a Volkswagen continua sólida e estratégica, investindo na modernização de suas fábricas e preparando-se para ampliar sua presença no segmento de veículos eletrificados. Contudo, já sente os efeitos da nova realidade. A entrada agressiva das montadoras chinesas obrigou praticamente todas as fabricantes tradicionais a rever preços, ampliar equipamentos, acelerar investimentos e repensar seus modelos de negócio. A futura instalação da BYD em Camaçari, na Bahia, poderá representar, para a indústria automobilística brasileira, um momento histórico semelhante ao ocorrido nos Estados Unidos quando as montadoras japonesas ali se estabeleceram nas décadas de 1970 e 1980.

A competição deixou de ocorrer apenas entre fábricas. Hoje ela envolve cadeias globais de suprimentos, inteligência artificial, domínio tecnológico, produção de baterias, desenvolvimento de software e velocidade de inovação. O automóvel tornou-se, em grande medida, um computador sobre rodas, e quem dominar esse novo domínio tecnológico poderá redefinir os rumos da indústria mundial nas próximas décadas.

Há, entretanto, uma reflexão que ultrapassa o universo dos motores e das fábricas. Também as civilizações envelhecem. Instituições que, em determinado momento, foram responsáveis pelo progresso podem tornar-se excessivamente rígidas diante das mudanças. O mesmo ocorre com empresas, governos e até com indivíduos. A prosperidade frequentemente produz conforto; o conforto gera acomodação; e a acomodação costuma ser o primeiro passo para a perda da capacidade de adaptação.

Lembro-me, inevitavelmente, da velha observação atribuída a Heráclito de Éfeso: ninguém entra duas vezes no mesmo rio. A água já não é a mesma, e tampouco somos nós. A Volkswagen continua sendo uma potência industrial, embora a liderança tecnológica mundial já não pertença exclusivamente à Europa. O rio da História mudou de curso. A eletrificação, a inteligência artificial e a ascensão tecnológica da China não representam apenas uma nova etapa da indústria automobilística; simbolizam uma redistribuição silenciosa do poder econômico mundial.

Talvez seja essa a reflexão que mais interesse ao Brasil. Durante muito tempo, acostumamo-nos a acreditar que nosso destino seria apenas exportar matérias-primas e importar tecnologia, como se essa divisão internacional do trabalho fosse uma sentença imutável. A experiência chinesa demonstra exatamente o contrário. Em poucas décadas, um país que absorvia conhecimento passou a produzi-lo; quem aprendia passou a ensinar; quem copiava tornou-se referência em diversos setores estratégicos. Essa transformação não nasceu do acaso nem de um golpe de sorte, mas de um projeto nacional de longo prazo, sustentado por educação, ciência, inovação, infraestrutura, produtividade e planejamento.

Entretanto, também não nos faltam exemplos de que o Brasil é capaz de realizar feitos extraordinários quando decide investir em inteligência, pesquisa e tecnologia. Construímos uma das maiores fabricantes de aeronaves do mundo, dominamos a exploração de petróleo em águas ultraprofundas, transformamos a agricultura tropical em referência internacional e desenvolvemos centros de pesquisa reconhecidos muito além de nossas fronteiras. Esses resultados não nasceram por acaso; foram fruto de visão estratégica, continuidade institucional e confiança na capacidade criadora do povo brasileiro.

Talvez tenha chegado a hora de substituirmos a velha mentalidade de um desenvolvimentismo meramente retórico por uma verdadeira cultura do desenvolvimento, capaz de transformar potencial em prosperidade e talento em inovação. O Brasil possui território, recursos naturais, diversidade energética, um povo extraordinariamente criativo e um dos maiores mercados consumidores do mundo. Falta-nos, muitas vezes, compreender que o futuro não é um destino; é uma obra que se constrói diariamente. Porque o desenvolvimento não é privilégio de determinados povos; é consequência de escolhas coletivas, da valorização do conhecimento e da coragem de inovar.

Afinal, a maior lição escondida sob o capô dos novos carros elétricos talvez não esteja na engenharia alemã nem na eficiência chinesa, mas na capacidade humana de aprender, reinventar-se e ousar construir novos caminhos. “Se eles puderam, nós também poderemos.”

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.