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Esses dias recebi simultaneamente de amigos conterrâneos um card do talentoso artista regional Netin da Bahia embalado por um ritimo gostoso e com imagens antigas da velha "banca" e dos arcos da ponte que recentemente foram demolidos para dar lugar as obras de continuidade da Travessia Urbana de Juazeiro.
Mesmo sem consultar o autor eu não tenho dúvidas que ele buscou com sua criação retratar alguns recantos dessas áreas da velha paisagem urbana com um saudosismo despretensioso, poético e musical.
Apesar dessa minha interpretação causou-me surpresa que a saudade invocada pelo autor despertou em alguns conterrâneos a necessidade de se fazer apologia a falta de preservação do nosso patrimônio histórico e material e querendo dar a esse "monstrengo" uma importância arquitetônica descabida.
Todos os juazeirenses que viveram a primeira e ou a segunda metade do século passado lembram com saudade e tristeza de dois momentos distintos onde a modernidade se sobrepôs ao politicamente correto e sem reclamos da sociedade o poder público demoliu a bela estação ferroviária e a balaustrada de todo o cais da nossa primeira orla.
A antiga estação, uma construção neoclássica inaugurada em 1896 com ladrilhos italianos e mármores chineses foi ao chão para dar lugar a cabeceira da ponte e a construção da via de ligação entre o centro da cidade e o bairro de Piranga, nasceu aí a famosa famigerada "banca", um longo talude coberto de cimento e pedra e cortado por precários pontilhões.
O nosso cais e sua bela balaustrada foi edificado na primeira metade do século XX e nos deixava com ares dos cais das praias da Barra e do Rio Vermelho na capital do estado e representava a pujança econômica da mais importante cidade portuária do Vale do São Francisco.
Na pressa pela modernidade se permitiu renegar a beleza arquitetônica da sua estrutura de concreto por um gradil de canos de ferro. Salvador tombou e até hoje preserva seus balaustres e aqui deixaram talvez por esquecimento, uma amostra grátis do velho cais no prolongamento da nova orla.
Sobre a construção da "banca", sem precisar invocar conhecimentos profundos de engenharia, o talude que foi erguido para nivelar os trilhos da via férrea entre a Piranga e a ponte produziu uma divisão física e social sentidos por todos os juazeirenses de mais idade ao longo de muitas décadas.
A Juazeiro de "depois da banca" representava a parte próspera da cidade e se definirmos à época uma poligonal da "banca" a Rua 15 e da Carmela Dutra ao Estádio Adauto Moraes todos concordavam que era onde os juazeirenses faziam a cidade acontecer.
A Juazeiro de "atrás da banca" foi se criando a partir dos areiais do entorno da velha Companhia de Navegação, numa época onde ficavam os grandes depósitos das empresas que faziam a navegação, das oficinas e tambem por famílias do proletariado e por casais jovens em busca do sonho da primeira casa e áreas mais baratas.
Os arcos da ponte, passagem obrigatória para conectar os dois lados da cidade, sempre mal-cheirosos serviram nos primeiros anos de abrigos aos imigrantes nordestinos que por aqui passavam, sem-tetos e a partir da década de 90, com alguns investimentos municipais, para abrigar pequenos empreendedores. A falta de governança deu um aspecto de favelização e degradação de toda essa área.
Ao longo da "banca" os chamados pontilhões representavam mais uma solução barata da engenharia da época e sempre foram passagens molhadas dos inúmeros riachos que cortavam a cidade ainda no século XIX e que pela ocupações desordenadas ainda representam graves problemas a macrodrenagem das áreas adjacentes ao centro da cidade.
A implantação da travessia representa a maior intervenção urbana desde a construção da ponte e do cais e é uma obra que exigirá muita competência da atual e das futuras administrações pois ela redesenha a fisionomia da cidade e lhe abre as oportunidades da modernidade das grandes metrópoles. Por outro lado será possível enxergar o que ainda nos sobrou de um passado recente e trabalhar a sua preservação.
As poucas edificações com detalhes arquitetônicos significativos que se espalham pelas ruas antigas, o Aqueduto do Horto Florestal construído há 70 anos com seus quase 300 metros de tijolos e seus arcos no Campus III da UNEB e o coreto da Praça da Misericórdia são alguns exemplos daquilo que não podemos mais permitir que desapareçam em nome do progresso.
Em 1961 os alemães do leste dividiram em uma noite Berlim em oriental e ocidental e em 1989 o lado pobre e o lado rico se juntaram para colocar no chão umas das maiores atrocidades de engenharia do mundo moderno.
Não cabe comparativos de qualquer ordem com a Alemanha pós nazismo, mas cometo a imprudência de opinar como um juazeirense longevo, que depois de mais de sete décadas, a demolição da "banca" fez desaparecer um inconveniente muro do atraso e do subdesenvolvimento.
Por Herbert Caffé
Foto de arquivo



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