Artigo É o futebol! O papel global do Brasil no esporte e na ciência

É a economia, estúpido!” A frase de James Carville em 1992 tornou-se quase um mantra da política contemporânea sobre eleições.

Ao parafraseá-la no título, o objetivo não é discutir eleições (apesar da relação entre eleições e futebol ser tema relevante no Brasil), mas usar a provocação para pensar o futebol como um espelho da sociedade e, sobretudo, do lugar que nós, brasileiros, ocupamos no mundo.

O futebol, mais que apenas um esporte, é uma expressão cultural onde se refletem aspirações, potências, fraquezas e contradições. E, se o campo é o palco dessas questões, a Universidade é o espelho da nossa capacidade de pensar essa mesma sociedade. Quando voltamos o olhar para a nossa relação com o “mercado da bola”, a Copa do Mundo revela um padrão estruturalmente interessante. Para o torcedor casual, reconhecer os jogadores da Seleção Brasileira exige um esforço digno de um aficionado: a imensa maioria atua nas ligas européias. Inglaterra, Itália, França e Espanha sediam os times onde atuam 15 dos 26 jogadores da seleção brasileira, mais que o dobro dos sete que atuam em times canarinhos.

Essa, no entanto, não é uma exclusividade do Brasil. Nos times da Inglaterra jogam mais de 200 atletas que atuam na copa. Na Alemanha cerca de 100, na França cerca de 90. Se calcularmos um quociente de internacionalização (ou seja, o total de jogadores que jogam em clubes de um determinado país em relação à totalidade dos jogadores que atuam por cada país na copa), a Inglaterra possui índice de cerca de 7,9. O porquê é evidente: a centralidade do poder, do financiamento, da tradição e do reconhecimento e mesmo da excelência no futebol reside, hoje, não apenas mas principalmente no eixo europeu.

E não há como observar esses dados sem traçar uma linha direta com a nossa vida acadêmica. Analisando as tendências de internacionalização da USP, o padrão de fluxo é notavelmente análogo, cerca de 55% das bolsas no exterior são para a Europa e pouco mais de 30% para os EUA e menos de 2% para a América Latina (BEPE Fapesp). Por estes dados fica claro que nossos estudantes e jovens pesquisadores se dirigem tipicamente, para essa mesma centralidade. Se o futebol migra para os grandes clubes europeus, a ciência migra para as grandes universidades da Europa e dos Estados Unidos. Em ambos os casos, a lógica é idêntica: busca-se onde estão os recursos, onde reside o prestígio consolidado, a tradição, a excelência e onde se constrói o reconhecimento global.

Não se trata de negar a importância da circulação internacional ou do intercâmbio com centros de excelência. Pelo contrário, reconhecer essa centralidade é um ato de maturidade. A questão é o que fazemos com esse trânsito.

Mas existe, ainda, outro lado dessa moeda: quem joga nos nossos campos? Quando observamos quantos atletas de outras seleções, que jogam na Copa e atuam no Brasil, a resposta é geográfica e culturalmente reveladora. O Brasil atrai, majoritariamente, talentos de vizinhos latino-americanos. Num total de pouco mais de 30 atletas estrangeiros que atuam em clubes brasileiros e que estão na Copa do Mundo constam uruguaios, paraguaios, equatorianos, colombianos, um argentino e entre mais de 30 estrangeiros apenas um europeu, holandês – o quociente brasileiro é de cerca de 1,2. Comparativamente quase 69% dos estudantes estrangeiros em nossos programas de pós-graduação provêm de países da América Latina, cerca de 10% da África e 9 % da Ásia, somando quase 90% do total. A analogia com a USP é sugestiva: nossa internacionalização no futebol espelha essa mesma realidade regional que a Universidade.

Em suma, ciência e futebol, nesta relação internacional, têm alguma similaridade. Somos um centro local fundamental, um pólo gravitacional para o nosso entorno latino-americano, mas, simultaneamente, um fornecedor de talentos. Vivemos uma relação de mão dupla que é dúbia: somos uma referência local, que atrai os nossos vizinhos, enquanto nos deslocamos para uma centralidade onde, muitas vezes, somos um celeiro de talentos, mas não de interesses. É sobre futebol, sim. Mas, para quem estuda e faz ciência, é também, e irremediavelmente, sobre o lugar que ocupamos no mapa do mundo.

Há alguns pontos relevantes. Os EUA não são uma centralidade para a ida de jogadores brasileiros, mas ainda assim é o sétimo país que mais tem atletas estrangeiros jogando em seus times e o Brasil é o décimo. Também chama a atenção o fato de a Arábia Saudita ser o sexto país em que mais jogadores estrangeiros atuam nos clubes, mas vale lembrar que no caso da Arábia Saudita 25 jogadores de sua seleção jogam em clubes sauditas. Mas independente disso, a centralidade se estabelece: mais de 880 atletas que estão na copa atuam nos times na Europa e EUA, mais de 70% do total.

Em suma, olhar para a Copa permite tentar entender o mapa do nosso papel global. O intercâmbio com as grandes potências certamente é uma expressão de nossa capacidade, mas o destino final da nossa inteligência define o nosso futuro. No futebol ou na ciência, a provocação permanece a mesma: o importante não é apenas onde nossos talentos jogam, mas para quem, afinal, estamos marcando os gols.

Por André Frazão Helene, professor do Instituto de Biociências da USP (As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP e reproduzidas na REDEGN são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo e dos editores colaboradores da Redegn)

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