Crônica - O sebastianismo e a névoa que habita em nós

Em muitas ocasiões da vida, o ser humano se assemelha a Portugal logo após o desaparecimento de Dom Sebastião. Tudo continua aparentemente no mesmo lugar - as ruas, as igrejas, os compromissos, os discursos —, mas percebe-se que algo essencial desapareceu no horizonte. E já não sabemos exatamente o que foi perdido nem para onde dirigir o olhar.

O Sebastianismo, ainda hoje cultivado em alguns rincões do Brasil, nasceu oficialmente da ausência de um rei há quase quatro séculos e meio. Mas, no fundo, nasceu mesmo do medo: medo do vazio, da perda do rumo, da insegurança diante de um futuro que se recusava a mostrar sua verdadeira face.

Quando o rei Dom Sebastião desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, em 1578, não desapareceu apenas um jovem monarca; desapareceu também a sensação de estabilidade de um povo inteiro. É justamente por isso que tantos portugueses - e, mais tarde, muitos brasileiros - preferiram acreditar no impossível a aceitar a realidade, pois a esperança, às vezes, é apenas uma maneira elegante de negociar com o desespero.

A tragédia, porém, não se limitaria ao desaparecimento físico do jovem rei. Solteiro e sem herdeiros diretos capazes de assegurar a continuidade da Coroa portuguesa, o país mergulhou numa profunda crise sucessória que acabaria abrindo caminho para a submissão de Portugal ao domínio da Coroa espanhola. Pela primeira vez em sua história, os portugueses viram sua soberania escorrer silenciosamente pelas mãos, como quem desperta tarde demais para impedir o inevitável.

A chamada União Ibérica não destruiu imediatamente a identidade portuguesa, mas feriu profundamente o orgulho nacional. Portugal deixou de decidir sozinho os próprios rumos e passou a integrar os interesses políticos e militares da Espanha. As consequências logo se espalharam pelos mares: inimigos da Coroa espanhola passaram também a atacar possessões portuguesas, enfraquecendo o império ultramarino construído ao longo de séculos de navegação, sangue e ambição.

Foi justamente essa sensação coletiva de humilhação e perda que alimentou ainda mais o Sebastianismo. O retorno de Dom Sebastião deixou de representar apenas a volta de um homem; passou a simbolizar o resgate da autonomia, da dignidade e da esperança de um povo desorientado diante de um futuro que já não lhe pertencia completamente. Em tempos de insegurança, o mito costuma surgir exatamente no espaço vazio deixado por certezas destruídas.

Daí imagino eu, hoje, quase quatrocentos e cinquenta anos depois, aqueles homens simples olhando o mar encoberto pela névoa, convencidos de que o rei retornaria montado em seu cavalo branco para restaurar a grandeza perdida. E, sinceramente, não os julgo. O ser humano sempre teve dificuldade de conviver com horizontes indefinidos. Quando não sabemos o que existe adiante, criamos profecias, mitos, líderes messiânicos, ideologias salvadoras ou pequenas ilusões particulares que nos permitam dormir em paz.

Cada época possui o seu próprio Dom Sebastião. Enquanto uns esperam o político perfeito, outros aguardam a oportunidade definitiva, o amor ideal, a cura milagrosa ou o reconhecimento tardio que finalmente dará sentido à própria existência. Enquanto isso, a vida segue silenciosamente, como areia escorrendo entre os dedos de alguém distraído olhando para o nevoeiro.

O mais curioso é que o Sebastianismo nunca morreu completamente. Apenas mudou de roupa ao longo dos séculos. Continua vivo nas promessas de redenção coletiva, nas falsas seguranças que abraçamos e na necessidade quase infantil de acreditar que alguém virá resolver aquilo que, por puro comodismo, não conseguimos enfrentar sozinhos.

Creio que a maior fragilidade humana não esteja na dor, mas na incerteza. Sofrer é duro, mas suportável; difícil mesmo é não saber. Não saber se haverá um amanhã melhor, se o esforço valerá a pena, se o caminho escolhido é o correto ou se estamos apenas caminhando em círculos. A ausência de respostas produz um tipo de angústia silenciosa que corrói ainda mais do que as tragédias explícitas.

Por isso, o mito de Dom Sebastião permanece tão atual. Ele não fala apenas de Portugal; fala de todos nós. No fundo, cada ser humano carrega consigo uma pequena ilha envolta em neblina, esperando que alguma certeza surja ao longe para dissipar os medos acumulados da existência.

Também me inclino a acreditar que a verdadeira prova de maturidade consista justamente em compreender que nenhum rei surgirá do horizonte. A travessia continuará incerta, o céu permanecerá nebuloso em muitos dias e, ainda assim, será preciso seguir adiante. Porque viver é exatamente isso: caminhar sem garantias, aprendendo a suportar a névoa sem transformar toda ausência em promessa de salvação.

E talvez seja essa a mais duradoura lição do Sebastianismo: não a espera pelo retorno de um rei perdido, mas a compreensão de que a coragem humana começa exatamente quando a névoa não se dissipa e, mesmo assim, decidimos continuar caminhando.

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.