Artigo - O Som que Vai Ficando Longe

Numa dessas noites de festa que ainda resistem pelo interior do Nordeste, o palco estava iluminado, o público animado e a música seguia seu curso.

Havia caixas de som potentes, luzes coloridas e um repertório capaz de fazer muita gente cantar junto. Tudo parecia estar no lugar. Mas alguma coisa faltava.

Não era apenas a ausência de um instrumento. Era a ausência de uma presença. O olhar procurava, quase por instinto, aquele homem sentado atrás de uma sanfona, abrindo e fechando o fole como quem faz o coração da própria terra respirar. Procurava aquele som que durante décadas serviu de ponte entre gerações, de companhia para os que partiram e de abrigo para os que ficaram.

O curioso é que certas ausências não fazem barulho. Elas se instalam devagar, sem alarde, até se tornarem costume. Quando percebemos, aquilo que era indispensável passa a parecer dispensável. Talvez seja assim que acontecem os apagões da memória.

Não de uma vez, mas aos poucos.

Enquanto houver um cotidiano popular, a tradição continuará encontrando formas de sobreviver. A cultura do povo possui uma extraordinária capacidade de se reapresentar e se reinventar diante das dificuldades. Ela muda de roupa, adapta caminhos, aprende novas linguagens, mas insiste em permanecer viva.

O Forró é uma das maiores provas disso.

Por muito tempo, desempenhou uma função que ia muito além da diversão. Era um espaço de reencontro com a própria história. Um território onde a memória encontrava abrigo. Para milhares de nordestinos que migraram para os grandes centros urbanos, o forró funcionava como uma viagem possível. As letras descreviam paisagens conhecidas, falavam da seca e da chuva, da esperança e da saudade, dos amores deixados para trás e dos sonhos carregados na bagagem. Durante algumas horas, o campo visitava a cidade. O distante tornava-se próximo. O migrante voltava para casa sem precisar comprar passagem.

Os bailes eram territórios de convivência, pertencimento e afeto. Lugares onde a saudade encontrava companhia e onde a identidade nordestina podia respirar sem pedir licença.

No centro dessa experiência estava a figura do tocador de fole, mais do que músico, era um cronista popular.

Seu instrumento narrava acontecimentos, registrava emoções e traduzia em som aquilo que o povo sentia. Cada toque parecia carregar fragmentos de uma memória coletiva construída ao longo do tempo. Mas hoje uma pergunta se impõe.

Onde estão esses tocadores?

E mais importante ainda: onde estão aqueles que permanecem ainda mais distantes dos refletores? Onde estão os artesãos que constroem os instrumentos?

Os luthiers que dedicam anos ao aprendizado de um ofício cada vez mais raro? Os afinadores que conhecem os segredos de cada palheta, de cada voz escondida dentro da sanfona?

Talvez resida aí uma preocupação ainda maior, porque o desaparecimento de um músico é visível, o desaparecimento dos que sustentam a existência do instrumento quase nunca é.

Enquanto muitos debates no universo cultural se concentram, legitimamente, sobre espaços, visibilidade e remuneração, existe uma multidão silenciosa que permanece à margem dessas discussões.

Há quem reclame da falta de palco mas há aqueles que jamais tiveram palco algum.

Há quem lamente a redução dos cachês mas existem pessoas cuja contribuição nunca foi contabilizada em cachê nenhum.

São trabalhadores da cultura que permanecem invisíveis. Homens e mulheres que ajudam a preservar uma herança celebrada em discursos e festivais, mas frequentemente esquecida quando chega a hora do reconhecimento. Sem eles, porém, não há instrumento e sem instrumento, não há som. Sem som, não há memória que resista por muito tempo.

Talvez o maior risco não seja a mudança dos tempos, pois a cultura sempre soube dialogar com as transformações. O verdadeiro risco está no esquecimento.

Esquecer aqueles que construíram os caminhos os que mantiveram acesa a chama quando quase ninguém estava olhando.

Porque a cultura não se sustenta apenas pelos aplausos recebidos diante do palco, ela também depende das mãos que trabalham atrás da cortina.

E talvez seja hora de voltarmos nossos olhos para elas antes que o silêncio ocupe definitivamente o lugar do fole. Antes que o apagão da memória musical nordestina avance a ponto de transformar presença em lembrança. Afinal, é pela cultura que continuamos reconhecendo quem somos, é pela memória que impedimos que aqueles que nos trouxeram até aqui desapareçam sem deixar eco.

O fole ainda respira. Mas sua respiração já não parece tão audível quanto antes.

Diviol Lira