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A história contemporânea da China talvez represente uma das mais intrigantes metamorfoses políticas e ideológicas da modernidade. Poucos países experimentaram uma transformação tão profunda sem, contudo, abandonar oficialmente os símbolos, os ritos e os discursos de sua matriz revolucionária original.
A China do século XXI é, simultaneamente, comunista e capitalista; nacionalista e globalista; tradicional e tecnológica. Trata-se de uma verdadeira transmutação ideológica, capaz de desafiar categorias políticas que, durante décadas, pareceram inquestionáveis.
Quando Mao Tsé-Tung proclamou a Revolução Chinesa em 1949, o país mergulhou em um rígido modelo socialista inspirado no marxismo-leninismo. A economia foi estatizada, a propriedade privada severamente limitada e o ideal revolucionário elevado à condição de fundamento moral da sociedade. Durante décadas, a China apresentou-se ao mundo como antagonista do capitalismo ocidental e símbolo da resistência ao imperialismo. Entretanto, por trás da retórica revolucionária, permanecia um traço muito mais antigo que o próprio comunismo: a tradição milenar de um Estado forte, centralizador e dotado de profunda capacidade organizacional.
As crises econômicas e sociais verificadas após os anos maoístas levaram a uma mudança silenciosa, porém decisiva. Sob a liderança de Deng Xiaoping, iniciou-se um processo de abertura econômica que alteraria radicalmente os rumos da nação. Sua célebre frase - “Não importa a cor do gato, contanto que ele cace o rato” - tornou-se uma espécie de manifesto filosófico do pragmatismo chinês. Nela estava contida a renúncia à pureza ideológica em favor da eficácia prática. A verdade deixava de residir exclusivamente na doutrina para ser medida pelos resultados.
Sob essa nova lógica, a China passou a incorporar instrumentos típicos do capitalismo: investimentos estrangeiros, competição de mercado, expansão industrial e acumulação privada de riqueza. Paradoxalmente, tudo isso ocorreu sem a dissolução do poder centralizado do Partido Comunista da China. O mercado foi liberado; a política, não. Surgia, assim, uma experiência inédita: uma economia dinâmica subordinada a um Estado que jamais renunciou ao monopólio do poder.
Essa transformação desafia interpretações simplistas. Alguns a classificam como capitalismo de Estado; outros preferem a expressão socialismo de mercado. Talvez ambas sejam insuficientes. O que se observa é uma síntese singular entre planejamento estratégico, disciplina política e liberdade econômica seletiva. Nesse sentido, a China parece ter compreendido algo que muitos sistemas ideológicos ignoraram: sociedades não sobrevivem apenas de princípios, mas também de adaptação.
Do ponto de vista filosófico, a experiência chinesa lembra a observação de que as ideologias raramente desaparecem; elas se transformam. Mudam de forma para preservar sua essência. O comunismo chinês não morreu; metamorfoseou-se. Abandonou parte de suas convicções econômicas para conservar sua estrutura política. Em vez de sucumbir às forças do mercado, aprendeu a utilizá-las como instrumento de fortalecimento nacional.
Socialmente, essa estratégia produziu resultados impressionantes. Centenas de milhões de pessoas deixaram a pobreza, cidades inteiras surgiram onde antes havia campos agrícolas e uma nova classe média passou a participar do consumo global. Contudo, o progresso material trouxe novos desafios: desigualdades regionais, tensões sociais, vigilância tecnológica e o delicado equilíbrio entre prosperidade econômica e liberdade individual.
Sob a liderança de Xi Jinping, essa síntese assumiu contornos ainda mais complexos. O nacionalismo foi reforçado, o controle estatal ampliado e a tecnologia convertida em ferramenta de administração social. Ao mesmo tempo, a China expandiu sua influência internacional por meio de iniciativas como a Nova Rota da Seda, demonstrando que sua ambição ultrapassa o crescimento econômico e alcança a redefinição do próprio equilíbrio de poder global.
A China contemporânea demonstra ao mundo que as velhas categorias ideológicas do século XX talvez já não sejam suficientes para explicar a realidade atual. O país dissolve fronteiras conceituais entre esquerda e direita, socialismo e capitalismo, revolução e pragmatismo. Sua experiência sugere que a legitimidade política pode derivar não apenas da representação democrática tradicional, mas também da capacidade de gerar estabilidade, prosperidade e projeção internacional.
Há, contudo, uma ironia histórica nesse percurso. O capitalismo, outrora denunciado como inimigo mortal do comunismo, acabou sendo parcialmente incorporado pelo próprio Estado comunista como ferramenta de fortalecimento nacional. A revolução que pretendia superar o capitalismo aprendeu a administrá-lo; e o mercado, que muitos acreditavam ser incompatível com o autoritarismo político, passou a coexistir com ele.
A transmutação ideológica da China talvez seja, em última análise, o retrato de uma nova época histórica. Uma época em que as ideologias deixam de ser sistemas fechados para se tornarem instrumentos flexíveis de poder; em que a governança substitui a ortodoxia; e em que a sobrevivência dos Estados depende menos da fidelidade aos dogmas do que da capacidade de reinventá-los diante das exigências do tempo. A China não representa o triunfo do comunismo nem do capitalismo. Representa, antes, o triunfo do pragmatismo sobre a pureza ideológica - um fenômeno que poderá influenciar profundamente o século XXI.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.



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