Juazeiro terá mobilização no dia 3 de junho, o Dia Nacional em Defesa do Velho Chico

Eu viro carranca para defender o Velho Chico. Este é o mote da Campanha promovida pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) desde 2014, em prol do rio e seus povos.

Esta edição, lançada oficialmente em Salvador (BA), tem como tema “Velho Chico. Um rio, muitas mãos”.  A iniciativa reforça a importância da atuação conjunta entre comitês de bacias, especialmente dos afluentes, gestores públicos, especialistas e a sociedade civil.

O ponto alto da mobilização ocorre no dia 3 de junho, o Dia Nacional em Defesa do Velho Chico, com a realização de eventos simultâneos em quatro municípios que representam diferentes regiões da bacia: Paracatu (MG), Érico Cardoso (BA), Juazeiro (BA) e Canindé de São Francisco (SE), incluindo áreas que, embora não estejam na calha principal do rio, dependem diretamente de seus afluentes.

A data será marcada por atividades de educação ambiental, integração com os comitês afluentes, exposições, apresentações culturais, distribuição de materiais educativos, oficinas, jogos e ações voltadas especialmente a crianças e jovens. Para o presidente do CBHSF, Cláudio Ademar, sensibilizar as novas gerações sobre o Velho Chico é fundamental.

A imagem mostra um homem de óculos e cabelos grisalhos, vestindo um paletó escuro sobre uma camisa social cinza com listras finas. Ele olha para cima e para o lado com uma expressão serena e atenta. Ao fundo, uma tela de monitor exibe parcialmente uma ilustração colorida de uma carranca
Presidente do CBHSF, Cláudio Ademar, durante lançamento oficial da Campanha Vire Carranca 2026, em Salvador (BA) | Foto: Manuela Cavadas
“É um rio que tem uma movimentação econômica e cultural muito grande, com produção de energia elétrica e fruticultura ali no Vale do São Francisco, por exemplo”, comenta. “Há uma diversidade enorme, incluindo agricultores familiares, pescadores artesanais, povos tradicionais. O Rio São Francisco impacta diretamente cerca de 32 milhões de pessoas, porque eu considero que nós temos na bacia hoje em torno de 20 milhões de brasileiros e mais 12 milhões que recebem água por meio da transposição”.

Não à toa, o Velho Chico é considerado o Rio da Integração Nacional. Tamanha importância, no entanto, não tem se refletido na sustentabilidade do rio. Questionado sobre os principais problemas enfrentados, Ademar cita a carga de esgoto doméstico que cai no rio e o uso descontrolado da água por parte da irrigação e outros meios de produção.

Ele frisa ainda que “são muitas pessoas tirando água do Rio São Francisco, transposições e mais transposições ocorrendo todos os dias, mas a gente não consegue perceber a mesma velocidade quando se trata de revitalização”.  É diante desse cenário que “é preciso virar carranca para buscar de fato salvar esse rio”.

Um rio, muitas mãos-Para Cláudio Pereira, coordenador da Câmara Consultiva Regional do Médio São Francisco, que integra o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, é fundamental compreender as limitações do rio e olhá-lo para além da calha, com atenção especial a seus afluentes, de onde vem a água que alimenta esse manancial tão importante.

A fotografia apresenta uma vista aérea parcial de uma igreja histórica com torres brancas e telhado de barro alaranjado, situada às margens do Rio São Francisco em Alagoas. Ao fundo, as águas azuis do rio contrastam com a vegetação densa e verdejante das colinas na outra margem, sob um céu levemente nublado
Penedo (AL) às margens do São Francisco | Foto: Edson Oliveira
Ele frisa que o grande interesse pelas águas do Velho Chico não é acompanhado pelo interesse em criar condições para que ele tenha mais água. “Criar mais água é levar em consideração um ambiente equilibrado, é cuidar das nascentes e, principalmente, das áreas de recarga, onde há uma pressão muito grande da agroindústria, do agronegócio”, pontua. “Esse é um grande desafio: a gente precisa ter um olhar social, econômico e ambiental para a bacia”.

É diante desse contexto que o tema deste ano foi escolhido, reforçando que o rio é feito de muitas mãos que precisam, unidas, buscar a revitalização da Bacia do São Francisco. São diversos os grupos que se relacionam com o Velho Chico, compreendendo-o em suas dimensões sociais, históricas, culturais, econômicas e ambientais, sem deixar de lado sua importância vital como fonte de sustento para ribeirinhos e diferentes povos tradicionais, que vivenciam o rio também no campo simbólico e espiritual.

Carrancas de proteção-A foto registra as mãos de uma pessoa segurando um smartphone para fotografar ou escanear diversos materiais promocionais espalhados sobre uma cadeira azul. Entre os itens, destacam-se uma camiseta branca, um boné e um quebra-cabeça, todos estampados com a ilustração colorida de uma carranca e o texto "Velho Chico - Um Rio, Muitas Mãos", acompanhado da hashtag #VIRECARRANCA
A carranca é símbolo da Campanha em defesa da Bacia do São Francisco | Foto: Manuela Cavadas
A história de virar carranca para defender o São Francisco tem explicação: segundo dados do Comitê do São Francisco, a presença das carrancas era marcante na proa das embarcações do São Francisco, do fim do século 19 até meados do século 20.  

Diz a lenda que essas figuras antropomórficas, meio bicho, meio gente, teriam o poder de espantar mau-olhado, azar e assombrações, de acordo com os moradores locais. 

Conexão com o Nordeste-Cerca de 54% do território da bacia hidrográfica se localiza no Semiárido brasileiro, apesar de abranger três biomas: a Caatinga, o Cerrado, fragmentos de Mata Atlântica, além do ecossistema estuarino do rio. Mineiro de nascimento, o Rio São Francisco percorre seis estados e o Distrito Federal, sendo a maioria deles no Nordeste: Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. 

Agencia Nordeste