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Às vezes imagino que meus pais nunca se conheceram numa rua, numa festa ou por obra do acaso. Penso, ao contrário, que se encontraram muito antes, talvez quando uma caravela portuguesa cortou mares desconhecidos, talvez quando tambores africanos anunciaram a chegada de estrangeiros à costa, ou talvez quando o destino, esse velho artesão silencioso, decidira misturar mundos que a História havia insistido em separar.
Aliás, eu gosto de imaginar minha mãe como uma princesa de Daomé, não uma princesa de palácios dourados e coroas adornadas por pedras preciosas, mas uma daquelas que carregam no olhar a força ancestral de um povo inteiro; enquanto meu pai surge em minha imaginação como um capitão português, homem dos mares, herdeiro de uma terra de navegadores e descendente daqueles que acreditavam que o horizonte era apenas o começo do caminho.
Entre eles dois havia um oceano a ser atravessado; embora eu ache que oceanos não transportem apenas águas: eles também carregam glórias, dores, memórias e fantasmas. E a escravidão foi, sem dúvida nenhuma, um desses fantasmas. Costuma-se falar da escravidão como se ela tivesse nascido em uma única geografia, em um único povo ou em uma única cor. A História, contudo, revela-se muito menos simples do que a nossa necessidade humana de encontrar culpados em definitivo.
Antes mesmo de os navios negreiros cruzarem o Atlântico, homens já escravizavam outros homens desde tempos remotos, e os primeiros escravos, em muitos casos, eram prisioneiros de guerra, derrotados transformados em propriedade dos vencedores. Gregos escravizaram gregos; romanos subjugaram povos inteiros; povos africanos guerrearam entre si; e povos europeus também conheceram o peso das correntes.
Os antigos eslavos, por exemplo, foram reduzidos ao cativeiro em número tão expressivo que muitos associam a própria origem da palavra “escravo”, de origem greco-bizantina, à sua história. Parece, portanto, que a humanidade aprendeu muito cedo a dominar e tenha demorado um tempo infinito para aprender a respeitar.
Nem mesmo os textos sagrados escaparam às ambiguidades humanas, pois a Bíblia, lida à luz do seu próprio tempo histórico, não aboliu diretamente a escravidão; ao contrário, em diversas passagens, regulamentou práticas já existentes, quase como quem reconhece uma realidade social consolidada. Séculos mais tarde, ao contrário, princípios extraídos dessa mesma tradição serviriam de inspiração para vozes abolicionistas. Eis um dos grandes paradoxos da experiência humana: frequentemente utilizamos as mesmas palavras tanto para construir correntes quanto para quebrar os grilhões.
Todavia, a escravidão atlântica produziu uma ferida singular, pois não foi apenas comércio; tornou-se um sistema gigantesco que transformou seres humanos em mercadorias e arrancou gerações inteiras de seus nomes, de seus deuses e de suas memórias. Seus efeitos não desapareceram com a assinatura de leis, porque determinadas dores sobrevivem ao próprio fato que lhes deu origem e permanecem atravessando o tempo, reaparecendo silenciosamente sob a forma de desigualdades, preconceitos e ausências.
Ainda assim, sempre retorno à mesma pergunta: o que exatamente herdam os filhos? Afinal, eu não construí navios negreiros, eu não carreguei correntes, eu não conduzi homens aos porões escuros da História e tampouco eu tenha atravessado oceanos acorrentado. Eu nasci séculos depois de tudo isso. E é justamente aí que percebo uma distinção fundamental: não carrego culpa herdada, mas memória herdada, e talvez exista uma diferença imensa entre essas duas coisas.
Pelo lado caucasiano, de meu pai branco, não me cabe pagar pelos pecados dos mortos; pelo lado afrodescendente, de minha mãe, não me cabe esquecer as dores dos mortos; e talvez meu verdadeiro destino seja compreender ambos, porque, afinal, em minhas próprias veias, a princesa de Daomé e o capitão português terminaram por se casar. E talvez aqui resida aí a maior ironia da História: depois de séculos de guerras, correntes, culpas e divisões, o amor resolveu fazer aquilo que os impérios jamais conseguiram - reconciliar continentes, povos e etnias dentro de um único ser.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.



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