Artigo: Neymar convocado: o Brasil comemora o retorno de seu último grande protagonista

A convocação finalmente aconteceu. E bastou Carlo Ancelotti pronunciar o nome de Neymar para que o país futebolístico reagisse quase como em um gol. Nas redes sociais, nos grupos de mensagens, nas redações esportivas, nos bares e nas esquinas onde ainda se discute futebol como se fosse assunto de Estado, houve comemoração. 

Uma comemoração barulhenta, apaixonada e, em muitos casos, até aliviada. Porque, no fundo, boa parte do Brasil queria ouvir aquele nome. A convocação de Neymar para a Copa do Mundo de 2026 talvez tenha sido a mais discutida, tensionada e politizada da história recente da Seleção Brasileira. 

Houve pressão popular. Houve campanhas de jornalistas. Houve ex-jogadores defendendo publicamente sua presença. E houve também o outro lado: acusações de um lobby quase sem precedentes em favor do camisa 10, como se o futebol brasileiro inteiro tivesse se mobilizado para empurrá-lo de volta ao centro do palco.

E talvez tenha mesmo.

Mas isso acontece porque Neymar ainda ocupa um lugar raro no imaginário nacional. Ele não é apenas um jogador convocado. É assunto. É audiência. É debate permanente. Seu nome divide mesas-redondas, move algoritmos e produz sentimentos extremos — do amor incondicional à irritação profunda. Nenhum outro atleta brasileiro atual provoca tamanho impacto antes mesmo de entrar em campo.

E é exatamente por isso que sua convocação faz sentido.

Ancelotti, experiente demais para cair em armadilhas emocionais, foi coerente com aquilo que já havia dito antes: Neymar, em condições físicas adequadas, não precisa provar mais nada tecnicamente. E convenhamos: uma Seleção que aceitava discutir nomes contestáveis na pré-lista dificilmente poderia ignorar justamente o jogador mais talentoso de sua geração.

O curioso é que o debate deixou de ser apenas esportivo há muito tempo. Neymar virou símbolo de tudo. Para uns, representa a decadência de uma era superexposta. Para outros, é a última ligação do Brasil com aquele futebol imprevisível, irreverente e quase teatral que o mundo aprendeu a temer.

E talvez exista uma verdade no meio disso tudo: o Brasil ainda sente falta de ídolos absolutos. E quando encontra um, não sabe se abraça ou apedreja.

A própria cerimônia da CBF ajudou a transformar a convocação em espetáculo nacional. Houve demora. Muita demora. Excesso de vídeos, apresentações artísticas, homenagens, discursos e uma construção quase cinematográfica de suspense que irritou parte do público, especialmente quem queria apenas conhecer logo a lista final. Mas, ao mesmo tempo, a entidade deu uma verdadeira aula de promoção esportiva.

A CBF conseguiu algo raro: transformou uma convocação em entretenimento de massa.

Criou expectativa, alimentou especulações, movimentou a imprensa durante horas e fez do anúncio de cada nome um pequeno evento dentro de um evento maior. Em tempos de consumo instantâneo e atenção fragmentada, a entidade entendeu perfeitamente o valor comercial da ansiedade do torcedor.

E no centro de tudo estava Neymar.

Quando seu nome apareceu, não parecia apenas uma convocação. Parecia o retorno de um personagem que o futebol brasileiro se recusa a abandonar. Como aqueles protagonistas imperfeitos dos velhos dramas esportivos, que carregam contradições, cicatrizes e desconfianças, mas continuam atraindo todos os olhares quando entram em cena.

Agora, encerrada a novela da lista, começa a parte mais difícil: jogar futebol. 

Porque Copa do Mundo não perdoa marketing, nem lobby, nem nostalgia. Mas também nunca deixou de reservar espaço para os grandes personagens. E Neymar, gostem ou não dele, ainda é o maior personagem do futebol brasileiro contemporâneo.

Por Danilo Duarte - Jornalista - Imagem gerada por IA