Crônica - BRASIL X COREIA DO SUL: Quando o jogo mais importante acontece fora dos gramados

A Copa do Mundo do México, em 1970, ficou eternizada na memória dos brasileiros como o auge do futebol-arte. Sob o brilho de Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson e Rivellino, o Brasil encantou o mundo e conquistou o tricampeonato mundial, ocupando o lugar mais alto do pódio.

Na outra extremidade da tabela, a Coreia do Sul encerrava sua participação de forma modesta, figurando entre as últimas colocações do torneio. Naquele momento, a fotografia parecia perfeita: o Brasil era campeão; a Coreia, apenas uma coadjuvante.

Mais do que uma disputa esportiva, aquela classificação parecia simbolizar a posição dos dois países no cenário internacional. O Brasil era uma nação de dimensões continentais, rico em recursos naturais, com vasto território agrícola, enorme potencial humano e reconhecimento global. A Coreia do Sul, por outro lado, ainda carregava as cicatrizes profundas da Guerra da Coreia, encerrada menos de vinte anos antes. Tratava-se de um país pobre, sem abundância de recursos naturais e dependente de ajuda externa para reconstruir sua economia.

Se alguém, em 1970, fosse desafiado a prever qual dos dois países se transformaria em uma potência industrial e tecnológica nas décadas seguintes, provavelmente escolheria o Brasil sem hesitação.

Contudo, a história possui o curioso hábito de contrariar expectativas; enquanto o Brasil celebrava suas vitórias nos gramados, a Coreia do Sul iniciava silenciosamente outra competição: a corrida pelo desenvolvimento econômico e tecnológico. Seus governantes perceberam que a riqueza do futuro não estaria apenas no solo ou na extensão territorial, mas principalmente na educação, no conhecimento e na capacidade de inovação. Investimentos maciços em ensino, formação técnica, pesquisa científica e industrialização passaram a orientar o planejamento nacional.

É justamente nesse ponto que o pensamento de Monteiro Lobato adquire impressionante atualidade. Ao afirmar que “uma nação se faz com homens e livros”, Lobato sintetizou uma verdade que parece ter sido compreendida com maior profundidade pelos sul-coreanos do que por nós. A frase não deve ser interpretada apenas como uma exaltação abstrata da educação, mas como a defesa de um projeto nacional sustentado pela formação humana. Livros, nesse contexto, representam conhecimento, ciência, cultura e pensamento crítico; homens representam cidadãos preparados para construir o futuro.

A Coreia do Sul parece ter levado essa lição ao pé da letra. Compreendeu que educação não é mera distribuição de diplomas nem simples ampliação estatística do acesso escolar. Educação séria e de qualidade é aquela capaz de ensinar o indivíduo a pensar, questionar, criar, disciplinar-se e agir com firmeza diante dos desafios históricos. Uma sociedade progride quando forma pessoas capazes de transformar ideias em projetos e projetos em realizações concretas.

O Brasil, infelizmente, muitas vezes parece ter seguido caminho diverso. Ao longo de décadas, sucederam-se reformas educacionais, planos e discursos grandiosos, mas nem sempre acompanhados por investimentos consistentes em qualidade, valorização docente, pesquisa científica e construção de uma cultura educacional voltada ao pensamento crítico e à inovação. Ainda convivemos com uma realidade em que grande parcela dos estudantes aprende conteúdos, mas nem sempre é estimulada a refletir, interpretar e desenvolver autonomia intelectual.

Os resultados dessa diferença de prioridades tornaram-se visíveis. Empresas sul-coreanas transformaram-se em referências mundiais em tecnologia, eletrônicos, construção naval, automóveis e semicondutores. O país tornou-se uma das economias mais industrializadas do planeta. Enquanto isso, o Brasil, apesar de suas incontáveis potencialidades e avanços relevantes, continua ocupando posição mais modesta no setor industrial de ponta.

Não se trata de diminuir as conquistas brasileiras nem de idealizar a experiência coreana. Cada país possui sua história e seus desafios específicos. Contudo, a comparação oferece uma reflexão inevitável. O futebol ensina que partidas podem ser vencidas pelo talento natural; campeonatos duradouros, porém, exigem treinamento, disciplina, estratégia e planejamento.

Em 1970, o Brasil venceu o campeonato do futebol. Décadas depois, a Coreia do Sul parece ter vencido outra disputa: a do desenvolvimento sustentado e da modernização tecnológica. Talvez a grande lição dessa história seja reconhecer que os jogos mais importantes não são decididos apenas em noventa minutos. Alguns campeonatos duram gerações inteiras - e, para vencê-los, talvez ainda precisemos ouvir com mais atenção a antiga advertência de Monteiro Lobato: uma nação se constrói, antes de tudo, com homens e livros.

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.