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A vida de Leon Tolstói (Lev Nikoláievitch Tolstói) foi marcada por uma das mais intensas contradições espirituais e morais da literatura moderna. Autor de obras monumentais como “Guerra e Paz” e “Anna Kariênina”, Tolstói não foi apenas um romancista extraordinário, mas também um homem atormentado por perguntas religiosas, filosóficas e existenciais.
Em “Guerra e Paz”, as invasões napoleônicas da Rússia servem de pano de fundo para mostrar que guerra e paz não são apenas estados políticos, mas também condições interiores. A guerra representa o caos, a ambição, a vaidade e a ilusão de controle; e a paz, a simplicidade, o amor, a família e a reconciliação consigo mesmo. Já em “Anna Kariênina”, Tolstói sugere que a infelicidade nasce quando as pessoas vivem divididas entre aquilo que desejam e aquilo que a sociedade exige delas. Mais do que um romance amoroso, a obra é uma investigação moral sobre o preço de seguir os próprios sentimentos.
Essa tensão entre aparência e verdade atravessou a própria vida do escritor. Nascido em 1828, numa família aristocrática da Rússia czarista, Tolstói cresceu cercado pelos privilégios da nobreza. Herdou terras, servos e riqueza, mas, ainda jovem, sentia um profundo vazio interior. Frequentou salões, envolveu-se com jogos, dívidas e excessos, serviu como oficial na Guerra da Crimeia e alcançou fama internacional. Contudo, nada disso lhe pareceu suficiente.
Sua crise existencial foi descrita em “Uma Confissão”. Nessa obra autobiográfica, Tolstói admite que, apesar da fortuna, da família e do reconhecimento, sentia-se próximo do desespero. Em determinado momento, confessou que escondia cordas e armas para não ceder à tentação do suicídio. A razão, para ele, era incapaz de responder à pergunta fundamental: qual é o sentido da vida?
Foi então que se voltou intensamente para a religião. Contudo, sua religiosidade não seguiu os caminhos da Igreja Ortodoxa Russa. Tolstói passou a ler os Evangelhos de forma direta, no original na língua grega, procurando distinguir os ensinamentos de Jesus daquilo que considerava deformações introduzidas pela instituição religiosa.
A partir daí, tornou-se um crítico severo da Igreja. Acusava-a de trair o Evangelho ao apoiar o Estado, a guerra, a propriedade e as desigualdades sociais. Considerava escandaloso que a Igreja abençoasse exércitos e sustentasse a autoridade do czar, enquanto Cristo pregara a paz e a fraternidade. Também rejeitava dogmas tradicionais, como a Trindade, os milagres, os sacramentos e a autoridade clerical.
Tolstói passou a defender um cristianismo moral e individual, sem sacerdotes nem mediação institucional. Pregava a simplicidade, a não violência, a humildade e a busca da verdade na própria consciência. Vestia-se como camponês, trabalhava no campo e procurava renunciar aos privilégios aristocráticos.
Antecipando-se ao preconizado pela Teologia da Libertação, Tolstói criticava uma Igreja aliada ao poder político, à riqueza e às desigualdades sociais, acusando-a de se terafastado da mensagem original de Jesus ao aproximarem do Estado e das elites.
Tolstói admirava a simplicidade moral dos camponeses russos e via neles uma autenticidade que faltava às elites urbanas. Da mesma forma, a Teologia da Libertação sustenta que os pobres ocupam um lugar privilegiado na compreensão do Evangelho - a chamada “opção preferencial pelos pobres”. Em ambos os casos, há a ideia de que a verdade cristã se encontra mais facilmente entre os humildes do que entre os poderosos.
Essas ideias provocaram enorme escândalo. Em 1901, o Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa declarou oficialmente sua exclusão da comunhão da Igreja, na prática, sua excomunhão. Tolstói recebeu a notícia sem surpresa. Declarou que rejeitava a instituição e seus dogmas, mas não os ensinamentos morais de Cristo. Para ele, a Igreja havia abandonado o Evangelho, enquanto ele tentava retornar à sua essência.
A ruptura aprofundou seus conflitos pessoais. Nos últimos anos, Tolstói viveu dividido entre o desejo de abandonar completamente a riqueza e a família e a impossibilidade de romper inteiramente com a vida que construíra. Sua relação com a esposa, Sofia Andreievna, deteriorou-se, sobretudo porque ela não aceitava sua rejeição à propriedade e à fama.
Esse drama aparece de modo exemplar em “A Morte de Ivan Ilitch” (1886). Na novela, Ivan Ilitch é um homem respeitado, bem-sucedido e socialmente admirado. Entretanto, ao adoecer e perceber a proximidade da morte, descobre que sua vida inteira talvez tenha sido apenas uma sucessão de aparências. A angústia que o consome não decorre apenas do medo de morrer, mas da suspeita de nunca ter vivido autenticamente.
Tolstói mostra que Ivan Ilitch sempre viveu segundo aquilo que os outros esperavam dele: prestígio, conforto, carreira e respeitabilidade. Contudo, quando a morte se aproxima, essas conquistas revelam-se vazias. A obra torna-se, assim, uma poderosa crítica social. Os colegas de Ivan pensam apenas nas vantagens que sua morte lhes trará; a família preocupa-se mais com a herança e as convenções do que com seu sofrimento. Todos fingem ignorar a morte e continuam presos ao teatro das aparências.
A única figura verdadeiramente humana é Guerássim, o criado simples que acompanha Ivan em seus últimos dias. Em sua humildade e sinceridade, ele representa os valores que Tolstói passou a considerar essenciais: compaixão, verdade e aceitação da condição humana.
Ao final da vida e da obra, a mesma pergunta permanece: como viver de modo verdadeiro num mundo dominado pela aparência, pelo poder e pela injustiça? Tolstói passou a existência tentando responder a essa questão. Sua morte, em 1910, numa pequena estação ferroviária após abandonar secretamente a própria casa, simboliza essa busca incessante: a de um homem dividido entre a fé e a instituição, entre o mundo e a consciência, entre a vida que teve e a verdade que procurou.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.



1 comentário
05 de May / 2026 às 16h20
Gostei da explanação. Tolstói e Dostoievsky são dois gigantes da literatura mundial. Li a três obras mencionadas. Essa busca existencial só encontra resposta na fé em Cristo Jesus.