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Houve um tempo em que uma frase seca pesava mais do que qualquer carimbo: “NÃO É VÁLIDO PARA CUBA”. Ela repousava nos passaportes brasileiros como um veto silencioso, um limite político que, curiosamente, aguçava ainda mais o desejo. Afinal, poucas coisas são tão sedutoras quanto aquilo que nos é interditado.
Foi nesse tempo de peregrinações comerciais pelo exterior que me encontrei, certa vez, em Nova Iorque - a cidade que nunca dorme, mas que também abriga os sonhos de quem foi obrigado a acordar cedo demais.
Dentre esses sonhos, havia uma boate argentina chamada “Añoranza” - vocábulo portenho que traduz a “ânsia por algo que ficou para trás”, a “nostalgia” e, em última instância, a nossa famosa “saudade”; termo que, por si só, já era uma confissão.
Tudo isso parecia fazer sentido, sobretudo porque eu desfilava com uma revista soviética chamada “Sputnik” e já tinha um filho, a quem dera o nome de Vladimir, em aberta homenagem a Vladimir Ilitch Lênin - isso muito antes da queda do Muro de Berlim.
Na boate, frequentada sobretudo por cubanos exilados, o passado dançava mais do que o presente, e as conversas tinham sempre um leve sabor de perda. Falava-se de La Havana como quem fala de um amor interrompido - com ternura, mas também com certa resignação. Foi ali que, quase uma década depois, vi se apresentar o grande Altemar Dutra, isso um mês antes de sua morte prematura.
Sua voz, grave e melancólica, parecia compreender aquele ambiente melhor do que qualquer discurso político. Havia algo de despedida em cada canção, embora ninguém ainda soubesse disso. Curiosamente, ele se hospedava no Hotel Taft - o mesmo em que eu costumava me hospedar. Cruzávamo-nos como viajantes de mundos diferentes, mas unidos por uma espécie de trânsito invisível entre destinos.
Voltando alguns anos, numa dessas noites de 1978, entre um copo e outro, confessei a gregos, troianos e alguns cubanos o que talvez já fosse evidente: eu queria conhecer Cuba. Mas disse isso com a ressalva inevitável - não tinha visto consular, e meu passaporte, afinal, não era válido para aquele país então proibido aos brasileiros, que só começariam a visitá-lo livremente após 1979.
Foi então que fui interpelado por um de meus anfitriões: um cubano-americano, milionário, dono de uma segurança que não se aprende - exerce-se. Ouviu-me com um leve sorriso e disse, quase com naturalidade:
- Eu vou sempre. Saio de Key Biscayne.
Aquilo soou, ao mesmo tempo, como absurdo e convite. E era ambos.
- Se quiser, posso levá-lo, um dia.
Há propostas que não pedem reflexão, apenas coragem. E, no dia combinado, partimos de Key Biscayne às dez da manhã. O mar, naquele dia, parecia cúmplice. A travessia foi rápida - quase indecente em sua simplicidade. Por volta das seis da tarde, estávamos em algum ponto próximo a Havana, como se tivéssemos atravessado não apenas uma distância, mas uma proibição.
E então veio a noite.
Uma noite que não constou em nenhum registro oficial, que não carimbou passaporte algum, que não pediu autorização a ninguém. Bebemos como quem celebra algo maior do que o álcool - talvez a própria transgressão. Foi uma noite de “piña colada”, rum Bacardi e mojitos - dezenas deles -, mas também de risos soltos, de música e de uma liberdade que só existe quando se ignora, por algumas horas, a existência das fronteiras.
Havana, naquela noite, deixava de ser apenas um ponto no mapa ou uma cidade submetida às contingências da política e da história. Não era um lugar, mas um estado de espírito - uma espécie de suspensão provisória da realidade, onde as fronteiras perdiam substância e a liberdade deixava de ser conceito para se tornar experiência sensível.
Naquele momento e lugar, entre a música, o rum e o sal do mar ainda impregnado na pele, compreendi que certos lugares não se visitam com os pés, mas com a disposição interior de atravessar o proibido. Havana transformou-se, então, menos em geografia e mais em metáfora: a representação íntima de tudo aquilo que o homem busca quando desafia limites - não apenas territoriais, mas existenciais. Porque, no fundo, toda viagem verdadeira é uma travessia de si mesmo.
Regressamos, felizes e extenuados, ao amanhecer, por volta das seis horas. O retorno foi silencioso - não por arrependimento, mas por uma espécie de reverência. Eu tinha a certeza absoluta de que aquele momento mágico jamais seria repetido.
Hoje, ao olhar para trás, penso que aquela noite jamais existiu - ao menos não para os registros do mundo. Mas existiu para mim, com a nitidez das experiências que escapam à lógica e se fixam na memória como uma pequena vitória pessoal contra as limitações impostas. Há viagens que não se medem em milhas, mas naquilo que ousamos atravessar.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.



1 comentário
01 de May / 2026 às 07h03
Parabéns professor. Extraordinário texto .