Crônica - O dia que não houve amanhecer: Tudo se transforma segundo Lavoisier

A manhã havia despertado bem dentro de mim, embora eu mesmo ainda não tivesse percebido esse lânguido despertar. Sentia tão somente um denso vazio, uma espécie de entorpecimento interior que conseguia me manter suspenso entre o sono e a vigília.

Muito mais que de repente, dei-me conta de que não havia qualquer tipo de ruído no interior de mim mesmo nem no exterior, à minha volta. Nem mesmo aquele zumbido habitual que, todas as manhãs, parecia soar em meus ouvidos para me alertar de que chegara a hora de levantar e seguir a labuta, cumprindo os vários ofícios do quotidiano.

Também não me chegaram os acordes do “Boléro”, de Ravel - aqueles dezessete minutos de repetição hipnótica, crescendo pouco a pouco, como uma maré sonora, até alcançar o clímax. Havia muitos anos que eu cultivava esse ritual: ouvir, sempre que despertava, aquela trama melódica extraordinária, essa centelha de genialidade que, para mim, jamais deveria calar-se.

Antes de me entregar à filosofia, meu pensamento tomou o caminho da química. Recordei-me do princípio formulado por Lavoisier na Lei da Conservação da Matéria: “Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

Lembrei-me, então, do exemplo da vela. Ao queimar, ela não desaparece; a cera e o pavio apenas se convertem em calor, luz, fumaça e fuligem. Nada se extingue verdadeiramente: a matéria apenas muda de estado, renova-se, assume outra forma.

Talvez esse princípio também se aplique a tudo o que existe no universo, desde o remoto instante do suposto Big Bang. Nada fenece por completo. As coisas apenas atravessam o tempo, transformando-se incessantemente, como a chama de uma vela que parece sempre a mesma, embora jamais o seja.

Quando a madeira arde, transforma-se em cinzas, gases e energia; no entanto, a matéria continua ali, dispersa em outras formas. O mesmo ocorre com a água que evapora, com as folhas que apodrecem, com os corpos que envelhecem. Tudo se modifica, tudo se desloca, tudo continua.

Em consonância com a tese de Lavoisier, comecei a imaginar uma manhã que não chega a ser vivida. O despertador não toca para quem já não pode ouvi-lo; a luz do dia atravessa a janela, mas não encontra olhos que a reconheçam. Ainda assim, há uma estranha permanência: o mundo segue, o tempo avança, e aquilo que foi já não está, embora tampouco tenha se extinguido por completo. Apenas se transformou em ausência, em memória dispersa, em vestígios.

Nessa manhã, que não despertara em mim, permanecem suspensos os gestos que não realizei: a refeição matinal que não tomei, as palavras que se calaram dentro de mim, os afetos que não externei. Tudo aquilo que poderia ter sido dissolve-se na mesma lógica da transformação - não como matéria física, mas como possibilidade jamais concretizada. E talvez seja esse o aspecto mais inquietante: não é a morte em si que pesa, mas o acúmulo silencioso do não vivido.

Se nada se perde, talvez até mesmo as intenções esquecidas e os planos adiados encontrem alguma forma de permanência, ainda que apenas como eco na vida daqueles que continuam. Aquela manhã, que para mim não existiu, ainda assim aconteceu no mundo - indiferente, plena, completa.

E nisso há uma lição discreta: a vida não interrompida é sempre transformação em ato, enquanto a vida adiada corre o risco de tornar-se apenas uma ideia que nunca chegou a existir.

A ideia lavoisieriana da vela ainda ardia, oscilando apenas quando a brisa atravessava a janela entreaberta. O silêncio a observava, como quem olha para dentro de um poço muito fundo. Havia qualquer coisa naquela luz frágil - ao mesmo tempo firme e prestes a desaparecer - que fazia lembrar a própria vida. Porque a chama, embora pareça a mesma, nunca é a mesma chama. E talvez nós também não o sejamos.

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.