Crônica - Sob o sol do sertão

O sertão é a fecundante explosão da vida em forma de fogo e calor. É o movimento dinâmico das coisas sobre o marasmo gélido das cavernas.

O sertão é planta tenra que brota na fenda da pedra como que a indicar o triunfo dos humildes sobre a brutalidade dos bárbaros.

Antônio Conselheiro, Glauber Rocha, Gonzagão, Patativa, Suassuna, Vitalino, Euclydes, Guimarães Rosa, Eduvirgens, João Grande, Zefa do Doce (só para citar os maiores): eles são a mais pura e autêntica metáfora do grande sertão. Só quem é sertanejo (e eles o foram por excelência) pode abarcar a dimensão do ser sertão, na sua verdadeira essência.

O sertão é o aboio cadenciado do vaqueiro; é a peleja vibrante do repentista; é a fogueira queimando numa noite de São João.

O sertão é o ser que pulsa. Que vibra. Que sente. Por suas sendas estreitas e sinuosas corre a seiva que alimenta o chão e modela os que aí vivem. Nas suas matas secas e rarefeitas dorme o sopro da vida que desperta na primeira trovoada.

O sertão é o panteão da pluralidade, onde deuses de todas as cores e raças convivem de forma festiva e desassombrada. O sertão tem sua própria forma de ser e de conceber. Tem sua própria gramática – gramática afiada, cortante. Precisa. Tão precisa quanto o bote da cascavel.

O sertão é mais que um território: é uma identidade. É mais que um nome: é uma paixão. O sertão está na alma, no agir, nas andanças. Onde estiver um filho do sertão, aí estará o sertão por inteiro.

O sertão transcende fronteiras, constrói pontes, semeia horizontes. O sertão é o mundo inteiro dentro da gente. (A gente está nele e ele na gente – união amorosa. Mística. Visceral. Espiritual...)

O sertão é acolhida, é afeto, é solidariedade. É o copo de água fresca oferecido a quem tem sede. É o prato de comida ofertado a quem tem fome.

O sertanejo, por sua vez, é o herói com caráter do povo brasileiro. Desde sempre aprendeu a ser senhor de si. Não se curva nunca. Nem mesmo ao chicote dos senhores da terra – e do voto. Nunca foge à luta. Nunca.

E se jacta da luta que tece.

O sertão e o sertanejo são a síntese do Brasil real.

José Gonçalves do Nascimento

Escritor