Crônica - Como aprender efetivamente uma língua estrangeira - Alguns aspectos fônicos da língua inglesa

Sumário: O presente trabalho visa apresentar ao aluno de línguas estrangeiras e de inglês em particular a importância de priorizar o estudo fônico da língua, embora as escolas de idioma insistam no estudo gramatical. Torna-se, portanto, imprescindível a correta pronúncia da língua na comunicação.

No primeiro momento, minha intenção foi de apontar o aspecto negativo de como não aprender uma língua, mas, prevalecente meu lado positivista não comtiano, passei a elaborar este pequeno texto relativo ao aprendizado de uma língua --- de modo geral --- e da língua inglesa --- no aspecto particular.

Nesse contexto, faz-se necessário estabelecer a razão de se desejar aprender a língua inglesa, hoje alçada à condição de língua franca nas relações internacionais, substituindo o latim, mesmo nos vocábulos técnico-científicos. De que me serve saber inglês, se até aquele filme de que gosto já se encontra dublado para o português? E aquele best-seller americano, também já não tem tradução para nosso idioma vernáculo?

A resposta é sim e não, ao mesmo tempo. Não há tradução fidedigna, do mesmo modo que não existe um só floco de neve igual, isto sem falar na impressão digital (aquela que o governo faz constar em nossas cédulas de identidade), logicamente se o leitor não for portador da Síndrome de Nagali, caso em que a identificação pessoal somente será estabelecida através leitura da íris.

Embora tenha melhorado nos últimos trinta anos, a tradução ainda é algo incipiente entre a intelectualidade brasileira, pois, como se sabe, a condição básica para uma boa tradução não é o domínio pelo tradutor da língua que está sendo traduzida (a língua original), mas a dele própria (a língua alvo). E é aí que mora o pecado.

Quem não sabe expressar-se em sua língua materna, dificilmente conseguirá expressar-se nas alheias. Pode-se discordar dessa afirmação, mas tomemos o exemplo da tradução para o português do “Fausto” de Goethe.

Até hoje é tida como melhor tradução a do Visconde de Castilho que simplesmente não entendia uma só palavra de alemão. Inteligentemente, ele pediu a um alemão que residia em Portugal que vertesse as palavras, de preferência adaptando a sintaxe, e depois ele passou a trabalhar no amontoado de palavras criado pelo genial teutônico.

Essa circunstância educacional especial conferida a nós, brasileiros, faz com que não dominemos o idioma materno e consequentemente impõe-nos o isolamento em nossa comunidade monolíngue. Empobrecemos educacionalmente quando a língua latina foi retirada do currículo escolar, e mesmo assim o português continuou a ser ensinado com a mesma densidade gramatical daquela língua.

Outro fator, esse de ordem cultural, compele-nos a não tentar criar motivos suficientemente fortes para um esforço que tem pouca relação com as nossas necessidades da vida diária. Não temos traquejo no manuseio do controle remoto de nossos televisores, muito menos na seleção de canais estrangeiros.

Nosso pecado capital consiste na teimosia de continuar pensando em português, principalmente no momento de se internalizar uma ou outra palavra. Nossa tendência tem sido no sentido de traduzir para o português, quando o professor esta mostrando um livro e afirmando “It’s a book”.

Outro erro, não menos importante, relaciona-se com a exata pronúncia, pois consoantes e vogais transpostas para outra língua resultam em fonemas distintos. Por exemplo, o “t” (intermediário e final) no inglês corrente não tem o valor fonético da consoante oclusiva alveolar surda [t], mas o da consoante vibrante alveolar sonora [r], o nosso “r” na palavra portuguesa “caro”.

Sempre entendi língua como fenômeno fundamentalmente oral, pois a forma escrita da língua decorre daquela. Desse modo, estudar pronúncia de uma língua no contexto da fonética e fonologia, sempre com a ajuda de um tutor, é algo de importância, a qual se deve ressaltar:

“A language is a complete, complex, changing, arbitrary system of primarily oral symbols learned and used for communication within the cultural framework of a linguistic community.)

Conclui-se, portanto, que o domínio da língua que se fala começa com o entendimento oral, e este começa com o reconhecimento das palavras contidas no fluxo de produção oral. Conseguir isolar cada conjunto de fonemas correspondentes a cada unidade semântica (palavra), dentro da sequência ininterrupta de sons no fluxo da produção oral, é um desafio considerável.

Por último, destaco a importância da elisão e da ligação no processo fonêmico da língua inglesa, isto decorrente da miscigenação do anglo-saxônico com o francês após a batalha de Hastings, na qual Guilherme, o Conquistador, saiu-se vencedor e tomou para si o trono inglês.

Todos esses aspectos fonéticos, fonêmicos e linguísticos serão abordados em sala de aula, pois no aspecto autodidata você pode aprender uma língua estrangeira para ler ou escrever, mas nunca para pronunciar com propriedade uma língua sonora como é o caso do inglês.

Para quem tem pouco tempo de estudar inglês, recomenda-se reservar cinco minutos diários para um mínimo de contato com o idioma.

Ao final de um ano, o aluno terá dedicado 48 horas de estudo, o que corresponde a um estágio completo de inglês em uma boa escola de idioma.

O estudo de um vocabulário básico deve ser compartimentado, com palavras do mesmo naipe. Já para quem está começando, ou quer ampliar o vocabulário, ou para quem deseja complementar o estudo na escola, vale a pena aprender palavras novas com imagem e som.

Nesse estudo, deve-se prestar bastante atenção aos falsos cognatos que são palavras de origem comum, com grafias idênticas ou, pelo menos, semelhantes, mas que evoluíram com significados total ou parcialmente diferentes.

Além desse cuidado, as palavras devem ser divididas em dois tipos quanto à sua flexão:

a)    palavras variáveis, aquelas que podem sofrer alteração em sua forma;

b)    palavras invariáveis, aquelas que têm forma fixa.

Dentre as formas variáveis e invariáveis, existem dez classes gramaticais que se subdividem por razões didáticas em:

I -        classes principais (a base do idioma e formadores do núcleo das orações):

a)        substantivos: palavras variáveis com que se designam e nomeiam seres em geral;

b)        verbos: palavras variáveis que exprimem o que se passa, isto é, um acontecimento representado no tempo; indicam ação, fato, estado ou fenômeno.

II -       Satélites (servem para exprimir atributos das classes principais):

a)        artigos: palavras variáveis (em inglês, segue a fonologia e não o gênero gramatical) que acompanham os substantivos, determinando-os ou indeterminando-os;

b)        adjetivos: palavras invariáveis em inglês que indicam as qualidades, origem e estado do ser;

c)        numerais: palavras utilizadas para indicar uma quantidade exata de pessoas ou coisas, ou o lugar que elas ocupam em uma série;

d)        pronomes: palavras com a função de substituir o nome ou o ser, como também de substituir sua referência; servem também para representar um substantivo e para o acompanhar, determinando-lhe a extensão do significado;

e)        advérbios: palavras invariáveis indicadoras de circunstâncias diversas; é fundamentalmente um modificado do verbo, podendo também modificar um adjetivo, outro advérbio ou uma oração inteira.

III -     Conectores (servem para estruturar a sintaxe de uma oração):

a)        preposições: palavras invariáveis que ligam outras duas subordinando a segunda à primeira palavra;

b)        conjunções: palavras invariáveis que ligam outras duas palavras ou duas o- rações; interjeições: palavras invariáveis usadas para substituir frases de significado emotivo ou sentimental.

Deve-se, contudo, atentar para o fato de que existem três problemas comuns aos alunos que buscam novas palavras no dicionário:

•      Buscar modificações da palavra principal e não conseguir achá-la. Um exemplo disto seria de procurar por “broke” (forma passada do verbo “break”). O aluno não acha a palavra entre os verbetes, e se frustra em não achá-la;

•      Optar por um dos primeiros significados que aparece no dicionário de inglês sem ler todos para descobrir o sentido correto para expressar o que quer dizer. O aluno escolhe o significado errado. Este é um dos problemas mais comuns entre os alunos de inglês;

•      Utilizar um substantivo no lugar de um verbo. O aluno utiliza as palavras nas classes e formas erradas. Isto poderia ser facilmente evitada se o aluno investir no reconhecimento taxionômico das palavras, ou melhor dizendo, saber diferenciar um verbo de um substantivo, uma preposição de uma conjunção, etc.

Durante longo tempo, pelo menos até os anos sessenta, o ensino da língua inglesa concentrou-se na escrita, o que era tido como prova de erudição. Estudava-se mais para ler e escrever do que para falar.

Nesse contexto, como ocorria com o francês e o latim, a oralidade nem sempre era considerada habilidade maior, mas tão somente uma forma popular de expressão sem qualquer registro da atividade coloquial.

Com as contribuições da abordagem comunicativa, a qual passou a ter maior difusão no ensino/aprendizagem durante a segunda metade dos anos 70, a língua passou a ser vista não apenas a partir de suas estruturas (gramática e vocabulário), mas também e principalmente em termos das funções comunicativas que ela se propõe a desenvolver.

Assim, a língua oral passou a ser valorizada como meio de expressão. A ênfase, até então na pronúncia, deslocou-se para a busca da fluência oral em linguagem adequada, diversificando-se o uso de estratégias para a aquisição oral.

Entretanto, mesmo com a abordagem comunicativa e seus pressupostos teóricos, que aliam contribuições de abordagens anteriores àquelas da sociolingüística, da psicolinguística, o material à disposição do professor de inglês encontra-se de modo geral preso a estratégias que privilegiam o ensino da gramática em detrimento da língua oral.

Sempre existiu um grande debate entre todos os professores de Inglês sobre a real importância da gramática no aprendizado de uma língua, e uma coisa é tida como essencial por todos: o aluno deve sempre ter, pelo menos, uma noção da gramática normativa.

Desprezado a rigidez formalística, o quanto de gramática deve-se enfatizar no aprendizado do inglês vai depender do objetivo que se pretende fazer da língua. Se o aprendizado objetivar uma viagem, então a gramática textual deve ser priorizada.

Contudo, se você está aprendendo Inglês para prestar alguma prova ou teste de proficiência, ou até mesmo fazer uma entrevista para emprego, aprender a gramática normativa é algo primordial.

Getulio Medeiros é professor de inglês há mais de 40 anos, tendo sido coordenador do PBF em Juazeiro-BA e Wizard em Petrolina-PE. Foi professor de "Língua Inglesa", "Cultura e Civilização dos Povos de Língua Inglesa" e "Fonética e Fonologia", na FFPP/UPE de Petrolina-PE. Residiu por mais de dois anos na cidade de Nova lorque, Estados Unidos.