Crônica – Meu amigo Flávio: Uma história de amor e paixão por Juazeiro

Eu o conheci em meados de 2009, trabalhando na Prefeitura de Juazeiro, no mesmo lugar que ele trabalhava. De cara, bateu aquela amizade que só a química dos afortunados consegue explicar.

Ele tomou a liberdade de, assim que adentrava o antigo Paço Municipal, usar a sua voz tonitruante para todos ouvirem que ele estava vindo para falar comigo. Então, um rebuliço era formado. Uma vez, ele me confidenciou: Pergunto só a você... Se você não souber, eu não pergunto a mais ninguém. E assim ele foi me conquistando.

Flávio era presença, daqueles que transformam encontro em compromisso, ideias em ação. A saudade que ficou dele tem o formato das suas palavras — diretas, generosas e sempre voltadas para o bem comum — e o som do seu riso quando falava de planos que pareciam impossíveis até que ele os desenhasse no ar. Era um munícipe que acreditava que Juazeiro merecia um futuro desenhado com coragem e técnica. Lutou por um Plano Diretor moderno, pensado para o povo; plano que começava na Lagoa de Calou e se espalhava como uma promessa por todos os bairros, sem renunciar à preservação do Centro Antigo, esse coração que guarda memórias e identidades. Era um homem de convicções: para ele, planejar era um ato de amor.

Quando adolescente — um dia ele me confidenciou — sonhava ser piloto de jato comercial. Imaginar-se cortando nuvens, vendo o mundo de cima, talvez explicasse a sua visão ampla das coisas. A vida, com sua pressa e seus compromissos, levou-o por outros caminhos; ele trocou a cabine de comando por gabinetes, reuniões e diversos níveis de empreendimento. E ainda assim, havia nos seus gestos algo daquele sonho: a vontade de levar Juazeiro mais alto, de abrir rotas novas para a cidade.

Uma vez, candidato a prefeito da cidade que tanto amava, foi por alguns centímetros que não alcançou a vitória. Essa quase vitória não o diminuiu; ao contrário, revelou a sua grandeza. Continuou trabalhando, sonhando e cobrando o melhor para Juazeiro como quem sabe que a política é também persistência, e que o amor por uma cidade não se mede por mandatos, mas por serviço.

Perder um amigo é aprender, de súbito, a medir o tempo em lembranças. Flávio entrou na vida de quem o conheceu com a firmeza de quem acredita que as coisas poderiam — e podem ser melhores, — e saiu deixando um rastro de projetos, conversas e um amor e uma paixão por Juazeiro que parecia maior do que ele próprio.

Nossa amizade iria se consolidar durante a Pandemia. Quando toda a cidade se fechava, nós abríamos caminhos, espaços, bares, lanchonetes e lojas de conveniências. E foi exatamente na JR Conveniência que nós nos encontrávamos para traçar o nosso rumo pela cidade, em busca de uma sopa, de um cachorro quente, ou mesmo de um mero pastel. Éramos simples mortais em meio à complexidade do momento, e nós não tínhamos ideia de onde tudo aquilo iria chegar.

Meu Amigo Flávio partiu em 2020, vítima da COVID-19, e deixou um legado de coragem, projetos e amizades que não se dissolvem com o tempo. Resta-nos lembrar dele não apenas pelo que foi, mas pelo que nos ensinou: a importância de sonhar com um plano que una preservação e desenvolvimento, de cuidar do Centro Antigo enquanto se pensa a cidade inteira, de começar por um lugar querido — a Lagoa de Calou — e estender esperança a cada esquina.

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.