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Acordou com o telefone afundado no travesseiro, como se um vizinho tivesse passado a noite ali e esquecido de ir embora.
Antes do café, antes do chuveiro, já havia deslizado o polegar por rostos, manchetes e anúncios que pareciam conhecê-lo melhor do que ele próprio.
Uma foto de aniversário ressurgiu num carrossel de memórias; um comentário de alguém que mal lembrava. Tudo ali, numa única tela, oferecia uma versão sua pronta para consumo — polida, etiquetada, previsível.
Saiu para a rua e o mundo real manteve seus cheiros e tropeços. Um vendedor de frutas chamou pelo nome do cliente que sempre comprava manga; uma criança correu atrás de um cachorro; o vento trouxe pó e promessa de chuva. No bolso, porém, a outra cidade — a cidade das plataformas — já havia decidido o que ele devia ver, sentir e lembrar. Era como se alguém tivesse alugado um quarto dentro da sua cabeça e o decorado com móveis escolhidos a partir dos cliques dos últimos meses.
A crise de identidade contemporânea talvez nasça aí: na divisão entre o que somos quando ninguém nos observa e o que nos tornamos quando o algoritmo observa. Não se trata apenas de privacidade, embora a privacidade esteja no centro. Trata-se de tempo, de
memória e de autoridade sobre si mesmo. Ao delegarmos à máquina a tarefa de lembrar, selecionar e sugerir, cedemos também à pequena tirania das preferências calculadas.
Há uma sedução discreta nesse processo. Receber uma recomendação certeira é como receber um elogio: confirma, conforta, reduz a ansiedade de escolher. Mas a repetição desse conforto cria um hábito que empobrece o repertório. O que antes exigia esforço
coletivo — conversas, cartas, fotografias amareladas — hoje é externalizado em nuvens que prometem segurança e acesso imediato. A memória, antes tecido social, corre o risco de virar arquivo etiquetado.
Nas redes sociais, somos atores e plateia ao mesmo tempo. Cada postagem é uma encenação, cada comentário um ajuste de tom. A máscara social sempre existiu, mas a escala e a permanência são novas. A plateia é invisível e vasta; o retorno é instantâneo; a
recompensa, quantificável. A pressão para performar corrói a espontaneidade e transforma a intimidade em mercadoria. A identidade fragmenta-se entre o que se é em privado e o que se vende em público.
O algoritmo, nesse teatro, atua como um diretor sem rosto. Não julga com palavras, mas com prioridades: o que aparece primeiro, o que é amplificado, o que é silenciado. A responsabilidade por essas escolhas é difusa — entre engenheiros, empresas, legisladores
e usuários. A pergunta ética que fica é pessoal e urgente: até que ponto queremos delegar a terceiros a curadoria do nosso mundo interior. Aceitar essa delegação é renunciar a uma parcela da autonomia que define a dignidade humana.
Não é preciso demonizar a tecnologia para reconhecer seus riscos. As plataformas conectam, informam e possibilitam solidariedades antes impensáveis. O problema surge quando a conveniência vira condição e a recomendação vira destino. A proposta ética,
então, não é rejeitar o novo, mas reconfigurá-lo: exigir transparência; cultivar hábitos de leitura crítica; reservar espaços de anonimato e esquecimento; ensinar as próximas gerações a distinguir entre reflexo e essência.
Ao final do dia, ele desligou o telefone por um tempo. Não foi um gesto heroico, apenas um gesto de cuidado. Sentou-se na varanda, olhou para um céu que não cabia em nenhuma tela e deixou que a memória voltasse a ser feita de cheiros e conversas, de pequenos erros e de risos que não precisavam de aprovação. Percebeu que a identidade é menos um arquivo e mais um rio, que muda, carrega sedimentos e apaga pegadas. A ética digital, se quiser ser verdadeira, deve aprender a proteger esse fluxo — não para congelá-lo em imagens perfeitas, mas para permitir que ele continue a fluir.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.



1 comentário
13 de Mar / 2026 às 16h43
Com uma imensidão de conhecimento e contrastando entre o mundo virtual e a sua vivência ao longo dos seus setenta anos bem vividos, o nosso Gegê é a pura essência de um pensamento crítico-reflexivo que nos faz despertar sobre um tema tão constante e tão atual que nos aprisiona a cada dia-a-dia. Beber no poço do conhecimento dessa celebridade é uma honra. Parabéns, amigo.