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Sempre me disseram que cada vida tem seus <... e se?>, sendo que uns refletem a realidade mais do que outros. O meu, por exemplo, aparece sempre que me vejo diante de um espelho — não desses de banheiro, mas dos invisíveis, aqueles que surgem quando a gente se compara com o que poderia ter sido. E, em momentos como esses é que me sinto como o coronel Frank Slade no filme “Perfume de Mulher”: um combatente que sabe exatamente onde errou, mas que continua marchando com a coluna ereta, como se a disciplina fosse sua última trincheira.
Passei boa parte da vida acreditando que ser “certinho” era uma espécie de seguro contra o caos. Regras de conduta, de convivência, de relacionamento, de como falar, como agir, como não incomodar ninguém. A timidez fazia o resto: eu me tornava um soldado silencioso, cumpridor de ordens que ninguém me deu, mas que eu mesmo redigi com rigor militar.
Fui mandado muito cedo ao Internato, onde convivi com padres holandeses, cuidadores da fé e da ética anglo-saxônica, com hora marcada para tudo desde ajudar a missa em latim às 6 h da manhã, todos os dias, à exaustiva vida de dedicação aos estudos da ciência e arte.
Por isso, criei muros e barreiras, ávido por conhecimento, e enquanto isso me acontecia, o mundo lá fora parecia funcionar em outra frequência. Gente que arriscava, que falava alto, que se jogava sem medo de errar. Gente que não pedia licença para existir. Eu observava tudo de longe, como quem assiste a um baile sem nunca pisar na pista — não por falta de vontade, mas por excesso de cautela.
E então chego ao presente, esse lugar onde moro, mas que às vezes me parece alugado. Um presente que poderia ser outro, talvez mais colorido, talvez mais leve, se eu tivesse desobedecido uma ou duas regras inventadas. Se eu tivesse dito mais “sim”, ou mais “não”. Se tivesse permitido que a vida me empurrasse um pouco, em vez de sempre manter os pés colados ao chão.
Não é que eu esteja infeliz — não é isso. É só que, de vez em quando, sinto falta do homem que eu não fui. Aquele que teria dançado, mesmo desajeitado. Que teria falado, mesmo tremendo. Que teria amado, mesmo sem saber se seria correspondido.
Mas aí lembro do coronel Slade. Ele também acreditava que o mundo tinha passado por ele. E, no entanto, descobriu — tarde, mas descobriu — que ainda havia tempo para um tango, mesmo sem enxergar o salão.
Talvez seja isso. Talvez ainda haja tempo para eu desafrouxar o nó da gravata, quebrar um ou dois protocolos, e permitir que a vida me surpreenda. Talvez o presente que poderia ter sido ainda esteja ali, dobrando a esquina, esperando apenas que eu dê o primeiro passo. E, quem sabe, pode ser que um dia eu dê.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.



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