Espaço do Leitor: DAS NOSSAS PERVERSÕES

Era uma tarde de sábado, há 18 anos, quando tomamos a decisão em família de plantar três árvores na Orla I de Juazeiro. Meu sogro, hoje falecido, ficou extremamente contente.

Ele havia presenciado, tempos atrás, a plantação dos "túneis" de arvores que ainda restam na cidade — embora muitos governos tenham assistido não apenas ao corte, mas à desconfiguração dos arvoredos, derrubando árvores e deixando apenas tocos para a posteridade.

Anos atrás, quando as árvores ainda eram pequenas, preocupamo-nos com a realização do Carnaval. Sabíamos que a passagem dos trios elétricos atrairia grandes multidões. De fato, durante o desfile, a massa acabou retirando as grades de proteção das plantas e as jogou ao chão. Assim que o trio passou, descemos, recolhemos as grades e as recolocamos no lugar.

Eis que, 18 anos depois, em meio aos preparativos municipais para o Carnaval e às incertezas sobre o percurso dos trios, resolveram podar essas árvores de forma indiscriminada. Observe-se que, inicialmente, podaram para a festa, mas deixaram plantas hospedeiras (ervas-de-passarinho) na árvore centenária. Outra craibeira  foi lascada e deixada ao relento, vulnerável à ação dos ventos e à sede insaciável de quem poda como se estivesse devorando um pedaço de carne.

O fato concreto é que prepostos do município, sem treinamento ou orientação adequada, lançaram suas garras contra as árvores. Praticamente destruíram seus galhos sob a alegação de que era preciso "abrir passagem para os trios", resultando na dilaceração de ramos que já haviam sido maltratados na primeira poda. E vejam vocês: atos praticados por agentes de uma gestão que nós apoiamos.

Frise-se que galhos dessas árvores, podados indecentemente, poderiam ter caído sobre transeuntes; alguns, inclusive, despencaram devido ao amadorismo daqueles que tinham a obrigação de zelar pelo patrimônio ambiental.

É assim: você passa 18 anos cuidando da vida e, num belo dia, surgem aqueles que não têm compromisso com ela para decepar o que foi plantado — e ainda ousam reclamar da população que não coloca o lixo no local devido. Meu sogro era dono de uma sabedoria incrível e tinha um "faro" aguçado para a leitura de certos políticos. Como afirmou Paul Watson (lendário defensor da vida marinha) em entrevista à jornalista Eliane Brum: "A solução nunca virá dos governos".

Edimario Alves Machado - Advogado – Pós-graduado em Direito Público