Crônica - RÉCORDE OU RECORDE: quem manda na língua?

A tentativa de proibir judicialmente a pronúncia “REcorde” — impondo à mídia apenas “reCORde” — não é apenas um capricho prosódico. É um gesto simbólico perigoso, porque toca em três pilares que sustentam qualquer comunidade linguística: a ciência, a lei e a cultura. E quando o Estado tenta legislar sobre aquilo que nasce espontaneamente da boca do povo, o resultado costuma ser desastroso.

A linguística, que estuda a língua como fenômeno vivo, não chancela esse tipo de intervenção. O direito, por sua vez, só tem competência para normatizar a escrita oficial — e mesmo isso já é um terreno delicado. E a cultura, que é o verdadeiro berço da língua, simplesmente ignora decretos quando eles tentam ditar como as pessoas devem falar.

O Ministério Público Federal em Minas Gerais decidiu enfrentar a TV Globo alegando que a emissora estaria “difundindo erro” ao usar a pronúncia proparoxítona. O argumento é que, por ser concessionária pública, a emissora deveria seguir a norma culta, sob pena de “lesão ao patrimônio cultural imaterial”. A meu ver, trata-se de uma leitura estreita do que é patrimônio cultural e, pior, de uma compreensão equivocada do que é língua.

A língua portuguesa nunca foi estática. Portugal sempre bebeu na França, e depois da Segunda Guerra Mundial passou a beber nos Estados Unidos. A própria palavra record já foi pronunciada à francesa, depois à inglesa, e agora o português brasileiro a molda ao seu modo. Fingir que existe uma pronúncia “pura” é desconhecer a história da língua — ou fingir que ela não existe.

A linguística moderna é clara: uso consagrado não é erro; é evolução. E o uso proparoxítono de recorde já se espalhou, sobretudo no esporte. O VOLP registra apenas a forma paroxítona? Sim. Mas o VOLP é um instrumento normativo, não um oráculo. Ele descreve a ortografia oficial, não a fala real dos brasileiros.

É aqui que minha formação filológica fala mais alto do que minha formação jurídica. A ideia de um juiz decidir como um povo deve pronunciar uma palavra me causa arrepios. Lembra demais a Itália de Mussolini, que tentou banir o pronome “Lei” por considerá-lo “afeminado” e “estrangeiro”. O fascismo acreditava que podia moldar a identidade nacional controlando a língua. Não conseguiu. Nenhum regime consegue.

A norma culta é orientativa, não policialesca. Ela serve para organizar, não para punir. A língua muda pelo uso, e a mídia — gostemos ou não — é hoje um dos motores dessa mudança. Eu mesmo me recuso a pedir “dois bólos numa padaria, como manda a norma culta. Peço “dois bôlos”, como fala o Brasil inteiro. E não me sinto menos culto por isso.

O debate sobre “recorde” me divide porque reconheço que há um argumento jurídico possível. Mas, como estudioso da língua, não posso aceitar que a prosódia seja objeto de tutela judicial. Línguas são organismos sociais, não repartições públicas. Toda vez que o Estado tenta impor hábitos linguísticos contra o uso espontâneo, fracassa — e ainda se expõe ao ridículo.

No fim das contas, a pergunta que fica é simples: "queremos uma língua viva ou uma língua tutelada?

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.