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A discriminação do nordestino no Sudeste e Sul brasileiros tem razão histórica, uma vez que, a partir de meados do século XIX, a imigração galega e dos nortistas portugueses para o Brasil intensificou-se, a ponto de provocar emulação nos “alfacinhas”(1) já radicados aqui. Dessa forma, o termo “galego”, aplicado tanto ao imigrante da região da Galícia (Espanha) quanto àquele procedente do norte de Portugal, muitas vezes assumia o significado pejorativo de “estrangeiro” em terras brasileiras.
Como os galegos que vinham para o Brasil trabalhavam normalmente em ofícios humildes, o vocábulo “galego” adquiriu conotação negativa, principalmente pela língua falada que, apesar de mais próxima do português do que o espanhol, apresentava evidentes diferenças conotativas e denotativas: “atopei-me con ela” (em português, “encontrei-me com ela”). Quem nunca “topou” numa pedra, quando criança?
O galego era, então, visto pelo lisboeta com certa reserva, e esse sentimento foi-se transmitindo de geração em geração. Fato é que, mesmo no Nordeste, ainda hoje é comum ouvir-se a expressão politicamente incorreta “aquele galego safado”.
Colonizado, a partir de certa época, por galegos e portugueses do norte, é natural que a língua falada no Norte do Brasil sofresse essa influência, principalmente na região além São Francisco, onde se encontram muitas expressões tipicamente galegas. “Vixe”(2), por exemplo, é corruptela do galego “Virxe María!”, com o sentido em português de “Virgem Maria!”. O nordestino não deve envergonhar-se de suas raízes étnicas e linguísticas e da consequente diferenciação semântica, pois, apesar de o idioma falado ser o português, este vem carregado de forte influência galega.
Na primeira vez que estive na cidade do Porto, no norte de Portugal, em 1974, constatei que as pessoas tinham o mesmo costume da região nordestina: continuar a conversação aos berros, afastando-se umas das outras. Nunca me senti tão em casa, e nunca vi tão claramente uma realidade transferida.
Por uma dessas perversidades do destino, acontece de haver influência negativa, traição cometida, às vezes, por ouvido não atento. Hoje, sabe-se que a aquisição da leitura e da escrita está diretamente ligada à análise da psicolinguística, ciência que estuda o desenvolvimento da linguagem do indivíduo de acordo com seu meio social, e que se preocupa com as distinções entre suas modalidades, justificando o sucesso ou o insucesso da aprendizagem da língua materna.
Afinal, ensinar a criança a ler e escrever na escola não deve ser apenas ensinar palavras e corrigir erros gramaticais, mas também descobrir a razão de existirem dialetos culturais, tradições, modos de pensar e agir diferentes, que as pessoas se apropriam para se entenderem e interagirem verbalmente.
Sabe-se que não é bom português reduzir as vogais “e” e “o” no meio das palavras: “botar” (fala-se “butar”) e “Recife” (fala-se “ricife”). Essa redução de vogal é característica do idioma português, não ocorrendo em nenhum outro idioma. Em espanhol, “siempre” é pronunciado “si-em-pre”, ao passo que em português “sempre” é pronunciado “sem-pri”. Essa redução final é aceita, mas não nas posições iniciais ou mediais.
Outras influências culturais, contudo, marcaram a língua portuguesa, mesmo porque Portugal, nos períodos medieval e moderno, dependia – e muito – da boa vontade de outros povos vizinhos, principalmente do pedante francês, que ditava moda na Europa Ocidental e sufocava o inglês, desde que o normando Guilherme, o Conquistador (também conhecido como o Bastardo), cruzou o canal da Mancha e tomou as ilhas Britânicas, na lembrada batalha de Hastings(3), tornando-se o primeiro rei da Inglaterra com sangue francês.
Assim, Portugal temia, com certa razão, depois de ter sido alçado à condição de reinado, voltar a ser mero condado hispânico. Isso, de fato, já acontecera antes, entre 1580 e 1640, quando morreu o cardeal Dom Henrique, que, a exemplo de seu predecessor, o casto embora belicoso Dom Sebastião, não deixara sucessor.
Dessa forma, gerou-se a cobiça do rei espanhol Filipe II, que, aproveitando-se da situação política e da pusilanimidade da burguesia mercantil portuguesa, conseguiu unir as coroas dos dois países sem ao menos precisar justificá-las com uma batalha decisiva como aquela acontecida ao sul da velha Álbion(4).
Por isso, os portugueses voltaram-se para a França, que os dominou culturalmente por séculos, inclusive transferindo essa dominação cultural para o Brasil até o final da 2ª Guerra Mundial, quando finalmente nos libertamos do galicismo para cairmos no anglicismo norte-americano.
É a partir daí que consagramos a pronúncia americanizada, com a mudança da sílaba tônica oxítona do francês, desprezando a tônica paroxítona do português e passando diretamente para a proparoxítona do inglês (às vezes, com duas sílabas tônicas na mesma palavra). Então, tivemos “Cosovo” (do correto “ko-ZO-vu”, para “KÔ-sso-vo”), “ebola” (do correto “e-BO-la”, para “É-bo-la”) e, pior ainda, a grafia “anthrax” (sem nenhuma justificativa plausível).
Outra cultura a nos influenciar foi a muçulmana, que perdurou por quase um milênio na Península Ibérica, inclusive na maneira de nos portarmos à mesa, comendo com o garfo na mão direita e a faca na esquerda. Mas isso é outra história que conta as artimanhas de Sherazade diante do rei Shariar.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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(1) Alfacinha: termo depreciativo referente aos nativos de Lisboa, Portugal;
(2) Às vezes, “Ixe”;
(3) A Batalha de Hastings ocorreu em 14 de outubro de 1066, sendo um dos confrontos mais decisivos da Idade Média, Vencida por Guilherme, Duque da Normandia, ele foi coroado rei da Inglaterra com o nome de Guilherme I, em 25 de dezembro de 1066, e ficou conhecido historicamente por ter liderado a Conquista Normanda da Inglaterra e estabelecido uma nova aristocracia normanda (ou francesa) no país.
(4) Álbion, outro nome da Inglaterra.



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