Carta Aberta aos Dirigentes do Partido dos Trabalhadores, às Autoridades da Bahia e às Instituições do Estado Brasileiro

Eu, Célia Regina Carvalho, militante histórica do Partido dos Trabalhadores, ex-vice-presidente estadual do PT na Bahia, servidora pública por mais de 23 anos, venho a público dirigir-me aos dirigentes nacionais, estaduais e municipais do PT; ao governador da Bahia; a deputadas e deputados estaduais e federais; a ministras e ministros de Estado; ao vice-prefeito e vereador de Juazeiro; aos vereadores de Salvador; e às instituições do sistema de Justiça.

Esta carta tem um objetivo claro: registrar publicamente a responsabilidade política e institucional pela omissão diante das ameaças que sofro, em razão da minha atuação no combate à grilagem de terras devolutas do Estado da Bahia e à indústria latifundiária que segue avançando, especialmente na região de Juazeiro.

No exercício das funções públicas que me foram confiadas, cumpri rigorosamente meu dever constitucional, colaborando com ações que possibilitaram a identificação e o enfrentamento de esquemas criminosos de apropriação ilegal de terras públicas. Terras essas que deveriam servir ao povo — para escolas, creches, hospitais, moradia e políticas sociais — e não ao enriquecimento de poucos.

Desde então, minha vida passou a ser marcada por ameaças, perseguições e riscos concretos. Encontro-me hoje fora da Bahia, sob proteção institucional de outro estado brasileiro, enquanto o Governo da Bahia e instâncias do Partido dos Trabalhadores se mantêm omissos, apesar de plenamente informados sobre a gravidade da situação. O Ministério Público Federal e o Ministério Público da Bahia também têm conhecimento dos fatos.

É inadmissível que, em um país governado pelo PT, uma mulher que ajudou a construir o partido por mais de duas décadas, que sempre foi leal, ética e disciplinada, tenha como destino o medo, o deslocamento forçado e a possibilidade de exílio para sobreviver. Entrei e saí da política com as mãos limpas. Nunca transformei cargo em privilégio, nunca levei uma caneta para casa, nunca negociei princípios.

Enquanto isso, a indústria do latifúndio e da grilagem cresce, se fortalece e se naturaliza na Bahia. Denunciar esse modelo de concentração violenta da terra não pode ser sentença de morte, silêncio ou abandono.

Dirijo-me, de forma direta, também ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva:
é impossível ignorar que não houve, até aqui, uma ação efetiva do Governo Federal para enfrentar o latifúndio na Bahia nem para garantir proteção a uma militante histórica do próprio partido, ameaçada por cumprir seu dever público.

Esta carta é um registro político e histórico. Caso algo venha a me acontecer, não poderá ser alegado desconhecimento. A omissão também produz vítimas. O silêncio institucional também mata.

Não escrevo por rancor. Escrevo por responsabilidade com a verdade, com minha história e com a democracia.

Proteger quem denuncia crimes contra o patrimônio público é dever do Estado e compromisso ético de qualquer partido que se pretenda popular e democrático.

Seguirei viva, denunciando e resistindo.
Mas a partir de agora, a responsabilidade é coletiva e pública.

Célia Regina Carvalho
Dezembro de 2025