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A Luz é, desde os primórdios, um símbolo universal de conhecimento, revelação e transcendência. Contudo, quando essa Luz se qualifica como Verdadeira, ela deixa de ser apenas metáfora e se torna experiência de sublimação, um despertar interior que transcende o comum. No meu caso particular, tive o privilégio de contemplar essa Verdadeira Luz no Oriente de Cabedelo, cidade portuária da Paraíba.
Fui conduzido até lá pelas mãos de um amigo que, mais tarde, descobri ser, na realidade, um Irmão — alguém que já caminhava pelas sendas da Ordem e que me revelou, com simplicidade e profundidade, o valor desse encontro.
Não se trata de um privilégio acessível a todos. A Maçonaria, erguida sobre firmes alicerces filosóficos, revela contornos que ultrapassam as fronteiras do conhecimento comum. Seus limites permanecem indefinidos e, mesmo diante dos mais rigorosos métodos investigativos — sejam eles científicos ou intelectuais — continua a se apresentar como um desafio constante para aqueles que se dedicam a compreendê-la.
A cada passo, o Iniciado é conduzido por sendas de aperfeiçoamento, que se abrem diante dele como convites à reflexão e ao crescimento interior. Esses caminhos apontam sempre para o grande objetivo da Ordem: a busca incessante da Verdade. Entretanto, nem todos conseguem prosseguir nessa jornada. Alguns, por infelicidade ou por descaso espiritual, acabam ficando à margem, limitando-se a observar apenas o que os olhos alcançam e descartando aquilo que o coração não sente. Perdem, assim, a oportunidade de penetrar no mistério e de experimentar a plenitude que a Verdadeira Luz pode oferecer.
É nesse ponto que o caráter filosófico da Maçonaria revela, simultaneamente, sua riqueza e sua dificuldade. Ele ergue barreiras à percepção, à compreensão e à tão desejada comprovação científica, exigindo do Iniciado uma interiorização profunda de seus fundamentos. Essa exigência, por vezes, limita o aprendizado essencial e retarda a assimilação plena dos princípios que, em última instância, poderiam gerar transformações comportamentais no seio da Ordem.
A Irmandade, composta por homens que carregam consigo variáveis inevitáveis — diferenças de idade, peculiaridades psicossociais, diversidade de costumes, influências religiosas, desigualdades socioeconômicas, heranças culturais, ideologias políticas, ambições veladas e interesses pessoais — reflete, em sua pluralidade, tanto os desafios quanto a grandeza da Obra.
Apesar das dificuldades, a base conceitual da Maçonaria — resultado do somatório de seus princípios e fundamentos — desperta a curiosidade intelectual e favorece a livre produção de pensamentos. Essa liberdade abre espaço para múltiplas interpretações, que enriquecem continuamente a Instituição e a mantêm viva em sua diversidade de visões.
Diante de tamanha complexidade, torna-se indispensável a existência de uma ponte entre a Filosofia e o pensamento humano: a Linguagem Simbólica. É por meio dela que se torna possível pesquisar, criar ideias e formular hipóteses, sem o risco de aprisionamento pelo dogma ou pelo preconceito. A simbologia, com sua força natural, protege o Iniciado e lhe oferece um campo fértil para a imaginação, a reflexão e o verdadeiro exercício da liberdade intelectual.
O símbolo, por sua essência, estabelece uma relação abstrata com o objeto que representa. Ele cria uma distância entre o percebido e o real, permitindo ao homem reinterpretar o mundo segundo sua própria visão interior. Essa transfiguração abre espaço para respostas criativas, interpretações múltiplas e mecanismos de integração ao meio, tornando-se instrumento de adaptação e de revelação.
A Maçonaria, ao assumir plenamente a comunicação simbólica, legitima seu uso por razões fundamentais, resguardando-a dos olhares profanos, mantendo a tradição e permitindo adaptações prudentes, distinguindo-a da ciência e conduzindo o iniciado a um engajamento progressivo rumo ao desconhecido, defendendo os seus valores éticos, por serem eles os mais visados e, ao mesmo tempo, os mais preciosos, e a manutenção de seu caráter sigiloso bem longe de olhares e ouvidos curiosos.
Os símbolos, sejam intencionais — concebidos deliberadamente para cumprir um propósito definido, como bandeiras, hinos, logotipos ou parábolas — ou intuitivos, que brotam espontaneamente do corpo social em forma de metáforas, críticas ou poesia, sempre cumprem sua missão essencial: apontar para o Real ou para o Ideal. Ainda que velados pela complexidade da realidade, eles oferecem ao iniciado uma chave de leitura capaz de revelar sentidos ocultos, sugerindo verdades profundas que não se deixam apreender pela razão imediata.
Em última instância, a Maçonaria sustenta uma posição filosófica que reconhece a existência de um mundo ideal oculto por trás das aparências simbólicas. Interpretar o simbolismo torna-se, assim, um caminho privilegiado para a aproximação desse mundo perfeito — mais autêntico em sua “irrealidade” do que o imediato que nos envolve. Essa postura, inevitavelmente, carrega em si um traço de magia, pois revela que o invisível pode ser mais verdadeiro do que aquilo que se mostra aos olhos.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.



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