CRÔNICA - GENOCÍDIO EM CARTAGO: RELEITURA DA DESTRUIÇÃO DE UMA CIDADE ESTADO

Catão, o Velho, político e orador romano conhecido por seu conservadorismo e rigidez moral, viveu numa época em que Roma ainda era uma república em expansão. Após visitar Cartago, impressionou-se — e, segundo relatos, até se incomodou — com a prosperidade daquela cidade-estado fenícia, mesmo após as derrotas sofridas nas primeiras Guerras Púnicas.

Desde então, passou a encerrar seus discursos no Senado, qualquer que fosse o tema, com a célebre frase: “ Ceterum censeo Carthaginem esse delendam ” (“Além disso, penso que Cartago deve ser destruída”), posteriormente abreviada para “ Delenda est Carthago ”.

Quando Roma ainda dava seus primeiros passos como potência, Cartago já florescia. Fundada em 814 AEC, segundo a tradição, por Dido (também chamada Elissa), filha do rei de Tiro, Belus, e traída por seu irmão Pigmalião, a cidade tornou-se um centro mercantil e marítimo de enorme influência. Dido é lembrada também na literatura latina: na Eneida de Virgílio, ela acolhe Eneias, herói troiano em busca de uma nova pátria após a queda de Troia. A hospitalidade transforma-se em romance trágico, eternizado não apenas por Virgílio, mas também por poetas posteriores, como Bocage, que cantou em versos a intensidade desse mito.

A prosperidade cartaginesa logo se espalhou pelo Mediterrâneo ocidental. De colônia fenícia, Cartago tornou-se potência marítima e mercantil, estabelecendo redes comerciais e fundando colônias em regiões estratégicas como Sicília, Sardenha, Córsega e Cartagena, na atual Espanha. Essas bases garantiram domínio sobre vastas áreas do comércio e da política regional.
Roma, essencialmente terrestre e sem tradição naval, não ousava enfrentar Cartago no mar. 

Os cartagineses dominavam com seus poderosos navios de guerra, sobretudo o quinquerreme, embarcação de cinco fileiras de remos, rápida, estável e capaz de transportar tropas. O equilíbrio, porém, mudou quando os romanos capturaram intacto um desses navios e, por meio da engenharia reversa, construíram centenas de cópias em pouco tempo. Acrescentaram ainda o corvus, uma ponte móvel que permitia transformar batalhas navais em combates corpo a corpo, onde a infantaria romana era superior.

Esse episódio lembra um caso moderno de engenharia reversa aplicado à aviação militar. Em 1966, durante a Guerra Fria, um piloto iraquiano desertou levando para Israel um caça soviético MiG 21. O avião foi estudado em detalhe por especialistas israelenses e norte-americanos, revelando pontos fracos e capacidades da aeronave. As informações obtidas foram decisivas para treinar pilotos e garantir vitórias aéreas posteriores, como na Guerra dos Seis Dias (1967) e na Guerra do Yom Kippur (1973). Como disse Geraldo Vandré: “ Quem sabe faz a hora, não espera acontecer .”

Após a captura do quinquerreme e o uso da engenharia reversa, Roma conseguiu enfrentar Cartago em seu próprio terreno: o mar. A partir daí, iniciou-se uma sequência de confrontos que ficaram conhecidos como Guerras Púnicas — nome derivado do termo latino punici, usado para designar os cartagineses de origem fenícia (phoinikes em grego). Foram três guerras, culminando na Terceira Guerra Púnica (149–146 AEC), marcada por tensões políticas e econômicas que levaram ao cerco prolongado e à destruição completa de Cartago. 
Grande parte da população foi morta ou escravizada, consolidando a hegemonia romana no Mediterrâneo ocidental e abrindo caminho para novas conquistas, como a do Egito Ptolemaico.

Os relatos históricos — antigos e modernos — mostram como é difícil a convivência pacífica entre diferentes povos, etnias e convicções políticas, agravada por disputas econômicas e geopolíticas. Nenhum conflito, nenhuma guerra, nenhum extermínio de massa, nenhum genocídio pode ser considerado natural ou aceitável. O ser humano deveria aprender a viver em harmonia e amor, como ensinaram os verdadeiros Mestres da Ordem Real.

A paz é como uma aurora que se levanta sobre os povos, trazendo consigo o silêncio fértil após o fim das batalhas. Ela acalma mares e corações, devolve ao mundo a serenidade que a guerra rouba. A concórdia, sua irmã inseparável, estende mãos onde antes havia muralhas, transformando o ferro em arado e o ódio em memória que já não fere.

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.