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Os essênios faziam parte de uma comunidade judaica apartada, com prática de vida marcada pela renúncia aos prazeres materiais e pela busca de autodisciplina espiritual ou moral. Eram reconhecidos não só por seu fervor religioso, mas principalmente pela busca de isolamento, assim como fazem modernamente a comunidade religiosa “amish”.
Essa comunidade ascética floresceu por volta do séc. II a.C., como resposta às tensões religiosas e políticas da Judeia, lembrando que a região viria a ser dominada pelos romanos em 63 a.C., quando o general Pompeu conquistou Jerusalém e submeteu o território ao domínio de Roma.
Como regra de vida, os essênios defendiam uma espécie de “comunismo primitivo”, onde todos os bens eram coletivos e a vida regulada por regras estritas. Tão estritas que alguns grupos excluíam o convívio com mulheres. Mantendo uma vida celibatária e dedicada exclusivamente ao estudo da Torá, ou seja, os cinco primeiros livros da Bíblia, considerados fundamentais tanto no judaísmo quanto no cristianismo que então se formava.
Os essênios foram esquecidos durante quase dois milênios, tendo sido revistos após a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, em 1947, que revelara textos associados às suas práticas e crenças. À época de sua existência, sua ênfase em pureza ritual e expectativa apocalíptica os colocou em contraste com outros grupos judaicos, a exemplo dos fariseus e saduceus.
Os fariseus eram vistos como hipócritas por enfatizarem rituais externos em detrimento da transformação interior, sempre demonstrando falsa erudição e falsa piedade, enquanto os saduceus eram membros da aristocracia hierosolimita, que detinham grande poder político e religioso, controlavam o Templo de Jerusalém e frequentemente colaborava com as forças de ocupação romanas.
Como grupo marginal, os essênios não conseguiam influenciar diretamente o modus vivendi dos judeus sob o jugo romano, mas deixou como herança textos e práticas que ajudam hoje a entender melhor o judaísmo do período do Segundo Templo, observando que o Primeiro Templo de Jerusalém, também chamado Templo de Salomão, fora destruído em 587 a.C. pelo rei Nabucodonosor II da Babilônia, durante o cerco de Jerusalém.
É importante frisar que os essênios reagiram à ocupação romana da Judeia com isolamento, principalmente em Qumran, na margem noroeste do Mar Morto, cerca de 22 km a leste de Jerusalém, uma região ária e de difícil cultivo. Em vez de pegar em armas, eles reforçaram práticas de pureza ritual, jejuns e estudo dos textos sagrados. Eles interpretavam a dominação romana como parte de um plano divino, acreditando que o fim dos tempos traria a vitória dos “Filhos da Luz” contra os “Filhos das Trevas” — uma metáfora que incluía os romanos e seus aliados.
No período de 66-73 d.C., durante a Primeira Guerra Judaico-Romana, os conquistadores destruíram os assentamentos essênios, evento marcou o desaparecimento da comunidade como grupo organizado, embora seus textos — os Manuscritos do Mar Morto — tenham sobrevivido escondidos em cavernas e redescobertos em 1947, por um jovem pastor beduíno que procurava uma cabra perdida nas cavernas próximas ao assentamento essênio.
A doutrina essênia marginalizada à época da conquista romana, esquecida por quase dois mil anos e redescoberta no final da metade do século passado tem demonstrado como eles podem ter influenciado os ensinamentos de Jesus Cristo por meio de práticas de vida comunitária, pureza ritual, expectativa messiânica e ênfase na caridade.
A história precisa ser revista para termos uma ideia do que realmente somos no mundo espiritual, sem engessamento dogmático. Afinal, hoje discute-se o papel dos essênios no comportamento de Jesus Cristo. Uma coisa é tida em comum: pureza e disciplina espiritual. Os essênios valorizavam banhos rituais, jejuns e regras severas de conduta. Jesus também enfatizou a pureza interior, mas reinterpretou-a, deslocando o foco da ritualidade externa para a transformação do coração.
Enfrentando a marginalização e buscando inserir Jesus no contexto essênio, deparamo-nos com a dificuldade de estabelecer paralelos. Afinal, a influência dos essênios sobre Jesus é mais contextual do que direta. Ambos nasceram da mesma matriz do judaísmo do Segundo Templo, compartilhando preocupações com pureza, justiça e esperança messiânica. No entanto, Jesus rompeu com o exclusivismo e o rigor sectário, propondo uma mensagem universal de amor e salvação.
Concluímos, nesse caso, que os essênios ajudaram a preparar o terreno cultural e religioso no qual o cristianismo floresceu, mas a originalidade de Jesus está em sua capacidade de transformar práticas sectárias em princípios universais.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.



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