Cada morte violenta no país custa, em média, R$ 1 milhão aos cofres públicos

A escalada da violência no Rio de Janeiro e em outras regiões do país vai além das preocupações sociais e políticas, impondo ao Brasil um custo econômico bilionário.

O impacto da criminalidade vai muito além dos gastos diretos com segurança pública ou dos investimentos privados em proteção. Ele também engloba a riqueza que deixa de ser gerada, a produção interrompida e a arrecadação perdida, comprometendo o desempenho da economia como um todo.

Segundo o Atlas da Violência 2025, elaborado anualmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), os custos diretos e indiretos da violência somam cerca de 11% do Produto Interno Bruto (PIB) — o equivalente a mais de R$ 1 trilhão por ano.

Em estimativas detalhadas do próprio Ipea, cada morte violenta custa, em média, R$ 1 milhão aos cofres públicos. O cálculo leva em conta despesas com saúde, previdência, segurança, processos judiciais e perda de produtividade.

O avanço da criminalidade afeta desde o orçamento público até a produtividade das empresas, reduz investimentos, inibe o turismo e corrói a confiança de consumidores e investidores. Considerando apenas os homicídios registrados, os gastos anuais superam R$ 46 bilhões, um valor que expõe o peso econômico do que se perde em vidas humanas e oportunidades.

De acordo com o pesquisador Daniel Cerqueira, responsável pelo levantamento, são bilhões de reais perdidos em produção, arrecadação e bem-estar social. "Os custos da violência vão muito além das despesas diretas, como gastos com segurança ou perda de patrimônio. A maior parte é composta por custos intangíveis, ligados à perda de vidas e à produtividade", explica em entrevista ao Correio. "A vida não tem preço, mas, do ponto de vista econômico, quando há muita violência, há risco de mortes prematuras, e isso gera um custo para toda a sociedade."

O cálculo é feito a partir de dados de homicídios combinados com informações sobre renda da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad). "A partir desses dados, estimamos que, se os homicídios acabassem, seria como se o PIB do Brasil aumentasse 2,5% ao ano. É o tamanho do prejuízo que a violência impõe ao país", afirma.

Além dos homicídios, Cerqueira destaca o impacto do proibicionismo das drogas, que sozinho representa cerca de 0,77% do PIB, o equivalente a R$ 60 bilhões por ano. "Esse custo decorre de mortes e conflitos associados à disputa entre facções pelo mercado ilegal e à guerra entre criminosos e forças policiais. No Rio de Janeiro, estimamos que esse impacto chegue a cerca de R$ 8 bilhões anuais."

O economista ressalta que os efeitos da violência vão muito além das perdas imediatas. "No curto prazo, há perda de produtividade porque o comércio fecha, as pessoas não conseguem trabalhar e o transporte é interrompido. No longo prazo, há impactos sobre a educação e o desenvolvimento individual", afirma.

Ele cita o exemplo de crianças que vivem em comunidades marcadas por tiroteios constantes. "Essas crianças perdem dias de aula, os professores pedem transferência, e o vínculo entre escola e aluno se rompe. Isso compromete o aprendizado e, consequentemente, a produtividade futura. O futuro de muitos jovens é comprometido desde a primeira infância."

Correio Braziliense Foto Agencia Brasil