
O fogo está dando uma trégua para os biomas brasileiros em 2025. Levantamento realizado por ((o))eco nos dados de queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para os oito primeiros meses do ano mostra queda em cinco das seis formações vegetais brasileiras, com exceção da Caatinga.
A Caatinga foi o único bioma que registrou aumento no número de focos de calor, em relação à média para os oito primeiros meses de 2025. E essa elevação foi bastante expressiva: em 2025, o bioma registrou 4.064 focos no período, enquanto a média era de 2.518, o que representa aumento de 61% no número de focos.
As queimadas na Caatinga estão historicamente ligadas à expansão da agricultura na região e, mais recentemente, à antecipação do período de estiagem intensa, fenômeno ligado às mudanças climáticas.
As perda de florestas está no topo da lista de ameaças para os macacos brasileiros. Na Caatinga, um dos biomas menos protegidos do país, a expansão de pastagens e plantações já ocupa mais da metade do lar do guigó-da-caatinga. O alerta foi dado por pesquisadores que mapearam como a destruição das matas sertanejas pode comprometer a sobrevivência do macaco, que só pode ser encontrado nos estados da Bahia e Sergipe, confinado em florestas cada vez menores.
De acordo com a pesquisa, pelo menos 54,14% do habitat do guigó-da-caatinga (Callicebus barbarabrownae) já foi desmatado, a maior parte para virar pasto (42%).
Reportagem do site O Eco Jornalismo Ambiental, Duda Menegassi Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, destaca estudo, que reuniu pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade Federal de Sergipe (UFS), utilizou a base de dados do MapBiomas para entender as mudanças no uso e cobertura da terra dentro da distribuição do guigó entre 1985 e 2021, e cruzou esses dados com registros de ocorrência do macaco.
Nesse intervalo de 37 anos, a cobertura das pastagens saltou de 30% para 42% na área de distribuição do guigó. Enquanto isso, as matas secas que servem de habitat para o macaco foram reduzidas em 17%. “Atualmente, a maior parte do habitat do guigó-da-caatinga é pasto”, resume a bióloga Bianca Guerreiro, doutoranda da UFRN, que liderou a pesquisa.
“Essas tendências destacam uma redução extrema na disponibilidade de habitat para esse primata dependente da floresta, com possíveis implicações para a conectividade entre fragmentos e a persistência da espécie a longo prazo”, alertam os pesquisadores no artigo, publicado no periódico Regional Environmental Change no final de setembro.
O trabalho alerta ainda que muitos dos fragmentos florestais que restam estão isolados por pastagens, no que é conhecido como “mata de fundo de pasto”, onde o gado circula e entra dentro da mata, pisoteando plantas em estágio inicial, compactando o solo e acelerando a degradação ambiental dessa ilha de floresta. A presença dos bois pode favorecer ainda a transmissão de parasitas e patógenos para os animais silvestres.
Ironicamente, durante a pesquisa, os cientistas descobriram uma maior densidade de guigós justamente nessas matas cercadas de pasto. Isso não significa, porém, que a espécie está prosperando por ali. Muito pelo contrário, provavelmente apenas ilustra como esses macacos – dependentes de florestas – foram encurralados pelo avanço do desmatamento e não têm para onde ir. Confinados em um único, isolado e frequentemente pequeno fragmento de mata, o destino desses guigós é quase certamente a extinção.
É o que a ciência chama de “débito de extinção”. Por exemplo, se um desmatamento ocorre hoje, e a floresta é reduzida a uma fração da sua cobertura original, os macacos ainda podem sobreviver com recursos limitados, dando a falsa impressão de que está tudo bem, quando na verdade é apenas questão de tempo até a “dívida” ser cobrada e a espécie desaparecer por completo.
O intervalo analisado no estudo, entre 1985 e 2021, corresponde ao tempo de vida de quase cinco gerações de guigós-da-caatinga, que é de 8 anos. “Os efeitos da perda de habitat sobre o número ou a ocorrência da população podem ser revelados anos mais tarde, uma vez que os macacos apresentam normalmente uma esperança de vida e uma duração de geração relativamente longas, bem como baixas taxas de reprodução”, explicam no artigo.
“Durante este período de defasagem, a população pode sofrer um declínio devido a vários fatores, tais como a redução das oportunidades de reprodução e o aumento da competição por recursos”, completam os pesquisadores.
Além disso, os macacos presos em fragmentos estão completamente vulneráveis a distúrbios como incêndios e doenças.
O artigo – a primeira investigação temporal sobre mudanças no habitat do guigó-da-caatinga – sugere que devem ser feitos estudos adicionais sobre a qualidade desses fragmentos e sua conectividade com outros remanescentes para compreender melhor as chances de sobrevivência do primata.
Uma coisa é certa, porém, ações de restauração ecológica, que recuperem a cobertura de florestas e aumente a conectividade entre os fragmentos, são fundamentais para o futuro do guigó. Assim como a promoção de práticas mais sustentáveis na agropecuária.
O guigó é a única espécie de primata endêmica da Caatinga, ou seja, que pode ser encontrada exclusivamente no bioma. E a sua história repete a da Caatinga, que já perdeu cerca de metade de sua cobertura original e muito do que ainda está de pé sofre com a degradação ambiental devido a atividades humanas. Um cenário agravado pelo baixo número de áreas protegidas que resguardam o que sobrevive da Caatinga e não cobrem nem 10% do bioma.
De acordo com a mais recente avaliação nacional do ICMBio, o guigó-da-caatinga (Callicebus barbarabrownae) é classificado como Em Perigo de extinção. Na Lista Vermelha Internacional (Red List) da IUCN, o guigó é classificado como Criticamente Em Perigo.
A espécie foi inclusive listada entre os 25 primatas mais ameaçados do mundo para o biênio 2023-2025. E as principais ameaças são justamente a perda, degradação e fragmentação de habitat.



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