Curaçá: Nas redes sociais, criadouro de ararinhas-azuis escancara crise com ICMBio

Conforme a REDEGN destacou qu as Ararinhas-azuis poderão ser retiradas da natureza em Curaçá para conter vírus, a polêmica continua e ganha destaque na imprensa nacional.

Através das redes sociais, criadouro de ararinhas-azuis escancara crise com ICMBio e diz que aves foram infectadas no Brasil.

O site Conexão Planeta, reportagem de Suzana Camargo diz que depois de mais de um mês de silêncio total sobre o surto de circovírus que atingiu ararinhas-azuis no Refúgio de Vida Silvestre situado no município de Curaçá, na Bahia, a Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP), criadouro particular com sede na Alemanha, responsável pelo programa de reintrodução da espécie no Brasil, decidiu se pronunciar através de suas redes sociais. E as postagens escancaram a grave crise entre a associação e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão que autoriza o projeto de soltura das aves.

Com exclusividade a REDEGN fez contato com o doutor Cromwell Purchase, coordenador de projetos de campo, responsável pela Fazenda Ararinha Azul e de todas as decisões relativas ao manejo das aves, nutrição e população de Ararinha na fazenda, além de gerenciar todos os detalhes da soltura, a escolha das aves para soltura e o treinamento das aves para soltura, reafirmou que "Capturar as ararinhas não resolveria o problema do circovírus e ainda traria riscos desnecessários". 

A REDEGN obteve o aviso publicado com o objetivo de fazer os interessados  "entender o vírus e os impactos da captura de todas as aves. Confira AQUI.

De acordo com Conexão Planeta foi só através do comunicado divulgado pelo ICMBio no final de julho que veio a público a notícia de que um filhote de ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), nascido em vida livre, e outros indivíduos do viveiro de aclimatação tinham testado positivo para a Doença do Bico e das Penas dos Psitacídeos (PBFD). A descoberta do circovírus entre as aves tinha acontecido meses antes e autoridades ambientais locais tinham sido informadas.

Por causa da gravidade da doença, o ICMBio recomendou a retirada das demais ararinhas da natureza – onze no total. “A intenção maior do instituto é a proteção da biodiversidade brasileira, incluindo a própria ararinha-azul”, afirmou o instituto em nota na época. “O circovírus é um patógeno potencialmente grave e letal. Não se sabe como as espécies brasileiras reagirão ao vírus, uma vez que, até esta ocorrência, não existia registro da doença em animais de vida livre no Brasil. É uma questão grave, uma vez que ainda não há tratamento para a Doença do Bico e das Penas causada pelo circovírus de psitacídeos.”

A medida também era corroborada por especialistas em conservação. “É primordial que se recolham todas as aves soltas, imediatamente, para testá-las segundo os mais altos padrões internacionais”, enfatizou Luís Fábio Silveira, curador da seção de Aves do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). “Ao mesmo tempo, deve-se iniciar um programa de monitoramento das aves silvestres para verificar se o vírus “escapou” das ararinhas-azuis e passou para as aves nativas de vida livre.”

No sábado, 06 setembro, finalmente a ACTP decidiu divulgar um comunicado oficial ao publicar duas postagens em sua página do Facebook. Uma delas é um vídeo com várias aves voando, com a legenda, em inglês: “Possivelmente um dos últimos vídeos de ararinhas-azuis voando na natureza. Não deixem o sol se pôr para as araras-azuis…. Enquanto o governo brasileiro (ICMBio) pressiona e ameaça extinguir a ararinha-azul na natureza novamente, todas as 11 aves selvagens estão vivas e bem após três anos soltas, e nenhuma delas morreu nos últimos 16 meses, demonstrando uma incrível adaptação à vida selvagem e aos predadores.”

Em um segundo texto, a Association for the Conservation of Threatened Parrots alega que há “questões políticas” ameaçando o programa de reintrodução da ararinha-azul e rebate as recomendações feitas pelo ICMBio, que teria dado “proporções exageradas” à situação.

De acordo com o criadouro, o circovírus foi detectado após um filhote de vida livre ter apresentado problemas para voar e coloração atípica nas penas. Capturado, ele testou positivo para o vírus da PBFD. Inicialmente exames das 20 ararinhas do recinto de aclimatação/soltura, que fica na parte externa do centro em Curaçá, deram negativo, mas como há muito casos de falso positivo, uma nova bateria de testes foi realizada posteriormente, que indicou seis aves infectadas.

“As autoridades brasileiras aproveitaram a oportunidade que o teste de vírus lhes deu para tentar atribuir culpa aos animais. Nós optamos por aguardar todas as evidências e fatos para responder. As autoridades cancelaram imediatamente, com razão, a soltura planejada de novas aves na natureza. Imediatamente colocamos todas as aves positivas do aviário de soltura em quarentena e adicionamos uma lista extra de medidas de biossegurança. As autoridades exigiram que todas as aves em todos os aviários fossem testadas, e é claro que obedecemos e até nos voluntariamos para fazer coletas duplas de amostras para enviar a dois laboratórios independentes”, diz a ACTP.

Posteriormente outras oito ararinhas do recinto de soltura também testaram positivo, entretanto, o criadouro afirma que um dos indivíduos que positivou anteriormente, teria negativado tempos depois.

A ACTP tenta convencer agora as autoridades brasileiras sobre uma hipótese levantada por alguns especialistas estrangeiros de que espécies de aves do chamado Novo Mundo, como o Brasil, seriam mais resilientes ao vírus. “Sabe-se que os papagaios neotropicais geralmente reagem bem ao circovírus em comparação com os do Velho Mundo, na Australásia/África/Ásia. Isso também é o que todos os nossos testes nos mostraram. Como as aves anteriormente positivas estão se tornando negativas, mostrando que o sistema imunológico das aves é capaz de combater o vírus. Nenhuma ave morreu do vírus e, além do filhote selvagem perder algumas penas e agora voar bem novamente, o único outro indicador possível visto é algumas penas brancas espalhadas pelo corpo de alguns indivíduos. Os pais do filhote selvagem, que foram o único contato que o filhote selvagem teve enquanto estava no ninho, não apresentam sintomas. Posteriormente, nove das 11 aves selvagens tiveram amostras testadas e todas voltaram negativas para o circovírus, incluindo todas as aves selvagens com penas brancas.”

Outro ponto levantado pela Association for the Conservation of Threatened Parrots é sobre a origem do vírus que contaminou as ararinhas-azuis em Curaçá, já que houve insinuações de que, talvez, algumas das 41 aves que chegaram ao Brasil, vindas da Alemanha, em janeiro de 2025, estivessem infectadas. O circovírus é comum em espécies do Velho Mundo (Europa, Ásia e África).

Especialistas ouvidos pelo Conexão Planeta e o próprio ICMBio foram unânimes ao afirmar que nunca antes havia sido registrado um caso de circovírus em vida livre no Brasil – em aves de cativeiro, sim, mas não na natureza. A ACTP refuta essa possibilidade. Diz que foi realizado um sequenciamento do vírus encontrado no filhote selvagem que indicou a correspondência mais próxima com uma arara-azul-grande do Brasil e que não houve nenhuma compatibilidade com cepas encontradas na Europa.

“Conversamos com veterinários em uma cidade próxima, a cerca de 70 km em linha reta [de Curaçá], onde clínicas veterinárias já receberam aves em cativeiro com o vírus. No entanto, naquela cidade, também existem bandos selvagens de periquitos-de-colar-indianos, conhecidos por serem altamente suscetíveis ao vírus”, acusa a associação.

Em sua postagem, a ACTP elenca então uma série de medidas impostas pelo ICMBio, as quais considera descabíveis, “inúteis, antiéticas e irresponsáveis”, como a realização de testes a cada 15 dias e após dois resultados positivos, as aves terem que ser sacrificadas (o que é comumente recomendado em casos de circovírus, pois a doença não tem tratamento), ou ainda, a captura das ararinhas que estão em vida livre.

“Matar as ararinhas que reintroduzimos com tanto cuidado significaria, sem dúvida, o fim definitivo do programa de reintrodução e, muito provavelmente, o fim de uma espécie, ou seja, o desaparecimento definitivo da ararinha-azul”, defende o criadouro alemão. “As ararinhas-azuis merecem uma chance de simplesmente viver em liberdade e não sofrerem com as consequências de egos e agendas políticas…”

Nas redes sociais, criadouro de ararinhas-azuis escancara crise com ICMBio e diz que aves foram infectadas no Brasil 
ICMBio recomendou que ararinhas que já tinham ganhado a liberdade fossem recapturadas
Foto: divulgação ACTP

Durante mais de um mês o Conexão Planeta também tentou obter atualizações sobre o surto de circovírus junto ao ICMBio, mas sem sucesso. Após o envio de diversos e-mails, finalmente na última sexta-feira (05/09), recebemos respostas a alguns questionamentos, mas com pouquíssimos dados relevantes. O órgão afirma que não foi registrada nenhuma morte, que a definição do número de aves infectadas só será possível “ao final da bateria de testes que vem sendo realizada” e que “permanece trabalhando nesta emergência sanitária, para a implantação das medidas necessárias para conter a disseminação do vírus.”

A realidade é que a relação entre ICMBio e ACTP já estava ruim bem antes da crise atual. A associação alemã tinha um acordo com o governo brasileiro para realizar o programa de reintrodução, que começou, na prática, em 2020, quando 52 aves chegaram ao Brasil.

Contudo, no final de 2023, 26 ararinhas e quatro araras-azuis-de-lear (Anodorhynchus leari) foram enviadas da Alemanha, para o zoológico indiano Green Zoological, Rescue and Rehabilitation Center (GZZRC)/Vantara, sem a autorização de órgãos ambientais brasileiros, que foram pegos de surpresa pelo envio das mesmas.

Embora as ararinhas tenham nascido na sede da ACTP, na Europa, o acordo entre a associação e o ICMBio e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama), órgão a quem compete dar autorizações sobre transferências internacionais da espécie, estabelece que o país tem soberania sobre espécies endêmicas e por isso deve ser sempre consultado. Quando soube do envio das aves para a Índia, o governo declarou que iria pedir a repatriação delas.

Essa e outras ações da ACTP deixaram o Brasil descontente com a parceria, que não foi renovada. Apesar disso, o programa de reintrodução continuou em Curaçá, sem a participação de profissionais do ICMBio.

Fora do Brasil, há anos a organização alemãe e seu fundador, Martin Guth, são alvos de diversas denúncias. Recentemente o jornal alemão Süddeutsche Zeitung (SZ) publicou uma reportagem mostrando uma possível intermediação dele na compra de animais para o GZZRC, que inclusive, também está sendo investigado pela Suprema Corte da Índia.

Existe um grande temor, com toda razão, sobre o futuro do programa de reintrodução da ararinha-azul, diante de um cenário tão conturbado. Há poucos dias, entretanto, o ICMBio anunciou o estreitamento de uma parceria com o Zoo de São Paulo para a conservação de espécies ameaçadas e endêmicas do Brasil – que em 2024, já tinha inaugurado um centro para a Cyanopsitta spixii. Ainda não está claro se o zoológico paulista pode ganhar um papel de maior relevância na história da ararinha-azul daqui para a frente.

No final da tarde da segunda (08/09), o ICMBio divulgou uma nota em seu site sobre o que vem sendo feito em relação ao surto do circovírus entre as ararinhas-azuis. Sem fazer qualquer menção à ACTP e suas postagens, o órgão afirma que “no momento, não é possível qualquer afirmação responsável em relação à origem do circovírus presente em Curaçá, tendo em vista que isto requer estudos adequados e consistentes. No momento, a prioridade do Estado brasileiro é o combate à disseminação do vírus.”

O texto chama ainda de leviana e irresponsável qualquer declaração, sem embasamento científico, de que o circovírus já estava circulando entre aves selvagens no Brasil.

“A detecção do vírus em exames é dificultada por fatores como intermitência da eliminação viral pelas aves infectadas (a ave pode conter vírus em seu organismo, ainda que não esteja eliminando para o exterior no momento do exame), tipo de amostras coletadas, forma de coleta e armazenamento das amostras e tipo de exame realizado”, explica o ICMBio.

“A ocorrência de falsos-negativos nos resultados torna o cenário complexo, o que gera a necessidade de cuidados extras, como a realização de uma bateria de exames individuais, com amostras diversificadas antes que se possa concluir sobre o estado sanitário de um exemplar ou de uma população, razão pela qual resultados negativos isolados não são suficientes para indicar que o vírus não esteja presente.”

Por último, o instituto destaca que especialistas e pesquisadores renomados vêm sendo consultados e ajudado na tomada de decisões. “Ainda que alguns protocolos indiquem a necessidade de eutanásia de animais positivos, o ICMBio vem buscando avaliar todas as alternativas possíveis”, esclarece.

Redegn com informações Conexão Planeta e ICMBIO Foto reprodução video Icmibio