Opinião: A geração do desleixo: quando a facilidade de hoje compromete o amanhã

Confira texto de João Santos-estudante do Curso de Jornalismo Uneb-Juazeiro Bahia.

Nunca foi tão fácil responder a uma simples atividade escolar. Em questão de segundos, a internet entrega, na palma da mão, resumos prontos, redações e até mesmo trabalhos completos. E é exatamente por essa facilidade de acesso que vai se formando uma geração de estudantes acomodada e convencida de que não precisa mais aprender de verdade.

O ambiente escolar, que antes era um espaço de aprendizado, troca de ideias e construção deconhecimento, virou palco de um novo tipo de desleixo: o intelectual. E o principal culpado dessa situação atende pelo nome de “tecnologia mal utilizada”. Não se trata de uma disputa contra o uso da internet no ensino. A tecnologia tem, sim,
um papel extremamente importante na educação moderna. Ferramentas interativas, plataformas de aprendizado e recursos audiovisuais podem contribuir muito para a experiência em sala de aula. Mas o que vemos atualmente é outra realidade: alunos que deixam de prestar atenção nas aulas porque sabem que depois “é só jogar no ChatGPT que ele responde”. Um comportamento que, antes era raro, agora se tornou comum na rotina escolar, e os professores têm enfrentado cada vez mais a falta de interesse dos alunos.

O impacto desse comportamento é visível. Segundo dados da pesquisa TIC Educação 2023, mais da metade dos alunos admite utilizar a internet para copiar respostas, fazer trabalhos prontos e evitar leituras obrigatórias. A compreensão crítica, a capacidade de interpretação e a escrita autoral estão sendo trocadas por soluções automáticas e superficiais, sem o real entendimento dos alunos. Esse comportamento se torna ainda mais recorrente à medida que o acesso às inteligências artificiais se torna cada vez mais fácil. Por meio delas, alunos que antes levariam uma hora para ler um capítulo completo de um livro agora recebem um resumo pronto em poucos segundos, diretamente na tela de seus celulares ou computadores.

Para tentar conter os danos causados por essa prática, surgiu a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares em sala de aula. Mas como aplicar uma lei se os próprios alunos. zombam dela? Mesmo em vigor, a maioria dos estudantes do Ensino Médio continua levando seus celulares para a escola. Segundo pesquisa realizada pela Equidade.info, juntamente com a Frente Parlamentar da Educação, cerca de 63% dos estudantes do Ensino Médio ainda levamo aparelho celular para a escola todos os dias e mais de 50% deles o acessam durante as aulas.

A verdade é que, para muitos, a escola virou um ambiente “obrigatório”, muitas vezes comparado a uma prisão, onde se vai apenas para cumprir presença e ser monitorado. Porém, a mente continua sempre no celular, nos aplicativos, nos atalhos fáceis para tudo. E quando são cobrados, muitos estudantes se revoltam, como se o erro estivesse no professor.

Essa distorção de valores é extremamente perigosa, pois, com ela, estamos formando uma geração que confunde informação com conhecimento, que acredita que ter acesso a dados é o mesmo que compreendê-los. Ou pior: uma geração que evita o exercício da mente, que foge do desafio de pensar, interpretar e produzir.

O problema, para mim, não é a internet, e sim a mentalidade criada com o uso dela. A visão de que tudo está pronto, de que o esforço é desnecessário, de que basta “pesquisar” para saber, não passa de uma ilusão. É urgente que a escola recupere seu papel central na formação de seres humanos. Não basta mais oferecer conteúdo: é preciso ensinar os alunos a duvidar, questionar, pesquisar de verdade e não apenas digitar palavras específicas esperando respostas fáceis e vazias. É necessário enfrentar esse desleixo com firmeza, mesmo que isso exija o fortalecimento de regras e incomode aqueles que estão acomodados. Porque, se continuarmos assim, estaremos formando alunos prontos para copiar aquilo que não os pertence e incapazes
de criar algo próprio.

Por João Santos-estudante do Curso de Jornalismo Uneb-Juazeiro Bahia