Crônica - PATOLOGIZAÇÃO DO NORMAL: Quando a infância deixa de ser travessura e passa a ser diagnóstico.
A intolerância contemporânea já não se limita a grandes conflitos morais ou a comportamentos efetivamente nocivos. Ela alcança também a inquietação infantil, a espontaneidade humana e até o direito de ser imperfeito. Aos poucos, substitui-se a pedagogia do diálogo pela medicalização da conduta e a orientação paciente pelo diagnóstico apressado.
Durante muito tempo, a infância foi compreendida como território natural da descoberta, da energia e das pequenas travessuras. Meninos corriam, brigavam no recreio, respondiam atravessado, aprontavam alguma arte e, normalmente, tudo terminava em uma advertência dos pais ou em uma conversa firme pelos educadores. Hoje, porém, comportamentos outrora considerados comuns começam a ser observados sob lentes clínicas, como se a espontaneidade tivesse se tornado suspeita...
