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Quando a opinião vale mais que a ciência, por Heloísa de Oliveira Barbosa

Em maio de 2026, após uma fiscalização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) identificar irregularidades no processo de fabricação de produtos da Ypê e determinar a suspensão de alguns lotes da marca, um episódio chamou minha atenção: diversos internautas publicaram vídeos e fotos consumindo detergentes da marca em forma de protesto. Ao me deparar com essas imagens, não consegui deixar de me perguntar até que ponto a desinformação e a negação do conhecimento científico têm influenciado o comportamento das pessoas? Para entender esse fenômeno, é preciso compreender o que é o negacionismo científico.

De modo geral, trata-se da rejeição de evidências e conhecimentos produzidos pela ciência, muitas vezes substituídos por crenças pessoais, valores ideológicos ou, como no caso da Ypê, discursos políticos. No Brasil, essa pauta ganhou grande visibilidade durante a pandemia da COVID-19, quando parte da população passou a questionar a gravidade da doença, a eficácia da vacina e até mesmo a defender tratamentos sem comprovação científica. O que mais me preocupa é perceber que esse cenário não ficou restrito à pandemia. A facilidade com que informações falsas circulam nas redes sociais continua alimentando a desconfiança em instituições científicas e incentivando atitudes que colocam em risco não apenas quem as pratica, mas toda a sociedade. Quando as opiniões passam a valer mais que evidências, o conhecimento perde espaço para a desinformação. Diante disso, fica o questionamento: por que tantas pessoas passaram a desconfiar da ciência? E qual o papel das redes sociais nesse processo? Parte dessa conduta pode ser explicada através de uma análise do efeito Dunning-Kruger, um viés cognitivo que leva indivíduos com pouco conhecimento sobre determinado assunto a superestimarem sua própria capacidade intelectual. Ao acreditarem que dominam temas complexos, essas pessoas passam a rejeitar e desacreditar especialistas e as instituições científicas. Entretanto, o problema vai muito além disso. A velocidade das redes sociais, a circulação de informações sem verificação e a falta de hábito de checar fontes contribuem para a formação de opiniões superficiais apresentadas como verdades absolutas.

Para o filósofo Mário Sérgio Cortella, cujas reflexões nos ajudam a compreender esse fenômeno, a falta de pensamento crítico favorece a alienação e a repetição cega de ideias e comportamentos. Quando milhares de pessoas reproduzem práticas potencialmente perigosas apenas para defender um ponto de vista ou uma posição política, evidencia-se uma preocupante substituição da reflexão pelo impulso coletivo. Além disso, não podemos ignorar o papel da internet e da polarização política nesse cenário. Quantas vezes você já viu uma discussão científica se transformar rapidamente em uma disputa entre lados opostos? Nas redes sociais, a busca por curtidas, compartilhamentos e visibilidade frequentemente parece valer mais do que a busca pela verdade. Políticos, influenciadores e outras figuras públicas frequentemente encontram nesse ambiente uma oportunidade para reforçar discursos e narrativas enganosas que se sustentam mais em crenças e interesses próprios do que em evidências. O episódio envolvendo a fiscalização da Anvisa nas fábricas da Ypê é um exemplo disso. Em vez de se questionarem sobre os motivos da ação do órgão e buscarem informações confiáveis, muitas pessoas preferiram interpretar o caso como uma perseguição política. E quando passamos a desconfiar automaticamente de instituições criadas justamente para proteger a população, o resultado é exatamente o que estamos vendo: a disseminação de desinformação e o enfraquecimento da confiança nas instituições científicas e reguladoras. Mais do que nunca, torna-se necessário desenvolver a capacidade de questionar, investigar e avaliar as informações consumidas por meio das redes sociais antes de aceitá-las como verdades. O enfrentamento ao negacionismo é um processo árduo e demanda esforço coletivo. Para isso, é fundamental investir em educação midiática, fortalecer o pensamento crítico e valorizar a ciência como instrumento de construção do conhecimento. É importante reconhecer que a ciência não é perfeita e está longe de ser infalível...