Artigo - No Largo 2 de Julho, os atabaques ainda anunciam a liberdade

Há sons que atravessam o tempo. Foi isso que senti ao chegar ao Largo 2 de Julho.

O toque dos atabaques não anunciava apenas o início de uma celebração. Anunciava a permanência de uma história, de uma identidade e de uma luta que, quase duzentos anos depois, continua viva no coração do povo baiano.

Dormi ontem com a cabeça no Largo 2 de Julho.

 Planejei chegar às 7h30 para acompanhar a abertura das celebrações da Independência da Bahia.

Só consegui chegar às 9 horas.

E quem perdeu fui eu.

Porque, de longe, já se ouvia o que realmente importava.

Era o bater dos atabaques dos Filhos de Zaze. Um som seguro, firme, que não fica a dever a ninguém. Logo depois vieram os grupos de matrizes africanas com suas coreografias.

E aqui sou suspeito de falar: sou apaixonado por elas. É o corpo contando a história de um povo.

Mas foi o cântico que me conquistou de vez.

Quando o talento dos Filhos de Zaze se uniu ao de Xandão da Bahia, a praça inteira virou raiz.

Eram cânticos que reverenciavam o preto, o caboclo e o indígena.

Era a Bahia cantada na sua essência.

E, bem no centro da praça, lembrando a todos essa origem, permanece firme a estátua de um indígena. Testemunha silenciosa da nossa história.

Foi então que a memória atropelou o presente.

Porque é naquele Largo que o passado das barracas e da antiga feira encontra o som dos atabaques.

Lembrei-me do que aquele espaço já foi, ainda com essa mesma nomenclatura. Talvez, naquela época, muitos de nós não tivéssemos plena consciência do significado histórico do 2 de Julho para a Bahia. Mas, mesmo sem perceber, fazíamos parte dessa história.

Ali existiam inúmeras barracas de madeira. Era a feira da vida: frutas, feijão, utensílios, jornais velhos e livros de bolso.

O Sr. Ercílio vendia jornais antigos e aqueles livros de bolso pelos quais eu era apaixonado, principalmente entre os meus 17 e 19 anos.

Foi ali que comecei a comprar o mundo através da leitura.

Havia também outros comerciantes inesquecíveis: Chiquinho Aguiar, Dona Mercê, muitos integrantes da família Medrado e tantos outros.

A feira ocupava toda a travessa que hoje é o calçadão, atravessava a Rua Antônio Pedro e seguia até a Rua da Usina.

Naquele tempo, o mercado funcionava onde hoje está a Secretaria de Educação.

Também reencontrei pessoas que ainda guardam a memória daquele tempo.

 Entre elas, as filhas do Sr. Rachosa, homem de conduta ilibada na sociedade juazeirense das décadas de 1960 e 1970.

E vale destacar um detalhe importante.

O Sr. Rachosa era alfaiate. Simplesmente um alfaiate.

Como tantos outros homens de ofício daquela geração.

Mas era um homem de extraordinária consciência social e política.

Participava da Maçonaria, dos clubes recreativos e dos clubes de serviço.

Pensava a cidade e compreendia que cidadania se constrói com participação.

Naquela época, isso era quase uma regra.

Carpinteiros, ourives, alfaiates e tantos outros profissionais tinham um profundo senso de coletividade.

Eram homens que acreditavam que uma cidade melhor dependia do compromisso de cada cidadão.

Lembro-me de Saul Rosa, esse foi imortalizado pelas suas ações, Tadeu Fernandes, Valter Mendes, Cidu, Dominguinho, Paulo Bispo, Tonhozinho, Seu Berto, Sabino Araújo, João Dantas, Dedé Caxias e tantos outros.

Homens que pensavam, Juazeiro, acreditavam no potencial da pessoa humana e entendiam que o crescimento de uma cidade dependia, antes de tudo, da participação dos seus cidadãos.

Parte da família Brandão também ocupava muitas das residências ao redor do Largo. Pessoas que ainda hoje tenho a alegria de encontrar.

Foi ali também que revi o Coronel da Polícia Militar Pedro Brandão, responsável pela coordenação das fanfarras.

Hoje, careca.

Mas bastou puxar pela memória para lembrar da vasta cabeleira que exibia na juventude.

O tempo passou para todos nós.

Ao longo de toda a programação, um personagem teve papel fundamental para manter acesa a emoção da celebração: o radialista Paulo Cesar Carvalho.

Com a competência de quem conhece a comunicação e, principalmente, a história do seu povo, Paulo Cesar conduziu a apresentação das atrações com entusiasmo, sensibilidade e profundo respeito pelo significado do 2 de Julho.

Sua voz não apenas anunciava cada apresentação; ajudava a costurar a memória, a cultura e o sentimento de pertencimento que tomavam conta do Largo.

As fanfarras do CAIC e do Colégio CODEFAS deram um espetáculo de disciplina e emoção.

E, para encerrar, os Filhos de Zaze, ao lado de Xandão da Bahia, cantaram a Independência da Bahia.

Na verdade, cantaram muito mais do que um episódio histórico.

Cantaram nossas origens.

Cantaram a coragem dos que construíram esta terra.

Cantaram, o orgulho de ser baiano.

Cantaram o sentimento de pertencimento de um povo formado por diferentes raças, culturas e tradições que aprenderam a fazer da diversidade a sua maior riqueza.

Naquele Largo, compreendi que o espírito da Independência continua vivo.

A luta já não é mais contra as tropas portuguesas.

Hoje, os desafios são outros. São a desigualdade social, a exclusão, o desemprego, a falta de moradia digna, a negação da cidadania e o preconceito que ainda insiste em limitar oportunidades pela cor da pele, pela origem, pelo gênero, pela condição social ou pela pobreza.

Mas há uma diferença fundamental em relação ao passado.

Os grupos historicamente marginalizados já não esperam que os detentores do poder decidam quando ou quanto poderão participar da vida da sociedade.

Estão cada vez mais conscientes de seus direitos, mais organizados e mais determinados a ocupar os espaços que lhes pertencem por justiça, e não por concessão.

 A história tem mostrado que os direitos mais importantes nunca foram presentes dos poderosos; foram conquistas de quem teve coragem de lutar por eles.

A verdadeira Independência, nos dias de hoje, exige garantir a todos o direito de viver com dignidade, de trabalhar, de estudar, de morar, de participar das decisões da sociedade e de serem tratados com igualdade e respeito.

Enquanto os atabaques ecoavam no Largo 2 de Julho, compreendi que a Independência da Bahia não pertence apenas ao passado. Ela continua nos convocando para novas batalhas, travadas não com espadas ou canhões, mas com consciência, participação, educação, organização e compromisso com o bem comum.

Precisamos construir uma sociedade em que ninguém tenha de pedir licença para exercer seus direitos, porque cidadania não é favor, participação não é concessão e igualdade não é privilégio.

São fundamentos de uma democracia verdadeira.

É justamente essa consciência que renova a esperança.

Ver homens e mulheres, jovens e idosos, negros, indígenas, brancos e todos aqueles que, por tanto tempo, foram silenciados, assumindo o protagonismo da própria história e defendendo seus direitos com coragem e responsabilidade, nos faz acreditar que um mundo melhor não é apenas um sonho distante.

É uma construção diária.

São esses posicionamentos, firmes e conscientes, que nos fazem ter esperança e acreditar que uma sociedade mais justa, mais fraterna e verdadeiramente democrática é possível.

Talvez esse seja o maior legado do 2 de Julho: lembrar que a liberdade não termina quando se vence uma batalha. Ela se fortalece cada vez que um cidadão decide não se calar diante da injustiça e escolhe participar da construção do bem comum.

Porque, se ontem a luta era pela independência de um povo, hoje ela é pela independência da pobreza, da desigualdade, da discriminação, da intolerância e de todas as formas de opressão.

O 2 de Julho, não terminou em 1823. Ele continua vivo sempre que um cidadão se levanta para defender a dignidade humana, a justiça e o direito de todos participarem, em igualdade de condições, da construção da Bahia e do Brasil.

A Independência da Bahia nos deu um território livre.

A nossa geração tem a missão de construir uma sociedade verdadeiramente livre.

VIVA A BAHIA

NÃO SE GOVERNA ESCONDENDO O LIXO

Ontem estive no Largo 2 de Julho e vi uma linda festa cívica organizada pelo povo.

As fanfarras deram um espetáculo.

Mas uma cena chamou a atenção.

O mestre de cerimônias, Paulo Cesar, pediu várias vezes que um ônibus escolar fosse retirado para liberar o desfile.

 O ônibus permaneceu no local.

Depois vieram as imagens: atrás do ônibus, uma grande quantidade de lixo acumulado.

A impressão que ficou foi inevitável: em vez de limpar a praça para uma das datas mais importantes da Bahia, preferiram esconder o problema.

O mais preocupante é que essa cena retrata a realidade que muitos juazeirense vivem diariamente: ruas sujas, iluminação precária, muriçocas, cães soltos e uma gestão que pouco responde aos questionamentos da população.

Não existe marketing capaz de substituir uma cidade bem cuidada.

Quem ama Juazeiro não quer maquiagem.

Quer limpeza, respeito, transparência e trabalho.

Porque lixo não se esconde.

Lixo se recolhe.

Obrigado

Luiz Alves